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16/07/2026
9 min

Uber Comfort e Black: vale a pena trocar de carro para manter a categoria?

Uber Comfort e Black: vale a pena trocar de carro para manter a categoria?

O motorista de aplicativo Ed Carlos Silva Miranda aluga um Renault Logan para trabalhar. Até pouco tempo atrás, o veículo era aceito na modalidade Uber Comfort, a categoria intermediária da plataforma. Com a mudança nas regras, que excluiu alguns automóveis dessa opção, ele passou a atender apenas corridas do UberX, a categoria básica, com corridas mais baratas. O valor do aluguel do carro não mudou, mas a renda do motorista diminuiu. Antes, conseguia faturar cerca de R$ 450 por dia; agora, a média caiu para R$ 350.

“Tenho que trabalhar ainda mais do que trabalhava. Tem muito motorista que pagou ‘uma nota’ em um veículo para ser Black e agora vai sair da categoria no final do ano”, aponta Miranda.

A Uber anunciou recentemente uma lista de modelos de automóveis que serão excluídos do Uber Comfort a partir de janeiro de 2027, que passarão a operar apenas no UberX, desde que cumpram as demais exigências da plataforma. Entre os modelos excluídos do Comfort estão Fiat Argo, Volkswagen Polo, Volkswagen Voyage, Chevrolet Prisma, Chevrolet Joy Plus, Toyota Yaris Hatch, Peugeot 208, Renault Zoe, Kia Rio, JAC J3 Turin e JAC iEV40.

As mudanças também chegam ao Uber Black que inclui, entre outros, Audi A3, Chevrolet Cruze, Citroën C4 Cactus, Citroën C4 Lounge, Renault Duster, Toyota Prius, Hyundai Ioniq, CAOA Chery Arrizo 5, Volkswagen Nivus e Volkswagen Virtus — independente do ano de fabricação. O Volkswagen Virtus terá uma regra específica de transição. O modelo continuará apto para o Uber Black até 5 de julho de 2027, data em que será retirado definitivamente da categoria.

Para o Sindicato dos Trabalhadores com Aplicativos de Transportes Terrestres (STATTESP), a medida é preocupante.

“Hoje estamos vendo esta situação com muita preocupação, pois o trabalhador faz um investimento na compra do carro, acreditando que terá seu veículo em outras categorias e, pego de surpresa, as plataformas fazem isso sem consultar o trabalhador e o sindicato”, afirma Leandro Cruz, presidente do sindicato.

Segundo ele, só vale a pena trocar de carro para alcançar outras categorias se as plataformas não desclassificarem o carro em seguida. “O que vem acontecendo com muito frequência”, complementa.

Quanto ganha um Uber X, Comfort e Black?

Dados da plataforma GigU, plataforma brasileira de automatização e gestão financeira para motoristas de aplicativos, com base em motoristas que utilizaram a calculadora de lucro líquido até 15 de julho de 2026, mostram que migrar do Uber X para o Comfort ou o Black pode chegar a aumentar o lucro líquido mensal em mais de R$ 1.000.

Na mediana nacional, um motorista do Uber X registra receita mensal de R$ 6.495. Depois de descontar custos como combustível, manutenção, seguro e depreciação do veículo, o lucro líquido fica em R$ 2.720 por mês. Isso representa uma margem de 41,7%, com ganho médio de R$ 13,62 por hora trabalhada. A rotina típica desse motorista é de seis dias por semana, oito horas por dia e cerca de 175 quilômetros rodados diariamente.

No Uber Comfort, a receita mensal mediana sobe para R$ 8.660, cerca de 33,3% acima da observada no Uber X. Mas os custos também aumentam, chegando a R$ 5.154 por mês. Com isso, o lucro líquido mediano alcança R$ 2.988, um avanço de 9,8% em relação ao Uber X. Em geral, os motoristas dessa categoria trabalham dez horas por dia, seis dias por semana, percorrendo aproximadamente 200 quilômetros diariamente.

Já o Uber Black apresenta os maiores rendimentos. A receita mensal mediana é de R$ 10.609, enquanto o lucro líquido chega a R$ 4.120 por mês, cerca de 51,5% superior ao obtido por motoristas do Uber X. A receita por hora também é a mais elevada entre as categorias, em R$ 41,67, embora os custos mensais atinjam R$ 5.778. Assim como no Comfort, a jornada mediana é de dez horas diárias, durante seis dias por semana.

Na Região Metropolitana de São Paulo, onde há maior demanda por corridas, os ganhos são mais elevados. O motorista do Uber X registra lucro líquido mediano de R$ 3.062 por mês. No Comfort, esse valor sobe para R$ 3.478, alta de 13,6% em relação ao Uber X. Já no Black, o lucro mediano chega a R$ 4.469, aproximadamente 46% acima da categoria básica. Em termos de faturamento bruto mensal, a cifra varia de R$ 7.274 no Uber X, R$ 8.660 no Uber Comfort e R$ 10.825 no Black.

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Vale a pena trocar de carro para ser Uber Comfort ou Black?

Na Região Metropolitana de São Paulo, um motorista do Uber Comfort tem uma receita mensal mediana de R$ 8.660. Considerando esse rendimento como base, a troca de um Chevrolet Joy Plus 2018, categoria aceita no Comfort, por um Chevrolet Tracker 2019 — modelo que permanece apto à categoria Comfort — pode até ser possível, mas apenas nas modalidades de financiamento com prazos mais longos.

A simulação foi elaborada por Milad Neto, sócio e diretor-executivo da K.LUME Consultoria Automobilística, com base nos preços da Tabela Fipe de julho para os veículos, na menor taxa média de financiamento de veículos para pessoas físicas divulgadas pelo Banco Central (BC) e nos cálculos da Calculadora do Cidadão, também do BC. O estudo considera que o motorista utiliza apenas o veículo usado como entrada, sem aportar recursos adicionais.

Nesse cenário, o Chevrolet Joy Plus 2018, que custa R$ 50.358,00, equivale a aproximadamente 55% do valor do Chevrolet Tracker 2019, que custa R$ 91.329,00. Dando de entrada, será necessário financiar R$ 40.971.

A uma taxa de 1,68%, 12 parcelas ficariam R$ 3.798,37 ao mês. Adotando uma regra conservadora, na qual as parcelas não devem comprometer mais do que 20% da renda mensal, um motorista do Uber Comfort que fatura R$ 8.660 poderia assumir prestações de até R$ 1.732 por mês — bem abaixo dos R$ 3.798,37 encontrados. Neste caso, a renda da pessoa exigida teria que ser de R$ 18.992,35 — o que inviabiliza o financiamento.

Já em parcelas com prazo mais longo, seria possível: 72 parcelas ficariam R$ 985,18 ao mês, com renda mínima exigida de R$ 4.925,90. “Os bancos até permitem parcelar em 72 vezes, mas é difícil encontrar”, diz Neto. Em 24 vezes, também não seria possível, mas em 36 e 48 vezes, o motorista já pode estar apto ao financiamento.

Ainda assim, o estudo ressalta que a renda é apenas um dos critérios analisados pelas instituições financeiras. Bancos também levam em consideração fatores como histórico de crédito, existência de outras dívidas, capacidade de comprovação de renda e perfil de risco. Na prática, isso significa que, embora a troca para um modelo elegível ao Comfort possa caber no orçamento em financiamentos mais longos, a aprovação do crédito não é garantida, sobretudo para profissionais que dependem exclusivamente da renda obtida em aplicativos.

Programa Move Brasil

O Move Brasil já começa a mostrar resultados: a linha de crédito atingiu R$ 1 bilhão em financiamentos aprovados e viabilizou a compra de veículos por mais de 10.179 motoristas de aplicativo e taxistas, com valor médio de R$ 102 mil por contrato, segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Criado para facilitar a compra de carros novos por taxistas e motoristas de aplicativo, o Move Brasil oferece financiamento com juros reduzidos e prazo de até 72 meses, além de seis meses de carência para iniciar o pagamento. Podem participar taxistas regularizados e motoristas com pelo menos 12 meses de cadastro na mesma plataforma e 100 corridas realizadas nesse período.

O programa contempla apenas veículos 0 km de até R$ 150 mil, produzidos por montadoras participantes do Mover e enquadrados nos critérios de sustentabilidade. Atualmente, são 44 modelos de 14 marcas aptos ao financiamento, entre elas BYD, Chevrolet, Citroën, Fiat, Geely, GWM, Honda, Hyundai, Jeep, Nissan, Peugeot, Renault, Toyota e Volkswagen.

O Move Brasil oferece juros de 0,99% ao mês para homens e 0.91% ao mês para mulheres. Atualmente, dez instituições operam a linha, entre elas Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Sicredi. Santander, Safra, C6 Bank e Banco Pan já manifestaram interesse em aderir, enquanto Itaú Unibanco e Bradesco ainda não participam do programa.

Entretanto, na prática, a realidade é outra. Caso a pessoa queria adquirir um veículo 0 km para manter a categoria Uber Comfort, mesmo com o Move Brasil, fica inviável, mostrou uma simulação também da Milad Neto.Kalume,

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Suponhamos que o motorista também seja Uber Comfort em São Paulo — ou seja, tenha uma receita mensal mediana de R$ 8.660 — com um Chevrolet Joy Plus 2018. Como essa categoria será excluída da modalidade, ele poderá adquirir um Chevrolet Onix Plus Turbo AT ECO 2027 — o menor valor encontrado entre as marcas aceitas no Comfort — no valor de R$ 103.990. Dando de entrada, teria que financiar R$ 53.632,00.

Novamente no cenário de 72 parcelas, seria possível, já que a renda mínima exigida pelo banco, na simulação, seria de R$ 5.093,20 para mulheres e R$ 5.225,85 para homens, com parcelas de R$ 1.018,64 e R$ 1.045,17, respectivamente. Em prazos menores, no entanto, o cenário muda. Parcelas de 12 vezes, a renda mínima exigida seria de R$ 23.690,50 para mulheres e R$ 23,810,55 para homens, com parcelas de R$ 4.738,10 e R$ 4,762,11, respectivamente. Ou seja, também fica inviável, assim como parcelar em 24 e 36 vezes.

Por isso, a adesão ao Move Brasil ainda sofre um impasse. “Pelo programa, a análise de crédito é com a instituição financeira e é por este motivo o incentivo ainda não emplacou. Ainda são necessários alguns ajustes pois os bancos não assumem riscos haja vista as chances de inadimplência no médio prazo serem altas pelo risco de os motoristas não terem capacidade de arcar com seus pagamentos”, explica Neto.

AutorRebecca Crepaldi
FonteExame
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