Trump anuncia cessar-fogo energético entre Rússia e Ucrânia; Kiev nega acordo
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou que o afrouxamento das restrições pode proporcionar mais recursos financeiros à Rússia para manter a guerra

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste domingo que Rússia e Ucrânia chegaram a um acordo para um cessar-fogo energético com efeito imediato. O anúncio foi feito nas redes sociais e ocorreu horas depois de o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, rejeitar pressões americanas para interromper ataques contra refinarias russas.
Apesar da declaração de Trump, autoridades ucranianas afirmaram não ter recebido informações prévias sobre qualquer acordo. Zelensky disse que soube da suposta trégua por meio da publicação do líder americano, mas declarou que a Ucrânia aceitaria um cessar-fogo energético caso Moscou também suspendesse ataques contra a infraestrutura do país. A Rússia não comentou o anúncio.
Zelensky diz que desconhecia acordo
Em mensagem publicada na Truth Social, Trump afirmou que as duas partes aceitaram interromper ataques ao setor energético.
Segundo Zelensky, porém, a informação foi uma surpresa. Em entrevista ao Axios, o presidente ucraniano declarou que não havia sido comunicado sobre qualquer entendimento prévio.
O líder ucraniano ressaltou que Kiev está disposta a aderir a uma trégua no setor energético, desde que a medida seja recíproca.
"Se os russos concordarem com um cessar-fogo energético, a Ucrânia também concordará", afirmou.
Fontes do governo ucraniano relataram ao Financial Times e à Reuters que o país não recebeu detalhes sobre a proposta anunciada por Trump.
Suspensão de sanções gera críticas
O anúncio acontece poucos dias após o governo americano suspender sanções sobre exportações russas de diesel.
Trump argumentou que os ataques ucranianos contra refinarias da Rússia contribuem para a alta global dos preços dos combustíveis, tema que ganhou relevância política nos Estados Unidos às vésperas das eleições de meio de mandato, previstas para novembro.
Zelensky rejeitou essa avaliação e afirmou que a escalada dos preços está ligada principalmente ao conflito envolvendo o Irã e à instabilidade no Oriente Médio.
Nos últimos dias, Trump também aumentou o tom das críticas ao presidente ucraniano. O republicano defendeu que Kiev interrompa os ataques contra refinarias russas e chegou a afirmar que a Ucrânia necessita de uma nova liderança política.
Zelensky classificou a flexibilização das sanções como uma medida "fraca" e alertou que a decisão pode aumentar as receitas do governo de Vladimir Putin, fortalecendo o esforço de guerra russo.
Europa teme enfraquecimento da pressão sobre Moscou
A suspensão das sanções também provocou reações negativas entre autoridades europeias.
Analistas avaliam que a medida dificilmente reduzirá os preços dos combustíveis de forma significativa, enquanto parlamentares e governos do continente alertam para o risco de diminuir a pressão econômica sobre Moscou.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou que o afrouxamento das restrições pode proporcionar mais recursos financeiros à Rússia para manter a guerra.
Kiev exige garantias concretas
Antes mesmo do anúncio de Trump, Zelensky já havia sinalizado que a Ucrânia estaria disposta a interromper ataques de drones contra refinarias e instalações energéticas russas.
A condição apresentada por Kiev é que Moscou suspenda os bombardeios contra a infraestrutura elétrica ucraniana.
Segundo o presidente, qualquer entendimento precisa ser acompanhado de garantias concretas e mecanismos que assegurem o cumprimento do acordo.
Ataques continuam em ambos os lados
Apesar do anúncio do suposto cessar-fogo, os confrontos seguiram durante o fim de semana.
Autoridades ucranianas informaram que bombardeios russos deixaram oito feridos em Kiev e provocaram a morte de um menino de 11 anos em Dnipro. Danos em instalações de energia e abastecimento de água levaram a capital a recomendar que moradores armazenassem água.
Do lado russo, drones ucranianos atingiram mais um centro de dados da empresa de tecnologia Yandex, na região de Vladimir, a leste de Moscou. Foi o terceiro ataque contra estruturas da companhia em quatro dias.
As ações também provocaram interrupções em serviços digitais, afetando o aeroporto de Pulkovo, em São Petersburgo, e a rede de restaurantes Vkusno I Tochka, sucessora do McDonald's na Rússia.
Zelensky admite eleições em troca de trégua
Em meio às divergências com Trump, Zelensky afirmou que poderia convocar eleições presidenciais caso a Rússia aceitasse um cessar-fogo total de 60 dias.
A declaração foi feita em entrevista à ABC. O presidente destacou que a escolha do líder do país deve caber aos ucranianos, mas lembrou que a legislação impede a realização de eleições durante a vigência da lei marcial.
A proposta surge após Trump defender a substituição da liderança ucraniana e cobrar a realização de novas eleições no país.
Popularidade em queda
A discussão ocorre em um momento de desgaste político para Zelensky.
O presidente enfrenta críticas relacionadas a denúncias de corrupção envolvendo integrantes de seu entorno e decisões recentes dentro do governo, incluindo mudanças em cargos estratégicos.
De acordo com o Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, o índice de confiança no presidente caiu de 65% para 58% em um ano.
Apesar disso, até mesmo adversários políticos de Zelensky rejeitaram as declarações de Trump sobre uma eventual troca de comando na Ucrânia. Para parte da oposição, a definição da liderança nacional é uma decisão exclusiva dos eleitores ucranianos.
Enquanto o debate político se intensifica, Zelensky informou que manterá reuniões com líderes europeus para discutir novos pacotes de ajuda militar, incluindo sistemas de defesa aérea e munições para combater ataques russos.
