'Traição': por que os pecuaristas dos EUA estão furiosos com Trump
Governo americano libera importação adicional de 300 mil toneladas para conter preços, mas pecuaristas temem pressão sobre o setor

Pecuaristas dos Estados Unidos criticaram a decisão do presidente Donald Trump de ampliar as importações de carne bovina como tentativa de conter os preços no mercado americano. A medida autoriza a entrada adicional de 300 mil toneladas da proteína sem a tarifa aplicada sobre volumes que excedem as cotas atuais.
Para representantes do setor, porém, a iniciativa pode dificultar a recuperação do rebanho americano em um momento de oferta restrita. O anúncio terá duração de 90 dias e é voltado principalmente para carne destinada à produção de carne moída, um dos produtos mais pressionados pela menor disponibilidade de animais nos Estados Unidos.
Para a Meriwether Farms, empresa de criação de gado do Wyoming, a decisão de Trump representa uma“traição” aos produtores americanos. A crítica reflete uma preocupação mais ampla entre pecuaristas: a possibilidade de que o aumento das importações pressione os preços recebidos pelos produtores justamente quando o setor tenta reconstruir o rebanho e recuperar margens.
Colin Woodall, diretor executivo da Associação Nacional de Pecuaristas de Carne Bovina (NCBA, na sigla em inglês), afirmou estar desapontado com a declaração do presidente. “Inundar o mercado com carne bovina subsidiada pelo governo e a preços abaixo do mercado não é a maneira de reconstruir o rebanho bovino americano”, disse.
Justin Tupper, presidente da Associação de Pecuaristas dos Estados Unidos, fez uma crítica semelhante. “Não se coloca a América em primeiro lugar colocando os produtores de gado dos EUA em último. Essa medida enfraquecerá nossos mercados", afirmou.
A reação do setor pecuário ocorre em meio a uma relação já desgastada entre produtores rurais e o governo Trump.
Em 2025, durante o anúncio do pacote de tarifas comerciais do presidente americano, produtores de soja e milho também criticaram a política comercial da Casa Branca diante da perda de espaço dos produtos agrícolas americanos no mercado internacional, especialmente na China.
Agora, além das entidades do setor, parlamentares republicanos também passaram a questionar a decisão relacionada à carne bovina.
A deputada Ashley Hinson, republicana do Iowa e candidata ao Senado com apoio de Trump, também se posicionou contra a medida. “Quero baixar os preços, mas esta é uma má ideia”, disse.
As críticas acontecem em um momento delicado para a pecuária americana. No ano passado, os pedidos de falência no agronegócio dos Estados Unidos cresceram 46% em relação a 2024, segundo a American Farm Bureau Federation (AFBF), alcançando 315 pedidos de falência agrícola.
A pressão financeira deve continuar no médio prazo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima que a dívida agrícola total aumentará 5,2% neste ano, atingindo o recorde de US$ 624,7 bilhões.
Segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA, o preço da carne bovina subiu cerca de 25% desde que Trump retornou à Casa Branca, em janeiro de 2025, passando de aproximadamente US$ 5,50 para US$ 6,85 por libra.
A secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, defendeu a decisão durante uma visita à Feira Estadual de Iowa.
Segundo ela, a principal prioridade do governo é reduzir o gasto das famílias com alimentação, e as importações adicionais de cortes magros ajudariam a diminuir o preço da carne moída. “Veremos o custo da carne moída cair”, afirmou.
Crise da carne nos EUA
O anúncio de Trump ocorre em um momento em que os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos Estados Unidos, marcado pela menor disponibilidade de animais, aumento dos custos e margens apertadas.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos EUA atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir as áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.
Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.
As restrições sanitárias impostas às importações de gado do México, um dos principais fornecedores dos Estados Unidos, em razão do avanço da bicheira-do-Novo-Mundo, adicionaram pressão à disponibilidade de animais no país.
O resultado é alta nos preços da carne bovina. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis. Segundo o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente no país, especialmente às vésperas da temporada de churrascos de verão.
A situação fez a Tyson Foods, um dos principais frigoríficos dos EUA, a fechar unidades no país. Além dela, JBS e Cargill encerraram operações em unidades nos Estados Unidos em 2025, em um movimento interpretado por analistas como sinal de que as condições da indústria são ainda mais difíceis do que o esperado.
