Trump libera US$ 8 bilhões aos fazendeiros dos EUA às vésperas das eleições
Presidente americano anuncia novo pacote ao agro americano em meio à disparada dos preços do diesel durante a colheita de soja e milho no país

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um programa de US$ 8 bilhões para ajudar os agricultores americanos a arcar com o custo do diesel durante a colheita.
A medida vem às vésperas das eleições de meio de mandato (midterms), em três de novembro, que vão definir o controle do Congresso, e num momento em que o combustível está bem mais caro por causa da guerra no Irã.
“O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) lançará um novo programa de auxílio para combustível de colheita, fornecendo aos nossos agricultores US$ 8 bilhões em apoio para compensar os custos do diesel durante esta temporada de colheita”, disse Trump em discurso de campanha no Kansas, um dos seus redutos eleitorais.
O anúncio é o mais recente de uma série de promessas e compromissos financeiros feitos pelo presidente aos eleitores na reta final da campanha.O preço do diesel é a origem do problema.
Com a guerra no Irã, em curso desde 28 de fevereiro, quando os EUA invadiram o país persa, o galão chegou a US$ 6,50 na bomba em setembro, contra cerca de US$ 3,76 antes do conflito, uma alta de aproximadamente 73%.
O governo do Republicano já havia tentado aliviar o impacto sobre os produtores, tradicionalmente fiéis a Trump, com uma iniciativa no início deste mês para flexibilizar as restrições ao uso de uma variedade de diesel isenta de impostos.
O momento é sensível porque a colheita americana está no pico. Segundo o USDA, mais de 64% da safra de soja já havia sido colhida até a semana encerrada em 18 de outubro, e quase metade da de milho também.
O auxílio chega a um setor cada vez mais endividado. A dívida do agro americano deve atingir um recorde neste ano e somar US$ 605 bilhões, segundo projeções do USDA.
Desde 2019, a alta acumulada é de 44%, em meio ao aumento dos custos de produção, aos preços pressionados de algumas commodities e à piora dos indicadores financeiros das propriedades.
O problema para Trump é que essa pressão recai justamente sobre uma de suas bases eleitorais mais fiéis. Em 2024, o republicano recebeu 78% dos votos nos condados cuja economia depende da agricultura. Entre os eleitores rurais, conquistou 69% dos votos, segundo o Pew Research Center.
Agora, a duas semanas das eleições de novembro, que renovarão as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e cerca de um terço das 100 vagas do Senado, o agravamento das dificuldades financeiras no campo pode se tornar um obstáculo para os dois anos restantes do mandato do presidente.
Guerra comercial e o agro
Mesmo antes da guerra no Irã, os efeitos da crise já aparecem na estrutura do setor. Em 2025, ospedidos de falência agrícola cresceram 46% em relação ao ano anterior, enquanto o número de propriedades rurais voltou a diminuir.
Segundo relatório do USDA, os Estados Unidos encerraram o ano passado com 1,865 milhão de fazendas, 15 mil a menos do que em 2024.
As dificuldades financeiras também colocam em xeque uma das principais promessas de Trump ao agronegócio americano: proteger os produtores rurais dos efeitos de práticas comerciais consideradas injustas.
Durante a campanha presidencial de 2024, o republicano prometeu à Federação Americana de Bureau de Agricultura (AFBF, na sigla em inglês), principal organização de representação de agricultores, pecuaristas e comunidades rurais do país, presente em mais de 2.800 condados, que combateria barreiras comerciais consideradas por ele “injustas”.
A promessa encontrou apoio em estados agrícolas importantes do Meio-Oeste, como Iowa, maior produtor de milho do país, além de Dakota do Sul, Dakota do Norte e Kansas, onde Trump venceu a eleição presidencial. A exceção foi Illinois, segundo maior produtor de milho americano, que deu a vitória à democrata Kamala Harris.
Na prática, porém, a escalada das disputas comerciais trouxe efeitos adversos para parte do campo. Em 2025, em meio à guerra tarifária contra diversos países, incluindo China e Brasil, os produtores de soja dos Estados Unidos viram as exportações para o mercado chinês recuar de 25 milhões para 12 milhões de toneladas.
Nesse movimento, o Brasil ampliou sua posição como principal fornecedor do grão à China, enquanto os agricultores americanos enfrentavam preços pressionados e maior dificuldade para escoar parte da produção.
A combinação entre custos elevados, endividamento crescente e tensões comerciais ajuda a explicar por que o descontentamento econômico começa a ganhar espaço entre os eleitores rurais.
O desgaste já aparece nas pesquisas de opinião, levantando dúvidas sobre a mobilização de um eleitorado que foi decisivo para a vitória republicana em 2024.
Uma pesquisa AP-KFF realizada em agosto mostrou que 57% dos eleitores rurais desaprovavam a condução da economia por Trump. Mesmo entre os republicanos dessas regiões, 27% manifestaram desaprovação.
O levantamento também identificou uma diferença no entusiasmo eleitoral. Republicanos rurais insatisfeitos com a gestão econômica eram “substancialmente menos propensos” a afirmar que certamente votariam em novembro do que aqueles que aprovavam o governo.
O custo de vida aparece entre as principais preocupações. Três em cada quatro eleitores rurais classificaram o custo de vida em suas comunidades como “razoável” ou “ruim”.
Os sinais de desgaste já haviam surgido meses antes. Uma pesquisa Reuters/Ipsos, realizada em junho, mostrou que a aprovação de Trump entre os americanos rurais havia caído para 50%, o menor nível registrado até então. Apenas 31% aprovavam sua condução da economia.
