Um novo estreito de Ormuz? A ameaça no Mar Vermelho

Em meio à uma reabertura hesitante do Estreito de Ormuz, os olhos do mundo se viram a uma outra rota marítima importante: o Mar Vermelho. A passagem de mais de 2.200 km entre o nordeste africano e a Península Arábica é uma das artérias mais importantes para a navegação de produtos do mundo, juntamente com a de Ormuz.
Todo ano, estima o think tank Council on Foreign Relations (CFR), cerca de 12% a 15% do comércio marítimo global — o que representa mais de US$ 1 trilhão anualmente — atravessa a passagem, que se estende do Canal de Suez ao norte até o estreito de Bab el-Mandeb, na costa do Iêmen, ao sul.
No começo desse mês, os rebeldes financiados pelo Irã no Iêmen, conhecidos como Houthis, anunciaram um banimento total contra embarcações israelenses que tentassem cruzar o Mar Vermelho, designando-as como "alvos militares legítimos".
O anúncio ecoou ameaças iranianas de fechar o estreito vizinho a Ormuz caso o bloqueio naval americano nos portos iranianos não fosse levantado. Atualmente, devido às negociações de paz, não há mais bloqueio, mas a ameaça suscita receios quanto à vulnerabilidade de outra rota fundamental para a economia global.
Assim, o Mar Vermelho desponta como outro ponto estratégico capaz de exercer forte pressão sobre a economia global em caso de escalada do conflito envolvendo o Irã. Especialistas avaliam que uma interrupção prolongada da navegação na região — especialmente devido às ações dos Houthis — provocaria atrasos nas cadeias globais de suprimentos, elevaria os preços da energia e ampliaria a instabilidade econômica internacional.
A hidrovia já se consolidou como uma das principais zonas de tensão desde o fim de 2023, quando os Houthis passaram a atacar embarcações comerciais e militares em resposta à campanha militar de Israel na Faixa de Gaza.
As ofensivas afetaram uma das rotas marítimas mais importantes do comércio mundial, obrigando as empresas de navegação a desviar seus navios e aumentando os custos do transporte internacional.
O envolvimento mais direto do grupo na guerra entre Irã e Israel, com o lançamento de mísseis contra o sul de Israel em março, reforçou o risco de o Mar Vermelho se transformar em uma nova frente do conflito regional.
A decisão dos Houthis de proibir totalmente a passagem de embarcações israelenses ou ligadas a Israel pela hidrovia amplia o potencial de escalada das tensões e aumenta as preocupações com novos impactos no comércio e na segurança da navegação internacional.
O que torna o Mar Vermelho um ponto estratégico importante?
Guarda costeira do Iêmen patrulha o Mar Vermelho, perto do estreito estratégico de Bab al-Mandab. (AFP/AFP)
Segundo a Organização Marítima Internacional (IMO), agência especializada da ONU, o Mar Vermelho é "uma das rotas marítimas mais críticas para o comércio global". Todos os anos, cerca de 30% do transporte mundial de contêineres passa pela hidrovia, por onde circulam desde produtos agrícolas, como grãos e fertilizantes, até minérios, metais, componentes eletrônicos, peças automotivas e recursos energéticos.
A importância da região também se evidencia no fluxo de petróleo. Dados da Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos (EIA) mostram que, no primeiro semestre de 2025, cerca de 4,9 milhões de barris por dia de petróleo bruto e derivados passaram pelo Canal de Suez e pelo oleoduto Suez-Mediterrâneo, ambos localizados na extremidade norte do Mar Vermelho.Outros 4,2 milhões de barris diários atravessaram o estreito de Bab el-Mandeb, na entrada sul da hidrovia. Juntas, essas três rotas responderam por aproximadamente 6% de todo o petróleo comercializado por via marítima no período. Embora esse volume seja significativamente inferior ao registrado no Estreito de Ormuz — por onde passaram, em média, quase 21 milhões de barris por dia no mesmo período —, ele reforça o papel estratégico do Mar Vermelho para a segurança energética mundial, especialmente em meio à incerteza que paira sobre Ormuz.
Além de sua relevância para o transporte de mercadorias e combustíveis, o Mar Vermelho também é considerado um dos principais gargalos da infraestrutura digital global. Estima-se que cerca de 90% dos cabos submarinos de fibra óptica que conectam a Europa à Ásia atravessem a região, sustentando o fluxo internacional de dados e comunicações.
Em análise publicada pelo CFR, o especialista Abdullah Jaber AlZaidi afirma que esses cabos "representam uma infraestrutura submarina soberana crítica, não menos significativa do que as rotas de petróleo e comércio".Danos registrados anteriormente nessas estruturas já provocaram interrupções expressivas na conectividade à internet e em serviços de computação em nuvem em partes do Oriente Médio, da África e da Ásia, evidenciando que uma escalada do conflito na região pode produzir impactos muito além do comércio marítimo.
