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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
28/05/2026
5 min

Transmissão vira peça-chave da corrida energética no Brasil

Transmissão vira peça-chave da corrida energética no Brasil

O Brasil já produz energia renovável em larga escala. O desafio, agora, é fazer essa energia chegar aonde cresce a demanda. A expansão de fontes eólicas e solares, o avanço da eletrificação e a chegada de novas cargas intensivas em energia, como data centers, hidrogênio verde e inteligência artificial, colocaram a transmissão no centro da transição energética brasileira.

Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que os investimentos em transmissão devem somar cerca de R$ 96 bilhões entre 2023 e 2026. Ainda assim, representantes do setor avaliam que há um descompasso entre o ritmo das obras e as necessidades do sistema, pressionadas pela expansão renovável e pela maior complexidade das conexões.

O tema esteve no centro do evento “Redes do Amanhã”, realizado pela EXAME em parceria com a PSR, consultoria global especializada em energia e referência em planejamento, regulação e modelagem do setor elétrico.

No painel “Perspectivas regulatórias e de investimentos para a transmissão de energia”, representantes da EPE, da Abdib, da Hitachi Energy e da PSR defenderam que o país precisará combinar planejamento, tecnologia, regulação e capacidade industrial para evitar que a rede se torne um gargalo para o crescimento.

O debate foi moderado por Amanda Fernandes, head da área de Redes da PSR, e contou com Carlos Adolfo Pereira, coordenador do Comitê de Transmissão da Abdib; Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil e head de South Latam; e Thiago Dourado Martins, superintendente de Transmissão de Energia da EPE.

Segundo os participantes, o Brasil precisa agir rapidamente para aproveitar a janela de oportunidade aberta por empresas eletrointensivas que buscam energia renovável, abundante e competitiva.

A corrida para evitar um gargalo na rede

A pressão por prazo e capacidade já chegou à cadeia de fornecedores. No caso da Hitachi Energy, a leitura sobre o crescimento da demanda se reflete na expansão da produção local.

A empresa está construindo uma nova fábrica de transformadores em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, como parte de um investimento de aproximadamente US$ 200 milhões no Brasil, anunciado em 2024.

Cerca de 80% desse valor será destinado à nova unidade, que deve ajudar a dobrar a capacidade de produção da companhia no país.

Além desse aporte inicial, a Hitachi Energy anunciou este ano um investimento adicional de cerca de US$ 161 milhões na América Latina. O pacote inclui US$ 80 milhões para expandir a fábrica de transformadores de Dosquebradas, na Colômbia, e US$ 81 milhões para acelerar o crescimento das unidades de Pindamonhangaba e Guarulhos, e implantar um Centro de Serviços no Brasil.

Os projetos, com conclusão prevista para 2028, buscam atender à demanda por equipamentos capazes de integrar mais fontes renováveis à rede elétrica. Também miram o avanço da eletrificação, dos data centers e da inteligência artificial, setores que dependem de disponibilidade de energia, conexão e segurança operacional.

Para Glauco Freitas, planejamento e transparência são essenciais para que a indústria consiga se preparar para o novo ciclo de expansão. Referência mundial em energia renovável e integração de sistemas, o Brasil precisa reassumir seu protagonismo para que suas redes acompanhem a era da eletricidade que já estamos vivendo.O executivo também defendeu uma visão sistêmica da infraestrutura, com coordenação entre energia, transportes, portos, aeroportos e outros setores necessários para atrair investimentos.

Rede precisa chegar antes do gargalo

Segundo Thiago Dourado Martins, da EPE, o planejamento da transmissão precisa considerar o descompasso entre o prazo de implantação das fontes renováveis e o tempo necessário para construir a infraestrutura de rede.

Enquanto projetos eólicos e solares podem entrar em operação em até três anos, obras de transmissão costumam exigir prazos próximos de cinco anos.

Para reduzir esse intervalo, a EPE vem trabalhando com estudos prospectivos. Nos estudos realizados entre o fim de 2021 e o início de 2022, a estatal identificou investimentos da ordem de R$ 60 bilhões, com mais de 15 mil quilômetros de linhas de transmissão e um novo bipolo de corrente contínua.

Essas obras foram licitadas nos leilões de 2023 e 2024 e devem entrar em operação entre 2028 e 2030.

Mais recentemente, a EPE concluiu outro estudo voltado ao escoamento de geração renovável do Nordeste para o Sudeste. O projeto inclui o bipolo Angicos–Itaporanga 2, com cerca de 2.500 quilômetros de extensão e tecnologia VSC, inédita no Brasil para esse tipo de aplicação. O investimento estimado é de R$ 30 bilhões, com previsão de licitação em 2027.

A modernização também passa por tecnologias capazes de dar mais estabilidade e flexibilidade à rede. Entre as soluções avaliadas pela EPE estão compensadores síncronos, baterias, sistemas FACTS e DLR — tecnologia que permite ajustar os limites operacionais das linhas conforme as condições climáticas.

Data centers e IA ampliam a pressão sobre a transmissão

A demanda dos data centers apareceu no painel como um novo vetor de pressão sobre a transmissão. Hoje, o Brasil já acumula cerca de 200 empreendimentos do setor, com maior concentração em São Paulo, e a previsão é atrair entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões em novos investimentos nos próximos anos.

No Plano Decenal 2035, a EPE mapeou cerca de 25 GW de potenciais cargas associadas a data centers. Em São Paulo, estudos concluídos ou em andamento podem abrir margem para a conexão de aproximadamente 9 GW.

Ao fim do painel, Amanda Fernandes resumiu os principais desafios discutidos no evento em três frentes: “tecnologia, rapidez e governança”.

A avaliação dos participantes é que o Brasil já possui uma base renovável competitiva, mas precisará acelerar planejamento, licenciamento, regulação e cadeia de suprimentos para transformar esse potencial em vantagem econômica de longo prazo.

AutorEXAME Solutions
FonteExame
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