Um brasileiro vai comandar a Heineken — com um toque de AB Inbev

A Heineken anunciou nesta terça-feira, 23, a nomeação de Rafael Oliveira como seu novo presidente executivo. Ele tem 51 anos, dupla nacionalidade brasileira e britânica, e uma trajetória que atravessa Goldman Sachs, Kraft Heinz e JDE Peet's. A escolha não é casual. Coincide com um período turbulento para a segunda maior cervejaria do mundo, com volumes de vendas em queda. Oliveira, por sua vez, é conhecido por ter herdado a disciplina financeira dos lugares por onde passou. A Kraft Heinz é "cria" da 3G Capital assim como a AB Inbev e são conhecidas por partilhar dessa mesma postura de austeridade com custos. Agora, o executivo leva essa experstise para a concorrente.
O volume global de cerveja vendida caiu 1,2% em 2025 em relação ao ano anterior. Na Europa e nas Américas, a retração foi de 3,4% e 2,8%, respectivamente. No Brasil, um de seus maiores mercados, a queda pode ter chegado a 3%, segundo dados da própria companhia. Em janeiro deste ano, o CEO Dolf van den Brink, que estava no cargo há seis anos, anunciou sua saída. Nos bastidores, o diagnóstico era duro: a Heineken ficara para trás em eficiência de custos e retorno ao acionista em relação a rivais como AB InBev e Carlsberg.
Para piorar o cenário, a empresa ainda enfrentou uma disputa com varejistas europeus em 2025 que chegou a retirar suas marcas temporariamente das prateleiras. A reestruturação anunciada em fevereiro, com o corte de 6 mil funcionários, deixou claro que a companhia precisava de uma liderança com perfil de transformação — e por que não alguém de fora? A nomeação de Oliveira rompe com a tradição da Heineken de promover seus executivos internamente.
From banks to beers
Rafael Oliveira não chegou à Heineken pelo caminho convencional do setor cervejeiro. Antes de entrar no mundo do consumo, passou dez anos no Goldman Sachs, incluindo o posto de diretor executivo para mercados emergentes na Ásia, com base em Hong Kong. Iniciou a carreira no Brasil como analista de equity research no Banco Icatu e no Banco BBA Creditanstalt.
A virada para o consumo veio em 2014, quando entrou na Kraft Heinz, empresa criada a partir da fusão arquitetada pelo fundo brasileiro 3G Capital e pela Berkshire Hathaway de Warren Buffett. Ali, escalou postos ao longo de uma década: diretor-geral para Austrália, Nova Zelândia e Papua Nova Guiné, presidente para Europa, Reino Unido, Oriente Médio, Rússia e África, até chegar ao topo internacional como EVP e presidente de Mercados Internacionais, supervisionando um portfólio acima de US$ 7 bilhões em quatro continentes.
A saída da Kraft Heinz, em março de 2024, foi discreta. Oliveira anunciou que passaria meses no Quênia com a Pharo Foundation, trabalhando em projetos de educação para crianças em situação de vulnerabilidade. Sete meses depois, estava de volta ao mundo corporativo, desta vez para apagar um incêndio.
O teste na JDE Peet's
A JDE Peet's, maior empresa global especializada em café e chá, vivia uma crise de liderança quando contratou Oliveira em novembro daquele ano. Dois CEOs haviam deixado o cargo em menos de oito meses. A empresa acumulava anos de queda nas ações e enfrentava a alta histórica dos preços do café verde, que comprimia margens.
Em menos de um ano, Oliveira reorganizou a estratégia. Batizou o plano de "Reignite the Amazing" e enxugou o portfólio. De mais de 50 marcas, a companhia passou a concentrar esforços em três frentes — Peet's, L'OR e dez marcas locais icônicas lideradas pela Jacobs. Prometeu 500 milhões de euros em economias de produtividade até 2027. Os resultados de 2024 foram considerados sólidos: lucro bruto de 8,84 bilhões de euros, alta de 7,9% em relação ao ano anterior.
O desempenho chamou atenção. Quando a Keurig Dr Pepper concluiu a aquisição da JDE Peet's em abril de 2026, nomeou Oliveira para liderar a nova Global Coffee Co., empresa que reuniria as operações de café das duas companhias, com receita anual de cerca de US$ 16 bilhões. Foi dessa posição que a Heineken o recrutou.
Segundo o presidente do conselho da cervejeira, Peter Wennink, Oliveira combina visão estratégica com rigor operacional, qualidades que a empresa considera essenciais para acelerar a agenda EverGreen 2030, o plano de longo prazo da cervejaria que prevê crescimento equilibrado e sustentável até o fim da década.
Charlene de Carvalho-Heineken, principal acionista do grupo, também se manifestou. Para a família controladora, a capacidade comprovada de Oliveira de transformar estratégia em execução disciplinada foi o fator decisivo.
Sujeito à aprovação dos acionistas em assembleia extraordinária marcada para 5 de agosto, Oliveira assume formalmente em 1º de outubro de 2026, para um mandato de quatro anos. Ele chega a uma empresa que já tem um plano desenhado — e que talvez precise um pouco da cultura de sua principal rival para executá-lo.
