Trump apresenta sinais contraditórios sobre o Irã enquanto a guerra entra no 4º mês

A Casa Branca voltou a emitir sinais divergentes sobre o andamento das negociações com o Irã, refletindo os obstáculos enfrentados pelo presidente Donald Trump para encerrar um conflito que já se estende por quatro meses.
As mensagens contraditórias se repetiram nesta sexta-feira. Durante a manhã, Trump afirmou em uma publicação nas redes sociais que estava preparado para tomar uma “decisão final” sobre uma proposta preliminar destinada a prolongar um cessar-fogo considerado frágil. No entanto, horas depois, o presidente deixou uma reunião na Casa Branca sem qualquer definição, segundo informações do New York Times baseadas em declarações de um alto integrante do governo.
O episódio reforçou um cenário recorrente nas negociações: enquanto autoridades dos dois lados indicam proximidade de um entendimento, novas declarações evidenciam divergências sobre temas que há meses impedem um avanço definitivo. Entre os principais impasses estão o destino do urânio enriquecido do Irã, o futuro de seu programa nuclear e as condições para a navegação no Estreito de Ormuz.
A alternância de discursos tem surpreendido investidores, mas a expectativa de um acordo capaz de abrir caminho para o encerramento do conflito ajudou os mercados acionários a manterem uma sequência de altas semanais. Ainda assim, persiste o receio de que uma nova mudança de posicionamento da Casa Branca comprometa esse otimismo.
Kevin Book, diretor administrativo da ClearView Energy Partners, consultoria com sede em Washington, afirmou à Bloomberg que existe um "desconto da incerteza" nos mercados. Segundo ele, investidores enfrentam "o desafio de entrar no fim de semana sem saber o que o presidente vai dizer".
Trump não tinha compromissos públicos previstos para esta sexta-feira. O presidente já demonstrou preferência por anunciar operações militares e decisões relevantes após o fechamento das bolsas americanas ou durante os fins de semana. Neste período, parte do Oriente Médio celebra o feriado do Eid.
Na publicação feita ao longo do dia, Trump reiterou que o Irã não deve desenvolver armas nucleares e defendeu a reabertura do Estreito de Ormuz sem cobrança de pedágios. O presidente, contudo, não esclareceu se houve concordância iraniana em relação a essas condições.
Expectativa sobre o acordo de paz
As dúvidas sobre o rumo das conversas aumentaram nos últimos dias. Na quinta-feira, representantes do governo americano confirmaram que negociadores haviam chegado a um memorando de entendimento para estender o cessar-fogo por 60 dias e iniciar novas tratativas sobre a questão nuclear, dependendo apenas da aprovação presidencial.
No entanto, pouco depois dessa sinalização o secretário do Tesouro, Scott Bessent, evitou reconhecer publicamente a existência de um acordo provisório durante entrevista na Casa Branca. Mais tarde, o vice-presidente JD Vance afirmou que os envolvidos continuavam "discutindo alguns pontos controversos".
Estreito de Ormuz: abertura da rota de escoamento do petróleo segue incerta. (GettyImages)
Bessent listou três condições consideradas essenciais para qualquer entendimento: a reabertura do Estreito de Ormuz, a transferência do urânio altamente enriquecido do Irã e o encerramento do programa nuclear iraniano. Mesmo nesses temas, Trump adotou posições distintas ao longo das negociações.
Em relação ao estreito, o presidente já sugeriu anteriormente uma administração conjunta do fluxo marítimo entre Estados Unidos e Irã. Nesta semana, passou a defender que nenhum país exerça controle sobre a passagem, afirmando que os EUA apenas a "vigiariam". Sobre o programa nuclear, Trump declarou em momentos diferentes que aceitaria apenas uma interrupção permanente das atividades e, posteriormente, afirmou que uma suspensão de 20 anos seria “suficiente”.
Do lado iraniano, as mensagens também permanecem pouco claras. Nesta sexta-feira, veículos estatais do país informaram que o memorando de entendimento ainda não havia sido concluído e sofreu alterações recentes. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, declarou que eles “não confiam em garantias ou palavras” e que “nenhuma ação será tomada antes que a outra parte aja”.
Enquanto isso, Donald Trump segue afirmando que não aceitará um acordo considerado desfavorável. Ao mesmo tempo, rejeita comparações entre o conflito atual e os longos envolvimentos militares que criticou ao longo de sua trajetória política. A operação, que o presidente descreveu como uma “excursão”, já superou a estimativa inicial de duração entre quatro e seis semanas apresentada por integrantes do governo.
A pressão política para encerrar o confronto continua crescendo. Pesquisas indicam desaprovação popular em relação à guerra, enquanto o aumento dos preços da gasolina amplia preocupações sobre os impactos econômicos do conflito. Apesar disso, Trump afirma publicamente que as tensões políticas não influenciam sua estratégia de negociação com o Irã.
Mesmo diante das declarações divergentes emitidas por diferentes integrantes do governo, permanece a percepção de que a decisão final dependerá exclusivamente do presidente. Como resumiu Bessent: "Tudo depende do que o presidente quer fazer".
