Uber promete US$ 10 bilhões para não ser atropelada pelo carro autônomo
Empresa que fechou a própria divisão de veículos autônomos em 2020 agora quer 120 mil carros sem motorista. A ação cai 13% no ano por medo de virar peça descartável

A Uber anunciou que vai investir mais de US$ 10 bilhões na expansão da própria rede de robotáxis, com a meta de colocar 120 mil veículos autônomos em operação nos próximos anos.
O anúncio acompanhou a divulgação dos resultados do segundo trimestre, nesta quarta-feira, 5. A companhia gerou US$ 2,8 bilhões em fluxo de caixa livre no período, recorde para um trimestre, e acumula cerca de US$ 10,1 bilhões nos últimos 12 meses.
É praticamente todo o caixa gerado em um ano comprometido com uma única aposta.
"Estamos investindo de uma posição de força", afirmou Dara Khosrowshahi, presidente-executivo da empresa, ao dizer que a companhia pretende se tornar a principal plataforma mundial de comercialização de mobilidade autônoma.
A empresa que desistiu e voltou
A guinada tem uma ironia embutida. A Uber fechou a própria divisão de veículos autônomos em 2020, durante um corte de custos.
No último ano, passou a se reposicionar como intermediária entre passageiros e o número crescente de startups do setor — papel de plataforma, não de fabricante.
Isso exigiu abandonar parte do modelo que a definia. A companhia, construída sobre a premissa de não possuir os carros que roda, passou a comprometer capital em frotas e participações acionárias em empresas como Zoox, Rivian e Lucid. Também opera centenas de veículos próprios equipados com sensores, apenas para coletar dados para os parceiros.
A meta é operar serviços de robotáxi em ao menos 15 cidades ainda neste ano, em disputa direta com a Waymo, da Alphabet, e a Tesla, de Elon Musk.
Londres sai na frente
O primeiro resultado veio também nesta quarta.
A britânica Wayve, parceira da Uber no Reino Unido, recebeu autorização da Transport for London para operar serviço comercial de robotáxi na capital, com motorista supervisor ao volante. Foram aprovados 15 veículos Ford Mustang Mach-E modificados.
"Acredito que seja a primeira licença do Reino Unido para tecnologia de veículo autônomo operar", disse Alex Kendall, presidente-executivo da Wayve, ao Financial Times. Segundo ele, as corridas devem começar em questão de semanas.
A briga com a Waymo
O anúncio chega em meio à deterioração da relação com a principal concorrente, que já foi parceira.
Segundo o Financial Times, as duas empresas planejam encerrar a parceria em Austin e Atlanta em 2028, enquanto travam disputa de lobby sobre as regras futuras de operação de veículos autônomos nos Estados Unidos.
Éa origem do desconforto do mercado com o papel da Uber. Se o robotáxi funcionar, o aplicativo de corridas pode deixar de ser necessário — e a ação reflete esse receio, com queda de 13% em 2026.
Os números do trimestre
As reservas brutas, medida que soma o gasto dos clientes em todas as unidades de negócio, cresceram 24% em um ano, para US$ 58 bilhões, acima das estimativas de analistas.
A receita subiu 12%, para US$ 14,2 bilhões, e ficou pouco abaixo do esperado por causa de um impacto contábil de US$ 1,1 bilhão relacionado a mudanças na legislação britânica.
O lucro operacional foi de US$ 1,9 bilhão, também ligeiramente abaixo das projeções, após provisão de US$ 141 milhões para contingências jurídicas.
Para o terceiro trimestre, a companhia projeta EBITDA ajustado entre US$ 2,86 bilhões e US$ 2,96 bilhões, e reservas brutas entre US$ 58,25 bilhões e US$ 60,25 bilhões — ambos em linha com o consenso.
A outra frente de gastos
O robotáxi não é o único compromisso de capital em aberto.
A Uber revelou na quarta-feira ter pago cerca de US$ 4 bilhões por uma participação de 37% na alemã Delivery Hero, antes de formalizar uma oferta de 13 bilhões de euros pela companhia.
O negócio dá acesso a mercados de crescimento acelerado na Europa e no Oriente Médio.
"Vamos continuar a usar nosso balanço para investir em crescimento", afirmou Balaji Krishnamurthy, diretor financeiro da empresa.
