Trump cobra corte de preços de companhias americanas antes das eleições de novembro

O presidente americano Donald Trump ampliou a pressão sobre empresas dos Estados Unidos para que reduzam preços diante do avanço da inflação, que atingiu o maior nível em três anos após a escalada dos custos provocada pela guerra. O cenário também aumenta a preocupação do Partido Republicano às vésperas das eleições de meio de mandato, marcadas para novembro.
Nas últimas semanas, o presidente direcionou críticas a diferentes setores da economia. Entre elas, afirmou que postos de combustíveis poderão enfrentar "grandes problemas" caso não promovam uma redução significativa nos preços. Trump também atribuiu ao próprio governo a decisão do Walmart de diminuir os valores de milhares de produtos comercializados pela rede.
Nova postura política de Trump
Para analistas consultados pelo site Financial Times, as manifestações mais recentes representam uma mudança na postura tradicionalmente associada ao livre mercado. Eles apontam que as cobranças públicas às empresas se somam a iniciativas anteriores do governo para influenciar investimentos privados, negociar participações acionárias e condicionar aprovações regulatórias.
"Essa é uma guinada insana para um governo conservador", disse Paasha Mahdavi, cientista político da UC Santa Barbara. "O que tenho visto Trump fazer é algo que eu e outros chamamos de Trumpismo."
"É bastante irônico que um presidente que vinha exaltando os mercados livres esteja na verdade adotando a cartilha socialista e hiperpopulista —e isso é realmente alarmante", acrescentou.
Na segunda-feira, Trump escreveu na Truth Social que o Walmart havia reduzido preços "a pedido do meu governo" e incentivou outras varejistas a "seguir o exemplo desses patriotas absolutos".
A rede, no entanto, não relacionou a promoção de verão anunciada nesta semana às declarações do presidente. A campanha foi lançada após um encontro entre representantes do varejo e integrantes do Departamento de Agricultura. Procurada, a empresa não comentou o assunto.
Pressão sobre o setor de combustíveis
O presidente também voltou sua atenção ao setor de combustíveis. Em outra publicação, pediu que os postos "baixarem seus Preços, IMEDIATAMENTE" e orientou que "começarem a mirar em torno de US$ 2,50 (R$ 12,80) por galão". Ao mesmo tempo, o governo iniciou uma investigação sobre possíveis práticas de preços abusivos. "Se os Varejistas não fizerem isso, grandes problemas virão pela frente", alertou.
Michael Strain, diretor de estudos de política econômica do American Enterprise Institute, organização de orientação conservadora, afirmou que as intervenções têm uma "qualidade de desespero" e ocorrem "em um nível diferente" em comparação com governos anteriores.
"Acho que é uma indicação de quão encrencado o presidente está, porque tudo está muito caro", acrescentou.
A postura atual contrasta com o discurso feito por Donald Trump durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, em 2020. Na ocasião, ele classificou o capitalismo dos Estados Unidos como "um exemplo para o mundo de um sistema de livre iniciativa que produzirá os maiores benefícios para o maior número de pessoas".
As cobranças por redução de preços ocorrem enquanto o aumento dos custos de combustíveis, impulsionado pela guerra contra o Irã, levou a inflação americana ao maior patamar em três anos. Em maio, a alta anual dos preços chegou a 4,2%.
O aumento do custo de vida também tem afetado a avaliação do governo. Pesquisa recente do site Financial Times apontou que 58% dos entrevistados consideram que a guerra não compensou seus custos, ampliando o desafio da Casa Branca na tentativa de recuperar apoio antes das eleições de novembro.
Um integrante da Casa Branca afirmou que o objetivo das medidas é ampliar a oferta de produtos para reduzir os preços ao consumidor e rejeitou a avaliação de que o governo tenha abandonado os princípios do livre mercado.
"Há uma narrativa de que o governo está sendo autoritário e violando o livre mercado, mas tudo se baseia em um entendimento fundamental de Economia 101: quando você aumenta a oferta, os preços caem."
"A substância real além da retórica é inequivocamente de livre mercado", acrescentou o funcionário. "Não há nenhuma arma apontada para a cabeça de ninguém."
O retorno de Trump à presidência foi impulsionado, em parte, pela insatisfação dos eleitores com a inflação registrada durante o governo de Joe Biden. Durante a campanha, ele prometeu "acabar com a inflação" e "tornar a América acessível novamente".
Agora, porém, o governo enfrenta críticas semelhantes. Democratas passaram a utilizar a expressão "Trumpflação" para atribuir às políticas do presidente — incluindo a guerra contra o Irã e a política tarifária — a recente aceleração dos preços.
Desde o início do conflito, em fevereiro, o preço da gasolina subiu cerca de 30%, alcançando US$ 3,88 (R$ 19,93) por galão, apesar da queda em relação ao pico registrado em maio. O diesel acumulou aumento de aproximadamente um terço. Estimativa da Universidade Brown indica que a guerra acrescentou mais de US$ 500 (R$ 2.555) aos gastos anuais médios das famílias americanas com combustível.
O impacto também alcançou outros segmentos da economia por causa do aumento dos custos de transporte. Frutas e verduras, por exemplo, ficaram 6% mais caras na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Ron Bonjean, estrategista republicano, afirmou que o governo precisa demonstrar aos eleitores que atua para reduzir a inflação.
"Ajuda o governo mostrar que está tentando", disse ele. "[Mas] é muito difícil superar isso a menos que as coisas realmente mudem."
Desgaste político de Trump
Levantamento realizado pela FT Focaldata na semana anterior mostrou que 67% dos eleitores desaprovam a condução de Trump em relação ao custo de vida. Já a aprovação geral do presidente ficou em 36%, dois pontos percentuais abaixo do resultado registrado no mês anterior.
Economistas favoráveis ao livre mercado avaliam que a pressão exercida pelo governo sobre empresas pode gerar efeitos permanentes sobre o ambiente de negócios.
"Há uma corrupção geral da economia de mercado que estamos vendo neste governo ao usar o púlpito do poder para intimidar empresas sobre preços e decisões de investimento", disse Ryan Bourne, do Cato Institute, um think tank libertário.
"Isso provavelmente leva as empresas a reagir e cortar preços de uma forma que não é do interesse de seus acionistas ou clientes, o que é algo que terá efeitos negativos muito depois de o governo ter ido embora."
Parte das iniciativas da Casa Branca, no entanto, apresentou resultados. A campanha para conter a gripe aviária, somada às investigações sobre aumentos de preços, contribuiu para a queda do valor dos ovos após os recordes registrados em março de 2025. O governo também fechou acordos com empresas farmacêuticas para reduzir os preços de medicamentos por meio do programa de seguro Trump Rx.
