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Mundo
09/10/2026
6 min

Trump enfrenta queda de popularidade antes das eleições de meio de mandato nos EUA

Eleições de novembro podem devolver o controle do Congresso aos democratas e limitar a margem de ação do presidente nos dois últimos anos de mandato

Trump enfrenta queda de popularidade antes das eleições de meio de mandato nos EUA

As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, ou midterms, marcadas para 3 de novembro, se aproximam em um ambiente de crescente insatisfação com o governo de Donald Trump e de forte mobilização tanto entre democratas quanto entre republicanos. Em disputa está o controle do Congresso, hoje dominado pelos republicanos, em uma votação que tradicionalmente também serve de teste para o presidente no meio de seu mandato.

As midterms não elegem o presidente; nessas eleições bianuais, os americanos escolherão todos os 435 deputados da Câmara dos Representantes, cada um para um mandato de dois anos, enquanto cerca de um terço das 100 cadeiras do Senado será renovado, reestruturando basicamente todo o Congresso.

Na Câmara, os republicanos têm atualmente 218 cadeiras, contra 214 democratas, um independente e duas vagas, segundo o gabinete do secretário da Casa. No Senado, os republicanos têm 53 cadeiras, contra 45 democratas e 2 independentes.

Além disso, por ocorrerem a cada dois anos, as midterms acabam caindo, como o nome sugere, no meio do mandato do incumbente, servindo também como um barômetro político; o resultado pode não só alterar substancialmente a capacidade de Trump de aprovar leis e conduzir sua agenda, como também testar a popularidade de sua administração.

A vantagem republicana é estreita na Câmara e maior no Senado, mas a avaliação de observadores e de pesquisas recentes aponta para uma eleição competitiva. O líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, afirmou estar “muito confiante” de que seu partido recuperará a maioria, enquanto o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, aposta que os republicanos conseguirão reverter a tendência histórica de perdas do partido que ocupa a Casa Branca.

O cenário atual favorece os democratas sobretudo porque as preocupações econômicas voltaram ao centro da campanha.

Pesquisa da AP-NORC, empresa americana, divulgada na última semana, mostrou que apenas 17% dos americanos aprovam a atuação de Trump no controle do custo de vida e 26% aprovam sua condução da economia. Ao mesmo tempo, 69% disseram que a guerra contra o Irã não valeu a pena.

A inflação, os preços dos combustíveis e o impacto econômico da guerra também podem transformar uma eleição nacionalizada em uma série de pleitos apertados nos distritos e estados mais competitivos.

É o que aparece em relatos da Associated Press, como o de eleitores na Pensilvânia e na Califórnia que associam diretamente o aumento do preço da gasolina à guerra e dizem que votarão nos democratas em novembro.

Insatisfação, mas competitividade

Coloradans Go The Polls In Midterm Electio

Midterms, normalmente com menor participação, têm relevância nacional este ano, e podem limitar os poderes de Donald Trump consideravelmente

Essa reação, porém, está longe de ser uniforme. Há eleitores republicanos que continuam apoiando Trump e consideram os custos do conflito um preço necessário para enfrentar o Irã.

Outros não atribuem os aumentos exclusivamente ao governo e preferem manter o Partido Republicano no controle do Congresso, o que sugere que o desgaste econômico não necessariamente se converte em votos para os Democratas.

Esse equilíbrio é especialmente importante porque as midterms são influenciadas por uma combinação de fatores nacionais e locais.

O desempenho do presidente costuma pesar sobre os candidatos de seu partido, mas cada deputado é eleito em um distrito específico e cada senador em seu estado, o que faz com que características regionais, candidatos e temas locais possam alterar o resultado final.

A dimensão nacional da disputa, contudo, é evidente. Uma nova pesquisa da Reuters/Ipsos mostrou Trump com apenas 32% de aprovação e os democratas à frente dos republicanos, com 44% a 37%, entre os eleitores registrados.

A mesma pesquisa apontou maior entusiasmo entre eleitores que votaram em Kamala Harris em 2024 do que entre os que votaram em Trump, o que pode ser decisivo em uma eleição com participação historicamente inferior à de uma eleição presidencial.

Os democratas procuram transformar esse descontentamento em uma agenda de custos, de saúde e de fiscalização do Executivo.

Jeffries afirmou que, caso os democratas controlem a Câmara, a prioridade será tentar reverter cortes em programas de saúde e restaurar créditos tributários ampliados pelo Affordable Care Act, além de investigar possíveis casos de corrupção envolvendo Trump e seus aliados.

A mudança de maioria também daria aos democratas o controle da presidência e da composição das comissões da Câmara, ampliando sua capacidade de realizar audiências, exigir documentos e conduzir investigações sobre a administração.

Esse poder de fiscalização pode se tornar uma das principais ferramentas de contenção contra Trump caso o partido conquiste a Casa.

Na prática, porém, controlar a Câmara não significaria ter liberdade para aprovar todas essas medidas.

Projetos ainda teriam de passar pelo Senado, onde a legislação ordinária pode enfrentar o chamado filibuster, mecanismo que permite prolongar o debate e normalmente exige 60 votos para encerrá-lo. Mesmo com uma maioria democrata nas duas casas, teria de lidar com o poder de veto do presidente enquanto Trump permanecer na Casa Branca.

Por isso, o resultado pode gerar cenários muito diferentes. Uma vitória democrata apenas na Câmara criaria uma relação de confronto mais direta com Trump e abriria espaço para investigações, enquanto um Congresso dividido entre os partidos tenderia a dificultar a aprovação de grandes leis.

Uma vitória democrata nas duas casas seria ainda mais significativa, embora não eliminasse o veto presidencial nem o obstáculo do filibuster.

O clima de desconfiança também se estendeu ao processo eleitoral. Pela primeira vez desde que começou a observar eleições federais americanas, há mais de duas décadas, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) não acompanhará oficialmente as eleições de 2026, decisão vetada pela administração.

Por sua vez, a organização afirmou que a decisão do gabinete de Trump, em Washington, rompe com uma prática estabelecida e não está de acordo com os compromissos assumidos pelos países participantes.

A ausência dos observadores ocorre enquanto o Departamento de Justiça prepara a presença de seus próprios monitores eleitorais e os democratas questionam os critérios e objetivos da iniciativa. P

ara críticos da administração, a combinação das duas decisões pode alimentar dúvidas sobre a transparência do processo; o governo, por sua vez, afirma que a OSCE deve concentrar seus recursos em eleições em que sua atuação tenha maior impacto.

A disputa, portanto, chega a novembro muito além de uma batalha por 435 cadeiras na Câmara e por parte do Senado.

Para Trump, será uma tentativa de preservar uma maioria capaz de sustentar sua agenda durante os dois últimos anos do mandato; para os democratas, uma oportunidade de transformar insatisfação econômica, desgaste com a guerra e desconfiança em Washington em um mecanismo institucional de contenção do presidente.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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