Trump e família vão ser investigados com Congresso democrata, diz Maurício Moura
Em entrevista ao Macro em Pauta, o fundador do Instituto IDEIA e professor da Universidade George Washington afirmou que os negócios do presidente e de parentes, incluindo filho e genro, estarão na mira das comissões do Congresso — e que impeachment na Câmara é "possibilidade real"

Os democratas fizeram nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos algo que nem a previsão mais otimista do partido contemplava: retomaram a Câmara dos Representantes e conquistaram a maioria no Senado, tirando sete cadeiras dos republicanos. A partir de janeiro de 2027, o presidente Donald Trump passa a governar com um Congresso controlado pela oposição — e com os negócios de sua família na mira das comissões de investigação.
"Há uma possibilidade real de ter um processo de impeachment na Câmara", afirmou Maurício Moura, fundador do Instituto IDEIA e professor da Universidade George Washington, em entrevista ao Macro em Pauta, da EXAME. "Claro que eles não conseguem os números para terminar o processo no Senado, mas a chance de ter um novo impeachment na Câmara é muito alta. A própria Casa Branca trabalha com esse cenário."
Segundo Moura, que ouviu interlocutores dentro do governo, a expectativa é de que os democratas, que controlarão as comissões de investigação, voltem os holofotes para os negócios de Trump e da família — "vão investigar o filho, vão investigar o genro", afirma ele. Nesse cenário, a política externa deve se tornar a agenda principal da Casa Branca, por ser o terreno em que Trump terá mais margem de manobra.
"Em termos de política externa, eu acho que a palavra aqui é Irã", disse, referindo-se ao conflito que, segundo ele, foi um dos principais motivos da derrota republicana nas urnas. "O Irã percebeu o quanto é valiosa essa negociação com esse resultado da eleição. Quem está negociando do lado do Irã ganhou força."
O "tsunami" e o eleitorado pêndulo
Para Moura, o resultado foi um "tsunami" — expressão usada pelos próprios republicanos nos corredores do Congresso. A vitória democrata veio de estados até então impensáveis, como Kansas, Iowa, Texas e Carolina do Sul, impulsionada pela gestão da inflação e do custo de vida, pelo conflito com o Irã e pela rejeição à política de imigração — inclusive entre eleitores hispânicos e latinos que votaram massivamente em Trump em 2024.
"A mudança do eleitorado latino foi fundamental para a vitória dos democratas no Texas", disse Moura, para quem esse grupo se tornou o "novo eleitorado pêndulo" — os chamados swing voters. "Os dois partidos que assumiram que esse eleitorado era garantido se deram mal."
O temor de contestação do resultado não se materializou. "Resultados muito acachapantes, com diferenças muito grandes de votos, inviabilizam essa narrativa", comparou, citando a Hungria. "Para ser justo com o Donald Trump, ele aceitou o resultado até bastante passivamente."
James Talarico discursa após vitória no Texas
Texas azul
O episódio mais simbólico foi o Texas: o democrata James Talarico, pastor evangélico de 37 anos, derrotou o republicano Ken Paxton e será o primeiro senador democrata do estado desde 1988, enquanto Gina Hinojosa se tornou a primeira latina eleita governadora do Texas.
Moura afirma que a vitória combinou um candidato democrata "muito feliz" com um republicano "péssimo", que enfrentou processo de impeachment de corrupção dos próprios correligionários. "Não necessariamente esse contexto se replica numa eleição presidencial. Agora, os democratas vão virar governo no Texas e vão ter que entregar também", diz ele.
Ainda assim, ele afirma: "Não existe, na minha opinião, um caminho para o partido republicano ganhar a eleição presidencial que não passe pelo Texas. Seria a mesma coisa de tirar a Califórnia do Partido Democrata." Segundo ele, já existe em Washington a sensação de que o estado pode estar em disputa em 2028 — algo inédito.
Sucessão reaberta
Apesar dos marcos históricos de representatividade, Moura rejeita a leitura de que as midterms consagraram uma "agenda woke": "Os democratas foram monotemáticos, fugiram da batalha cultural e focaram na questão do custo de vida", diz ele.
O resultado também reabriu as primárias republicanas. Para Moura, se o governo chegar a 2028 com a popularidade atual, "é inviável" a candidatura do vice J.D. Vance e do secretário de Estado Marco Rubio, que não têm como se dissociar da gestão. Em 48 horas, surgiram desafiantes: Nikki Haley, Liz Cheney — "que ressurgiu das trevas" — e Ron DeSantis, que criticou Trump abertamente.
Do lado democrata, a disputa será entre a ala socialista — com pressão por Alexandria Ocasio-Cortez, reeleita com 78% dos votos — e a centrista, com Gavin Newsom, Josh Shapiro e o senador Jon Ossoff, cuja campanha, segundo ele, "é uma campanha presidencial".
Brasil, a exceção
Para Moura, as midterms se somam a uma onda global de oposição. "A oposição venceu na Hungria, no Peru, na Colômbia, na Suécia e agora nos Estados Unidos. Nos últimos dez anos, de cada dez eleições, sete foram vencidas pela oposição. Ser situação hoje é o ponto fora da curva."
E o Brasil? "A exceção foi o Brasil", disse. Há ainda, segundo ele, possibilidade real de a oposição vencer a eleição da Espanha, no final de novembro.
Data centers no radar
Um tema pouco notado no Brasil deve ganhar força: a rejeição aos data centers, infraestrutura essencial para a inteligência artificial. "Eles geram aumento de custo de energia para a população local, têm impacto ambiental e geram pouquíssimos empregos. O data center foi altamente reprovado nessa eleição", disse Moura, lembrando que enfrentar os data centers foi um dos argumentos da campanha de Hinojosa no Texas.
