Trump diz que Irã aceitou inspeções nucleares; Teerã contesta

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Irã concordou em permitir inspeções internacionais em suas instalações nucleares por tempo indeterminado.
Teerã, porém, negou ter feito qualquer concessão nesse sentido, evidenciando divergências sobre pontos centrais do acordo firmado na semana passada para encerrar a guerra.
As declarações ocorreram após a primeira rodada de negociações entre os dois países, realizada na Suíça e encerrada na segunda-feira. Além da questão nuclear, Washington e Teerã apresentaram versões diferentes sobre o acesso a ativos iranianos congelados, o controle do Estreito de Ormuz e os desdobramentos da guerra paralela entre Israel e Hezbollah no Líbano.
Apesar das divergências, Trump afirmou que as conversas avançam de forma positiva.
"Estamos nos dando muito bem", disse o presidente durante um comício na Pensilvânia.
Os Estados Unidos também flexibilizaram restrições de viagem para a seleção iraniana na Copa do Mundo. A equipe poderá viajar de Tijuana, no México, para Seattle dois dias antes da próxima partida, em vez de apenas um.
Apoio à guerra perde força nos EUA
Enquanto as negociações seguem, o conflito enfrenta resistência crescente dentro dos Estados Unidos.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos mostrou que 35% dos americanos acreditam que o país está em posição pior em relação ao Irã do que antes da guerra. Apenas 23% avaliam que a situação melhorou.
O desgaste também apareceu no Congresso. O Senado aprovou, por 50 votos a 48, uma resolução para interromper o envolvimento militar americano no conflito.
A medida, de caráter majoritariamente simbólico, expôs divisões dentro do Partido Republicano e marcou a primeira vez que Câmara e Senado aprovaram uma resolução baseada na Lei dos Poderes de Guerra para exigir a retirada de forças armadas de um conflito.
Estreito de Ormuz volta a operar
O acordo inicial entre Washington e Teerã permitiu a retomada do tráfego no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do fornecimento global de energia.
A Organização Marítima Internacional trabalha para retirar aproximadamente 11 mil marinheiros que ficaram retidos após o fechamento da passagem pelo Irã.
O entendimento prevê a livre circulação de embarcações por 60 dias. Depois desse período, Teerã indicou que poderá discutir a cobrança de tarifas ou outras taxas de navegação.
Em comunicado conjunto, Irã e Omã ressaltaram seus "direitos soberanos" sobre a região e afirmaram que vão cooperar na gestão do tráfego marítimo.
Já o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou que Washington não aceitará qualquer cobrança de pedágio no estreito como parte de um acordo definitivo.
Divergências sobre programa nuclear e ativos congelados
O acordo assinado na semana passada não estabelece limites para o programa nuclear iraniano. O tema deverá ser tratado ao longo dos próximos 60 dias de negociações.
Trump afirmou nas redes sociais que o Irã aceitou inspeções internacionais "no mais alto nível" e "para sempre".
O governo iraniano rejeitou a declaração e afirmou que o programa nuclear sequer foi discutido durante as negociações. Teerã também negou ter concordado com o retorno de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Outro ponto de divergência envolve recursos iranianos bloqueados no exterior. Segundo Trump, o dinheiro liberado seria destinado à compra de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos. Já o embaixador iraniano junto à ONU em Genebra, Ali Bahreini, afirmou que caberá ao próprio Irã decidir como utilizar os recursos.
Washington já suspendeu por 60 dias algumas sanções, permitindo que Teerã volte a exportar petróleo e produtos derivados e receba pagamentos pelas vendas.
A situação no Líbano permanece entre os principais entraves para um acordo definitivo.
Bahreini afirmou que o entendimento prevê a retirada das tropas israelenses do território libanês. Israel, por sua vez, sustenta que manterá uma zona de segurança no sul do país e continuará atuando contra ameaças consideradas hostis.
Mesmo com a retomada das negociações entre Israel e Líbano em Washington, dois civis morreram no sul do território libanês após disparos israelenses, segundo autoridades locais.
O Hezbollah acusou Israel de violar o cessar-fogo que está em vigor desde domingo.
