Um novo piso para o petróleo? Os efeitos do conflito no Oriente Médio e seus reflexos para commodities
A escalada das tensões no Oriente Médio mudou a dinâmica do mercado de petróleo e trouxe de volta ao radar dos investidores a possibilidade de preços mais elevados para a commodity. Com um horizonte cada vez mais limitado para uma resolução do conflito, o Brent chegou a subir 7% na quarta (29) e, segundo Vitor […]

A escalada das tensões no Oriente Médio mudou a dinâmica do mercado de petróleo e trouxe de volta ao radar dos investidores a possibilidade de preços mais elevados para a commodity. Com um horizonte cada vez mais limitado para uma resolução do conflito, o Brent chegou a subir 7% na quarta (29) e, segundo Vitor Novaes, analista de commodities do BTG Pactual, o petróleo pode continuar negociando em patamares elevados enquanto não houver uma solução para o conflito.
Antes da guerra, o cenário era bastante diferente. O mercado de petróleo era considerado amplamente ofertado e havia projeções de que o Brent poderia recuar para a faixa de US$ 50 a US$ 60 por barril.
“Hoje é uma loucura pensar nisso”, afirmou Novaes, no Radar das Commodities.
Segundo o analista, ainda é difícil estabelecer um novo piso para o petróleo, já que os preços estão sendo determinados principalmente pelos acontecimentos no Oriente Médio. O Brent chegou a se aproximar de US$ 74 por barril diante de sinais de cessar-fogo e trégua, mas voltou a subir com a reescalada das tensões.
Nesse cenário, o BTG avalia que o petróleo deve permanecer em uma faixa entre aproximadamente US$ 80 e US$ 100 por barril no curto prazo, enquanto o conflito continuar sem uma resolução clara.
“Tem uma assimetria mais para alta no curto prazo”, explicou Novaes.
Entre os fatores que sustentam esse cenário estão os ataques dos Houthis no Mar Vermelho, grupo apoiado pelo Irã, além do prêmio observado no mercado físico de petróleo do Oriente Médio. De acordo com o analista, o petróleo spot na região chegou a ser negociado com um prêmio de cerca de US$ 20 por barril em relação aos contratos futuros.
Outro ponto de atenção são os estoques de petróleo nos Estados Unidos, que permanecem em níveis historicamente baixos.
E o que isso significa para as commodities agrícolas?
Para o agronegócio brasileiro, os efeitos do petróleo mais caro podem ser divididos em dois grandes vetores: custos e energia.
O primeiro — e mais imediato — é negativo. Uma alta persistente do petróleo tende a elevar custos de diesel, fretes marítimos e fertilizantes nitrogenados, pressionando as margens dos produtores.
O fertilizante nitrogenado merece atenção especial porque sua produção depende do gás natural. Além disso, cerca de um quinto da produção mundial de gás natural passa pelo Estreito de Hormuz, região estratégica diretamente envolvida nas tensões do Oriente Médio.
“Tem esse vetor de custos quando a gente olha as commodities brasileiras”, explicou Novaes.
Nesse cenário, soja, milho e trigo estão entre as commodities que podem sentir os efeitos de uma eventual alta estrutural dos custos de produção e transporte.
Por outro lado, o petróleo mais caro também cria um efeito positivo para as commodities ligadas à produção de biocombustíveis.
No caso da soja, o principal canal é o biodiesel. Com combustíveis fósseis mais caros, a competitividade dos combustíveis renováveis aumenta, o que pode gerar um estímulo adicional para a demanda pelo óleo de soja.
Já para o milho, o impacto passa principalmente pelo etanol, especialmente nos Estados Unidos, onde o cereal é uma das principais matérias-primas utilizadas na produção do biocombustível.
Assim, embora o petróleo mais caro represente uma pressão sobre os custos do agronegócio, ele também pode oferecer suporte para commodities agrícolas utilizadas na produção de energia renovável.
Além do petróleo, nercado climático continua no radar
Apesar da influência crescente do cenário geopolítico, o petróleo não é o único fator que deve determinar o comportamento das commodities agrícolas nas próximas semanas.
Segundo Novaes, o mercado entra justamente em um período crucial para o chamado mercado climático nos Estados Unidos. Entre o fim de julho e o início de agosto, investidores passam a acompanhar com ainda mais atenção as condições das lavouras americanas, as chuvas, a produtividade esperada e os estoques globais.
“Também tem vetores aqui de clima, chuva, de estoques mundiais e produtividade das safras americanas, que o mercado olha muito nesse momento”, afirmou.
Dessa forma, o mercado agrícola passa a equilibrar dois grandes vetores: de um lado, a escalada do conflito no Oriente Médio, com impactos sobre petróleo, energia, fretes e fertilizantes; de outro, o clima nos Estados Unidos, que continuará sendo determinante para as perspectivas de oferta de soja, milho e outras commodities.
Para o petróleo, portanto, o cenário permanece marcado por elevada incerteza. Enquanto não houver uma solução para o conflito, o mercado pode continuar trabalhando com preços significativamente acima dos níveis observados antes da guerra — e o reflexo disso deve chegar tanto aos custos quanto à demanda por commodities agrícolas.
