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Mundo
23/09/2026
5 min

Trump e Xi: a disputa por quem vai definir o futuro da inteligência artificial

Com cada vez mais incidentes de segurança relacionados à IA, cúpula entre os líderes das maiores potências do setor pode estabelecer novo parâmetro para o controle e implementação da tecnologia

Trump e Xi: a disputa por quem vai definir o futuro da inteligência artificial

A disputa entre Estados Unidos e China pela liderança tecnológica em inteligência artificial começa a ganhar uma nova dimensão: a corrida para definir as regras que irão governar a tecnologia. Um estudo do Center for Strategic and International Studies (CSIS) aponta que Washington e Pequim já articulam modelos institucionais distintos, enquanto outros países tentam manter espaço para atuar em ambos os lados.

O cenário deve ganhar importância durante o encontro entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, marcado para quinta-feira, 24, no qual a inteligência artificial estará entre os principais temas. Para o CSIS, a reunião representa uma oportunidade de estabelecer parâmetros básicos de segurança e de criar mecanismos que possam ser utilizados posteriormente em fóruns multilaterais.

A China avançou com a criação da World AI Cooperation Organization (WAICO), uma organização intergovernamental sediada no país e voltada à cooperação internacional e à governança da IA.

Criada em julho deste ano, a entidade reúne 29 países, majoritariamente de baixa e média renda, sem a adesão de nenhuma economia do G7 nem de nenhum país-membro da União Europeia.

Washington, por sua vez, aposta principalmente na iniciativa Pax Silica, voltada à segurança das cadeias de fornecimento de semicondutores e de tecnologias de IA.

O grupo passou de 11 signatários, em dezembro de 2025, para 24 em junho deste ano, mas seu foco está mais no acesso à tecnologia e à infraestrutura do que na criação de regras globais para a inteligência artificial.

Segurança e competição

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Segundo o estudo, a diferença revela um dos principais elementos da disputa atual: enquanto a China oferece aos países participação na definição das regras, os Estados Unidos concentram sua proposta internacional em capital, infraestrutura e integração às cadeias tecnológicas. Para o CSIS, essa assimetria pode conferir vantagem institucional a Pequim.

A estratégia chinesa parte de um modelo doméstico que combina controle político, incentivo ao desenvolvimento tecnológico e gestão dos impactos sociais da IA. Pequim ainda não possui uma lei específica e abrangente sobre inteligência artificial, mas utiliza normas administrativas associadas às legislações de cibersegurança, de proteção de dados e de informações pessoais.

Esse sistema prioriza o controle de conteúdo, a estabilidade social e a conformidade ideológica, enquanto questões ligadas aos riscos extremos dos modelos recebem um tratamento diferente do adotado pelas principais empresas americanas. Em 2026, por exemplo, apenas cinco dos dez modelos chineses de fronteira lançados publicaram avaliações de segurança, segundo o CSIS.

No exterior, Pequim transforma essa experiência em uma oferta política e tecnológica para países do Sul Global, combinando modelos de código aberto, treinamento, infraestrutura e soluções de IA. A estratégia busca atender governos mais interessados no acesso à capacidade computacional e à tecnologia do que em debates sobre a segurança de sistemas de ponta.

A própria WAICO faz parte dessa estratégia. Ao anunciar a organização, Xi prometeu 5 mil oportunidades de treinamento em IA para países em desenvolvimento nos próximos cinco anos e a criação de centros de cooperação com entidades como a ASEAN, a União Africana, a Liga Árabe, os BRICS e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos.

O CSIS ressalta, porém, que a adesão aos blocos não é necessariamente exclusiva. O Cazaquistão tornou-se, até agora, o único país a integrar tanto a WAICO quanto a Pax Silica, enquanto outros governos procuram participar em diferentes iniciativas de acordo com os seus interesses nacionais. Para os autores, isso indica que a disputa ainda está em aberto.

Além dos Estados Unidos e da China, há iniciativas no G7, na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), na ONU e na União Europeia. O AI Act europeu é atualmente o marco jurídico mais abrangente entre as principais economias, enquanto o diálogo global da ONU busca aproximar governos, empresas, academia e sociedade civil, sem estabelecer regras obrigatórias.

O encontro entre Trump e Xi deve abordar temas como o monitoramento de ataques cibernéticos conduzidos por IA, o acesso chinês a modelos americanos de fronteira, as restrições dos EUA a modelos chineses de pesos abertos e mecanismos para impedir que sistemas avançados cheguem a atores não estatais. A criação de definições comuns sobre o que caracteriza um modelo de fronteira também está entre os possíveis resultados.

Um dos principais obstáculos será a verificação. Hoje, não existe um mecanismo técnico consolidado que permita a Washington ou Pequim verificar, de forma independente, as declarações do outro lado sobre capacidades, testes de segurança ou o uso dos modelos. O CSIS aponta, porém, que técnicas como o monitoramento das cargas de trabalho e a verificação da integridade dos modelos podem servir de base para futuros acordos.

Para os autores do estudo, o resultado da reunião terá impacto para além da relação bilateral. Definições, protocolos de comunicação e padrões de segurança acordados pelos dois países poderão ser levados a fóruns como o G7, a OCDE, a ONU e organismos internacionais de padronização, transformando o encontro em uma etapa da disputa mais ampla pela governança global da inteligência artificial.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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