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AgronegócioCMDT
05/11/2026
6 min

'Tsunami azul': por que a derrota de Trump deve colocar o agro brasileiro em alerta

Vitória democrata no Congresso pode limitar agenda doméstica do presidente e coloca exportações brasileiras de soja sob atenção, diz Rabobank

'Tsunami azul': por que a derrota de Trump deve colocar o agro brasileiro em alerta

A vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato (midterms) dos Estados Unidos deve levar o presidente Donald Trump a intensificar sua atuação na política comercial, ampliando as incertezas para o comércio internacional e, consequentemente, para o agronegócio brasileiro.

A avaliação é do banco holandês Rabobank, que, em relatório divulgado nesta quarta-feira, 4, intitulado Tsunami Azul, afirma que a conquista da maioria democrata na Câmara dos Representantes e no Senado deve limitar a capacidade de Trump de aprovar novas medidas econômicas e fiscais nos dois últimos anos de seu mandato.

O possível endurecimento da política comercial americana preocupa o Brasil, especialmente pela disputa entre Estados Unidos e China pelo mercado de soja.

Em 2025, diante da guerra comercial entre os dois países, o Brasil foi o principal beneficiado. As exportações brasileiras da oleaginosa bateram recorde de 112 milhões de toneladas, sendo 80 milhões destinadas ao país asiático, enquanto os americanos embarcaram cerca de 10 milhões de toneladas. Para 2027, há uma previsão de que os Estados Unidos embarquem 25 milhões de toneladas do grão, retomando os volumes de safras anteriores após o acordo entre os países, segundo projeções do Rabobank.

O resultado das eleições americanas, porém, pode acrescentar uma nova variável a esse cenário.

Os democratas mantiveram suas cadeiras no Senado e avançaram sobre vagas historicamente ocupadas por republicanos. O partido elegeu 20 senadores, sendo sete em disputas nas quais conquistou cadeiras antes ocupadas pelos adversários, e chegou a 54 das 100 cadeiras da Casa até a última atualização desta matéria, enquanto os republicanos conquistaram 44.

Na Câmara dos Representantes, os democratas conquistaram 25 cadeiras antes ocupadas por republicanos, em distritos de mais de dez estados. Até o momento, os resultados apontavam 237 cadeiras para os democratas e 139 para os republicanos.

Na avaliação do Rabobank, diante de um Congresso menos favorável, Trump tende a recorrer com maior frequência aos poderes do Executivo, especialmente nas áreas de política externa e comércio internacional.

“O que é importante para o restante do mundo é que o tsunami azul na política dos Estados Unidos pode levar o presidente Trump a se concentrar ainda mais na política externa e comercial”, afirma o banco holandês.

Segundo a análise, a mudança no equilíbrio de forças em Washington pode provocar uma paralisia legislativa a partir de 3 de janeiro de 2027, quando o novo Congresso tomará posse.

Embora os democratas passem a controlar as duas Casas, o partido não terá votos suficientes para derrubar vetos presidenciais sem o apoio de parlamentares republicanos. Isso deve dificultar a aprovação de propostas que não contem com respaldo dos dois partidos.

Para o Brasil e outros países da América Latina, a vitória democrata também pode representar uma fiscalização mais intensa das ações do governo americano na região, avalia Welber Barral, da Barral Advogados.

“Os democratas vão cobrar muito as ações que estão sendo tomadas pelo Departamento de Estado, vão pedir depoimentos, vão fazer investigações”, afirma Barral, citando especialmente as relações dos Estados Unidos com Venezuela e Cuba.

Segundo o analista, que foi secretário de Comércio Exterior do Ministério da Agricultura e Pecuária, em 2005, o Congresso também poderá tentar limitar a autonomia comercial da Casa Branca.

“Eles podem reduzir o poder do presidente para adotar medidas bilaterais, principalmente medidas tarifárias”, diz Barral.

Na avaliação dele, essa possibilidade poderia dificultar a imposição repentina de tarifas, como ocorreu desde o início de 2025.

As análises apresentam perspectivas diferentes sobre a capacidade de Trump de atuar na política comercial. Enquanto Barral aponta a possibilidade de maior controle do Congresso sobre medidas tarifárias, o Rabobank avalia que o bloqueio à agenda doméstica pode incentivar o presidente a ampliar o uso dos poderes que já possui.

“Diante de um Congresso que não lhe dará apoio, o presidente Trump provavelmente se concentrará em governar por meio de seus poderes executivos. Também deverá testar até onde pode ampliar esses poderes”, afirma o relatório.

Agro e os EUA

Para o agro brasileiro, o principal ponto de atenção está na possibilidade de os Estados Unidos ampliarem sua atuação em disputas comerciais, particularmente com a China, principal destino da soja brasileira e importante mercado para os produtores americanos.

O Rabobank destaca que Trump poderá direcionar esforços para questões ainda pendentes de sua agenda comercial, incluindo investigações conduzidas com base na Seção 301 da legislação americana, que permite examinar práticas consideradas desleais no comércio internacional.

O documento também menciona as disputas entre Washington e Pequim pelo controle de cadeias de suprimentos e pela liderança tecnológica.

A relevância dessas relações para o Brasil ficou evidente em 2025, quando a guerra comercial entre americanos e chineses favoreceu as exportações brasileiras de soja. No ano passado, o país vendeu 112 milhões de toneladas do grão ao exterior, das quais 80 milhões tiveram a China como destino, enquanto os Estados Unidos embarcaram aproximadamente 10 milhões de toneladas.

Para 2027, a previsão citada do Rabobank aponta embarques americanos de 25 milhões de toneladas, após o acordo comercial entre os dois países.

O risco para o Brasil não está apenas em uma eventual mudança de tarifas, mas também na possibilidade de novas disputas comerciais alterarem as condições de concorrência entre os exportadores agrícolas.

O banco considera que as tarifas americanas já existentes também tendem a permanecer em vigor, desde que resistam a eventuais questionamentos judiciais.

“Trump poderá se concentrar em questões pendentes da política comercial”, afirma o relatório, ao citar as investigações da Seção 301 e as disputas com a China.

Preço da energia no agro

Além das incertezas comerciais, outro fator de preocupação apontado pelo Rabobank é a continuidade das tensões entre Estados Unidos e Irã, que podem pressionar os preços de energia e combustíveis.

O banco afirma ter elevado suas projeções para os preços de energia em 2027 e 2028, diante dos riscos geopolíticos, mas não informa a magnitude dessa revisão.

Segundo o relatório, uma nova escalada do conflito poderá gerar pressões inflacionárias adicionais já em novembro, com efeitos sobre as perspectivas de inflação americana no próximo ano.

Para o agronegócio, a evolução dos preços de energia é relevante por sua influência sobre os custos de transporte, diesel e determinados insumos agrícolas. Os preços do diesel, por exemplo, subiram mais de 67% nos Estados Unidos desde o início do conflito, em fevereiro deste ano.

O Rabobank também alerta que uma inflação mais elevada reforça os riscos para sua projeção de manutenção dos juros americanos em 2027, após uma nova alta esperada em dezembro de 2026.

Assim, mesmo com o Congresso dividido, a avaliação do banco é que Trump continuará dispondo de instrumentos para influenciar as relações comerciais e diplomáticas dos Estados Unidos.

Em entrevista à Fox News, o presidente atribuiu parte da derrota republicana ao aumento dos preços dos combustíveis, consequência que associou ao conflito com o Irã.

“Eu não acho que seja a guerra [o motivo da derrota]. Acho que são os preços da gasolina. As pessoas concordam com o que estou fazendo no Irã, mas elas provavelmente não estavam dispostas a aceitar as consequências no curto prazo de pagar mais pela gasolina. Não concordo e diria às pessoas: é um problema de curto prazo para um ganho de longo prazo”, disse Trump.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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