‘Uber Moto não dá lucro’: presidente da Uber explica por que esse serviço é estratégico no Brasil
À EXAME, Silvia Penna diz como essa modalidade promete acelerar o negócio no país, mas serviço enfrenta resistência em São Paulo por questões de segurança

O Uber Moto não dá lucro para a Uber, mas isso não significa que a Uber pretenda pisar no freio com esse produto. Pelo contrário. A modalidade faz parte da estratégia da companhia para ampliar sua presença na rotina dos brasileiros e conquistar usuários que buscam uma alternativa mais barata para pequenos deslocamentos.
Em entrevista exclusiva ao programa De Frente com CEO, da EXAME, Silvia Penna, presidente da Uber no Brasil, afirmou que a empresa enxerga o serviço como um investimento dentro de um ecossistema mais amplo de mobilidade.
“Uber Moto não é um produto em que a gente ganha dinheiro. A gente investe nele para mobilidade urbana”, afirmou Penna.
Segundo a executiva, a lógica é que o mesmo consumidor tenha diferentes ocasiões de uso dentro da plataforma.
“Esse usuário tem várias ocasiões de uso. Então, ele começa usando o Moto, e depois pode usar outros produtos.”
A estratégia ajuda a explicar por que a empresa continua apostando na modalidade mesmo diante da resistência de algumas administrações municipais, principalmente em São Paulo.
Uber Moto como extensão do transporte público
Na visão da CEO da Uber no Brasil, uma das principais vantagens do produto Moto está no preço mais baixo e na possibilidade de funcionar como complemento ao transporte coletivo.
Penna afirma que mais de 60% das viagens da modalidade estão associadas a centros de transporte público, em deslocamentos que ajudam o passageiro a completar o primeiro ou o último trecho da viagem.
“Por ter um preço mais acessível, mais brasileiros conseguem encaixar [o Uber Moto] dentro da rotina diária do trabalho até em casa para fazer essa última perna em complementaridade ao transporte público”, disse a executiva.
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São Paulo x Uber Moto
A expansão, porém, enfrenta um obstáculo justamente no maior mercado urbano do país.
O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) acolheu recurso da Prefeitura e suspendeu, em 24 de julho, a decisão que determinava o credenciamento imediato da Uber para prestar transporte remunerado de passageiros por motocicleta na capital.
Com isso, São Paulo se tornou uma exceção dentro da estratégia nacional da empresa. Segundo Penna, o Uber Moto está presente nas grandes capitais e cidades médias brasileiras, com exceção da capital paulista.
“A gente vê que cada poder público, cada administração tem uma interpretação, e o nosso papel é colaborar e tentar encontrar qual é o caminho que funciona”, afirmou.
No centro da disputa está a segurança viária.
Segundo a Prefeitura de São Paulo, 475 motociclistas morreram no trânsito da cidade em 2025. Ao suspender o credenciamento, o desembargador Dimas Borelli Thomaz Júnior afirmou que questões econômicas não podem “em hipótese alguma, se sobrepor ao direito fundamental à vida e à segurança pública viária”.
Prefeitura de São Paulo mantém serviço de Uber Moto fora da capital paulista (PeopleImages/Getty Images)
‘Queremos que seja a maneira mais segura de andar de moto’
À EXAME, Penna reconheceu que a discussão sobre a expansão da modalidade precisa necessariamente passar pela segurança.
“A nossa grande prioridade é que o Uber Moto seja a maneira mais segura de andar de moto”, afirmou.
A executiva diz que a companhia vem investindo em tecnologias para adicionar camadas de proteção à modalidade, citando recursos de telemetria e controle de velocidade, além de defender parcerias com governos para ampliar a fiscalização.
Penna também citou estudos encomendados pela companhia para analisar a segurança viária nas localidades onde o serviço funciona. Segundo ela, os dados observados pela Uber não indicariam aumento de incidentes nas cidades em que a modalidade está disponível.
A executiva argumenta ainda que parte relevante dos acidentes com motocicletas acontece fora do transporte por aplicativo.
“A grande maioria dos acidentes são de usos privados, não está relacionada ao trabalho e nem a passageiros na garupa, onde a gente vê que, na verdade, o motorista se torna até mais cauteloso”, afirma Penna.
Trata-se, porém, de um dos pontos centrais da divergência com a administração paulistana, que usa os números de mortes no trânsito para sustentar uma posição mais cautelosa em relação ao serviço.
Enquanto a disputa segue em São Paulo, a Uber pretende continuar negociando individualmente com os governos locais. Penna cita o Rio de Janeiro como exemplo de cidade onde a companhia chegou a um acordo de operação com o poder público.
“De cidade em cidade, hoje estamos operando em todas as grandes capitais e todas as cidades médias do Brasil, com exceção de São Paulo”, afirmou.
A discussão é estratégica para uma empresa que pretende depender cada vez menos de seu produto tradicional. Penna afirma que, nos últimos três anos, a Uber reduziu sua dependência do UberX e ampliou o portfólio com alternativas como Black, Comfort, Envios e Moto.
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Pandemia: o desafio que fez a Uber inovar para novos produtos
Se hoje a estratégia passa pela diversificação, parte dessa transformação ganhou força durante uma das maiores crises enfrentadas pela companhia.
Com as restrições de circulação impostas durante a pandemia, a operação da Uber sofreu um choque. Segundo Penna, o faturamento chegou a cair 80% diante da redução drástica dos deslocamentos.
“Quando a pandemia veio e o nosso faturamento caiu 80%, porque as pessoas não se moviam, é aí que eu brinco que é onde o brasileiro traz a criatividade”, afirma.
Foi nesse cenário que a operação brasileira começou a testar uma ideia: se as pessoas não podiam se movimentar, por que não usar a mesma rede de motoristas para movimentar objetos?
“A gente pensou: se a gente não pode movimentar pessoas, vamos testar movimentar coisas”, diz Penna.
O experimento acabou se transformando no Uber Envios. Penna lembra que uma das primeiras oportunidades apareceu no Dia dos Namorados, poucos meses depois do início da pandemia, quando a empresa incentivou usuários a utilizarem a plataforma para mandar presentes.
Para Penna, a experiência deixou uma lição que passou a orientar a expansão do portfólio da empresa.
“Dentro de desafios, a gente tem sempre um ângulo de olhar qual é a oportunidade, o aprendizado que eu posso tirar disso. A pandemia, para a gente, foi uma jornada de muitos aprendizados. Surgiram produtos novos, capacidades novas”, diz.
A diversificação iniciada naquele período ganhou espaço na estratégia atual. Além do UberX, a plataforma reúne hoje opções como Black, Comfort, Moto e Envios, além de serviços oferecidos por meio de parceiros.
O objetivo, segundo Penna, é fazer com que a Uber deixe de ser associada apenas a corridas de carro e esteja presente em diferentes momentos da mobilidade dos brasileiros.
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Brasil é o maior mercado de mobilidade da Uber
A aposta em novos serviços acontece em um momento de expansão dos negócios da Uber. Em 2025, a companhia registrou receita global de US$ 52 bilhões, alta de 18% em relação aos US$ 44 bilhões do ano anterior. As reservas brutas (valor total movimentado pela plataforma antes dos repasses e outros ajustes) chegaram a US$ 193,5 bilhões, avanço de 19%.
A área de mobilidade continua sendo o maior negócio da companhia. A divisão faturou US$ 29,7 bilhões em 2025, crescimento de 18% em relação ao ano anterior. Delivery, por sua vez, avançou 25%, para US$ 17,2 bilhões.
Nesse mapa global, o Brasil ocupa uma posição estratégica. Segundo Penna, o mercado brasileiro é atualmente o maior do mundo para a companhia em volume de transações de mobilidade.
“O Brasil representa o maior país do mundo de mobilidade da Uber. Então é uma posição única, até globalmente falando, porque tem toda a atenção, tem todo o suporte, tem priorização”, afirma Penna.
A executiva atribui parte dessa escala às características das cidades brasileiras. O aplicativo passou a funcionar não apenas como substituto do carro particular, mas também como complemento ao transporte coletivo, especialmente na primeira e na última etapa dos deslocamentos – trajeto onde a Uber Moto está se tornando peça-chave para a companhia continuar acelerando nos próximos anos.
A dimensão da operação aparece também no número de pessoas que passaram pela plataforma. Segundo Penna, mais de 140 milhões de brasileiros já fizeram ao menos uma viagem pela Uber, enquanto mais de 2 milhões de motoristas parceiros utilizam a plataforma como fonte de geração de renda.
“A nossa meta é diversificar cada vez mais o portfólio e todos os brasileiros entenderem que a Uber quer fazer parte da mobilidade urbana”, afirma Penna.
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