Ucrânia vive a maior onda de protestos desde o início da guerra contra a Rússia

A Ucrânia vive sua maior onda de protestos desde o início da guerra com a Rússia em 2022, contrariando a lei marcial do país. Em reação à saída de Mykhailo Fedorov do cargo de Ministro da Defesa na última sexta-feira, 17, milhares de jovens marcham há dias nas grandes cidades do país para pedir a volta do popular comandante.
Os manifestantes pedem a recondução de Fedorov ao Ministério da Defesa e a saída do comandante-chefe das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, enfrenta uma de suas maiores crises políticas internas desde o início dos atos públicos, que passaram a expor divergências sobre a condução da guerra justamente em um momento em que analistas militares avaliam que a Ucrânia recuperou parte da iniciativa no campo de batalha.
Aos 35 anos, Fedorov tornou-se uma das principais faces da modernização das Forças Armadas ucranianas. Antes de assumir o Ministério da Defesa, era conhecido por liderar a transformação digital do governo e por criar iniciativas como a "IT Army of Ukraine" e a campanha "Army of Drones", voltadas ao uso intensivo de tecnologia no conflito.
Nomeado ministro da Defesa em janeiro deste ano, ele passou a defender uma estratégia baseada em drones, inovação tecnológica, análise de dados e reformas administrativas para reduzir burocracias e acelerar a produção e aquisição de equipamentos militares.
Durante sua gestão, também incentivou mudanças nos sistemas de compras militares e apoiou programas que permitiam aos próprios soldados adquirir equipamentos por meio de uma plataforma digital.
Por que Federov foi demitido?
Segundo o próprio Fedorov, sua saída foi consequência de um conflito com o comandante-chefe das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi.
Em entrevista coletiva após deixar o cargo, o ex-ministro afirmou que chegou a pedir a Zelensky a substituição de Syrskyi, alegando que o comandante bloqueava sistematicamente suas propostas de modernização.
Fedorov acusou a atual liderança militar de impedir reformas e afirmou que, enquanto defendia uma estratégia inovadora baseada em tecnologia e drones para enfrentar a Rússia, encontrava resistência da chamada "velha guarda" militar.
Zelensky reconheceu publicamente que havia um conflito entre o Ministério da Defesa e o Estado-Maior. Segundo o presidente, a disputa era antiga e tornou-se incompatível com a condução da guerra, levando à necessidade de escolher entre os dois lados.
O que motivou os protestos?
A saída de Fedorov foi recebida com forte reação de setores da sociedade civil, militares e especialistas em defesa.
Os manifestantes afirmam que o ex-ministro simboliza a modernização das Forças Armadas e temem que sua substituição represente um retorno a métodos considerados ultrapassados.
Cartazes com frases como "Tragam Fedorov de volta", "Não destruam o que está funcionando" e "Fedorov é inovação" passaram a dominar os protestos.
'Tragam Fedorov de volta': cartaz de manifestante tem um retrato de Oleksandr Syrskyi, Comandante-em-Chefe das Forças Armadas da Ucrânia apoiado por Zelensky, que sofre grande oposição da popução (Foto de Roman Pilipey / AFP)
Em cidades como Kiev, Kharkiv, Odessa e Lviv, milhares de pessoas participaram das manifestações. Grande parte dos participantes é formada por jovens, embora soldados da ativa e veteranos também tenham aderido aos atos.
Um levantamento da empresa Gradus, citado pela Reuters, mostrou que 61% dos ucranianos são contrários à demissão de Fedorov.
Quem lidera as manifestações?
Os protestos foram organizados pelo veterano de guerra Dmytro Koziatynskyi, o mesmo ativista que coordenou, em 2025, as chamadas "manifestações dos cartazes de papelão", que pressionaram Zelensky a recuar de mudanças nas agências anticorrupção.
Agora, Koziatynskyi convocou manifestações permanentes caso Syrskyi não seja removido e Fedorov não seja reconduzido ao Ministério da Defesa até 24 de julho.
Qual é a crítica a Syrskyi?
Oleksandr Syrskyi, de 60 anos, enfrenta críticas de parte da sociedade, de parlamentares e de militares por adotar um modelo de comando considerado excessivamente centralizado e inspirado na tradição soviética.
Críticos também o acusam de empregar táticas que resultam em elevado número de baixas entre soldados ucranianos.
Quarto ano em guerra: militares ucranianos e civis defendem a modernização das Forças Armadas para combaterem a Rússia (Tetiana Dzhafarova / AFP)
Syrskyi, por sua vez, evitou responder diretamente às acusações de Fedorov. Em mensagem publicada nas redes sociais, afirmou que continuará concentrado na guerra e destacou que o país precisa manter uma estratégia eficaz para enfrentar a Rússia.
Como Zelensky reagiu?
Diante da escalada dos protestos, Zelensky iniciou reuniões com alguns dos principais comandantes militares do país, muitos deles apontados como possíveis substitutos de Syrskyi.
Ao comentar as manifestações, o presidente afirmou que elas demonstram o funcionamento da democracia ucraniana mesmo em tempos de guerra e disse que compreende a reação da população.
Seu chefe de gabinete também declarou que "a opinião pública foi ouvida" e prometeu uma resposta às preocupações levantadas pelos manifestantes.
Segundo fontes ouvidas pela Reuters, Zelensky também conversou longamente com Fedorov nos últimos dias e discutiu possíveis funções alternativas para o ex-ministro, relacionadas à inovação militar. De acordo com uma fonte próxima ao ex-ministro, porém, ele estaria disposto a retornar apenas ao comando do Ministério da Defesa.
O que pode acontecer agora?
Além das manifestações, a crise já provocou consequências dentro das Forças Armadas. O coronel Pavlo Yelizarov, vice-comandante da Força Aérea, pediu demissão em protesto contra a saída de Fedorov, classificando a decisão como prejudicial à capacidade de defesa do país.
Enquanto isso, o Parlamento ainda não concluiu a definição do novo titular da Defesa, e Zelensky indicou provisoriamente o general Yevhen Khmara para exercer o cargo de forma interina.
A indefinição ocorre em meio a uma ampla reforma ministerial promovida pelo governo e coloca pressão adicional sobre Zelensky, que tenta preservar a unidade política e militar em um momento considerado decisivo da guerra contra a Rússia.
