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Mundo
01/10/2026
6 min

Uma década após o Brexit, Reino Unido cogita retorno à Europa

Proposta ganha aprovação imediata da Espanha e da França, mas uma série de desafios continua

Uma década após o Brexit, Reino Unido cogita retorno à Europa

Dez anos depois de votar pela saída da União Europeia, o debate sobre um eventual retorno do Reino Unido ao bloco passou a ganhar tração política.

O primeiro-ministro Andy Burnham afirmou nesta quarta-feira, 30, que Londres precisa considerar diferentes possibilidades para sua relação com o bloco e admitiu que um eventual novo referendo sobre a permanência na UE poderá constar de um futuro programa eleitoral do Partido Trabalhista.

A declaração, porém, veio acompanhada de uma ressalva. Burnham disse à britânica BBC que um novo referendo “não seria a coisa certa” neste momento e afirmou que o objetivo atual é avaliar as alternativas para uma relação que considera insuficiente.

Entre as possibilidades mencionadas estão a manutenção do modelo atual, uma aproximação semelhante à discutida entre a União Europeia e o Canadá e uma eventual entrada do Reino Unido na união aduaneira.

A mudança de tom representa uma inflexão em relação à campanha que levou Burnham de volta ao Parlamento. Durante a eleição que marcou seu retorno, ele havia prometido não reabrir as disputas do Brexit e afirmado que não defendia que o Reino Unido voltasse a discutir a adesão à União Europeia.

Agora, ao ser questionado sobre a possibilidade de um referendo no futuro, respondeu que “as coisas são possíveis” e que “onde estamos não é bom o suficiente”.

"Braços abertos"

Fachada de sede da União Europeia, em Bruxelas, que debate sobre adotar acordo com Mercosul

Fachada da sede da União Europeia, em Bruxelas. (Nicolas Tucat/AFP)

A reação europeia foi imediata. O presidente francês, Emmanuel Macron, respondeu, em inglês, “Welcome back” (bem-vindos de volta), e afirmou que uma eventual decisão britânica de retornar seria uma “muito boa notícia” tanto para o Reino Unido quanto para os europeus.

Em Madri, ao lado do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, Macron também apontou o limite de uma aproximação seletiva: Londres, segundo ele, não poderia escolher apenas as vantagens da integração europeia sem assumir as demais obrigações de pertencer ao bloco.

Sánchez, por sua vez, adotou uma posição semelhante e classificou o Brexit como uma perda para os britânicos e para o projeto europeu. O primeiro-ministro espanhol afirmou que Madrid receberia novamente o Reino Unido “de braços abertos” caso o país decidisse buscar o retorno.

Por sua vez, o premiê britânico pretende levar “diferentes opções” a uma cúpula com a União Europeia prevista para o fim do ano. A proposta deverá enfrentar resistência de forças políticas que acusam o governo de reabrir as divisões decorrentes da saída do bloco.

Conservadores e Reform UK reagiram às declarações de Burnham, enquanto os Liberais Democratas pressionam por uma aproximação mais rápida, incluindo a participação no mercado único e na união aduaneira.

A disputa também pode se tornar uma das principais linhas de fratura na próxima eleição geral britânica. Burnham tenta, por enquanto, manter a discussão no campo das opções de longo prazo, sem defender uma nova consulta popular.

Mas a simples admissão de que um referendo futuro é possível já altera os termos do debate iniciado com a votação de 2016.

As declarações de Macron e Sánchez ajudam a mostrar que a discussão deixou de ser exclusivamente britânica. A questão agora envolve também o cálculo estratégico da própria Europa, em um momento de guerra no continente, de instabilidade no Oriente Médio, de disputa entre grandes potências e de necessidade de coordenação entre as democracias ocidentais.

Nesse ambiente, o Reino Unido continua sendo uma potência militar, nuclear e diplomática importante, enquanto a União Europeia permanece como um dos principais polos econômicos e regulatórios do Ocidente.

O cenário também é diferente do de 2016. O Brexit foi apresentado por seus defensores como uma forma de recuperar a autonomia de Londres e permitir que o país estabeleça livremente suas próprias políticas comerciais, migratórias e regulatórias.

Uma década depois, o debate britânico passou a incorporar a questão inversa: quanto custa permanecer distante de um bloco que continua sendo seu principal espaço político e aliado econômico?

Rejoin EU

Manifestantes britânicos a favor do retorno à União Europeia protestam em Londres. (Richard Baker/Getty Images)

É nesse contexto que ganhou força renovada o chamado movimento Rejoin EU, formado ainda em 2020 por setores civis, acadêmicos e políticos que discutem não apenas a possibilidade de uma volta, mas também como ela poderia ocorrer.

Instituições como o Tony Blair Institute e o Institute for Public Policy Research defendem uma reaproximação gradual, evitando, inicialmente, os temas que mais dividiram o país durante o Brexit.

A estratégia seria reconstruir os vínculos por meio de acordos específicos antes de se chegar a uma eventual discussão sobre a adesão plena. Comércio, circulação de pessoas, regras regulatórias e a própria relação com as instituições comunitárias continuam sendo questões politicamente sensíveis.

Por isso, a aproximação pode começar por áreas em que Londres e Bruxelas tenham interesses convergentes.

A segurança é uma delas, sobretudo diante da guerra da Rússia contra a Ucrânia e da necessidade de ampliar a capacidade de resposta europeia. O Reino Unido já discute uma participação mais próxima nas estruturas de cooperação do bloco, enquanto países como a Alemanha e a Espanha defendem uma maior integração com Londres.

A França, embora favorável à cooperação estratégica, é mais cautelosa quando estão em jogo o acesso britânico ao mercado europeu e os mecanismos de financiamento da indústria comunitária.

A discussão sobre defesa, porém, é parte de uma questão maior. Londres tenta recuperar influência no continente sem necessariamente aceitar, neste momento, o conjunto de regras que acompanha a adesão ao bloco.

Bruxelas, por sua vez, precisa equilibrar a importância estratégica para a Grã-Bretanha com a preservação de suas próprias estruturas de integração. É justamente essa tensão que torna a atual aproximação diferente de uma simples reversão do Brexit.

Ainda não há uma proposta formal de retorno à União Europeia sobre a mesa. O que existe é o início de uma discussão sobre como o Reino Unido pretende se posicionar diante de uma Europa que enfrenta um ambiente internacional mais instável e sobre até onde Londres está disposta a reconstruir uma relação que decidiu romper uma década atrás.

O Brexit, que um dia foi apresentado como um ponto final na integração britânica ao continente, volta a ser tratado como um problema ainda em aberto.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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