Uma em cada quatro empresas familiares cresceu dois dígitos. O que elas fazem diferente?

Frequentemente, associamos as empresas familiares com cautela e tradição, focadas na estabilidade e relutantes em assumir grandes riscos. Essa reputação parece contradizer o crescimento de um negócio em tempos incertos, quando as condições do mercado passam por rápidas mudanças e há pressão para adaptar estratégias e investimentos de forma flexível.
No entanto, dados recentes sugerem que, para muitas empresas, a abordagem familiar não representa obstáculo. No último ano, cerca de uma em cada quatro empresas familiares registrou crescimento de dois dígitos, de acordo com a PwC’s 2025 Global Family Business Survey, realizada em parceria com o Ward Center for Family Enterprises da Kellogg's. Em muitos casos, essas empresas superaram o crescimento apresentado por empresas não familiares.
Como isso foi possível? Matt Allen, professor de empresas familiares na Kellogg, afirma que as empresas familiares que crescem mais rapidamente adotam uma visão de longo prazo, agem com rapidez quando necessário e mantêm seus valores mesmo em tempos difíceis.
Segundo ele, esses mesmos princípios podem ajudar qualquer empresa a prosperar em condições econômicas difíceis. Allen orienta as empresas não familiares sobre formas de se inspirar nesse modelo.
Pensar além do próximo trimestre
Os líderes de empresas de capital aberto tendem a priorizar a entrega de resultados trimestrais para os acionistas, preocupando-se menos com o que acontece depois da época em que têm essa responsabilidade. Em contrapartida, muitos líderes de empresas familiares têm uma perspectiva de longo prazo e são menos propensos a reagir impulsivamente às flutuações econômicas de curto prazo.
Em tempos turbulentos, essa estabilidade pode ajudar empresas a responderem de forma mais ponderada e evitar decisões que prejudiquem o negócio no futuro.
“Um pensamento válido é: ‘Bem, uma perspectiva de longo prazo significa que a pessoa será um pouco mais conservadora, que agirá mais lentamente’”, diz Allen. “Entretanto, em momentos de tremenda incerteza, o mais seguro é ter um plano de longo prazo. Quando a turbulência acontece, você continua firme.”
Essa visão de longo prazo ajuda as empresas familiares a manterem a disciplina quando outras podem buscar resultados rápidos. Antes de ingressar no meio acadêmico, Allen vivenciou esse tipo de pressão em uma grande empresa de capital aberto. Ao final de cada trimestre, se as vendas estivessem abaixo do previsto, aumentava a pressão para oferecer grandes descontos aos distribuidores apenas para antecipar receitas, comprometendo os resultados futuros.
Em contrapartida, as empresas familiares mantêm um horizonte mais longo. A continuidade da liderança ao longo de gerações reduz a tentação de buscar ganhos temporários que possam comprometer o desempenho no futuro.
A pesquisa da PwC constatou que as empresas familiares com crescimento de dois dígitos estavam mais focadas no longo prazo do que as concorrentes com crescimento mais lento.
“Uma mudança cultural para um pensamento de longo prazo pode ser obtida por remuneração criativa atrelada ao desempenho de executivos e da empresa no longo prazo”, afirma Allen. “Qual a importância dos relacionamentos com clientes, fornecedores ou a comunidade? Qual o custo de sacrificar esses relacionamentos em prol de lucros de curto prazo?”
A inclusão de métricas não financeiras incentiva os líderes a equilibrar as decisões. “Querer mudar mentalidades de forma sincera exige expandir o que é valorizado na organização além do desempenho financeiro.”
Não apresse a tecnologia
Uma das vantagens da perspectiva de longo prazo é permitir investimentos relevantes, mas cuidadosos, em tecnologia. Embora empresas familiares sejam frequentemente vistas como conservadoras, Allen afirma que o oposto acontece entre aquelas que mais crescem.
A inteligência artificial é um dos principais exemplos. Segundo ele, apesar do potencial para impulsionar crescimento e produtividade, sua adoção exige investimentos significativos e tempo para implementação.
“Não dá para simplesmente dizer: 'Vamos adotar a IA'. Existe uma curva de aprendizado e um custo para integrá-la e implementá-la”, diz.
Essa postura mais cautelosa parece gerar resultados. Quase metade das empresas familiares afirma que a IA generativa aumentou receita e lucratividade, contra cerca de 30% das empresas não familiares.
Segundo Allen, outras empresas podem aprender com essa abordagem, entendendo que novas tecnologias exigem investimento contínuo para gerar retorno.
“Para as organizações, adotar uma abordagem de longo prazo em relação à tecnologia significa ter paciência com as mudanças tecnológicas”, afirma. “Uma abordagem paciente aumenta a probabilidade de uma transformação real, em vez de ganhos superficiais.”
Deixe os valores guiarem o crescimento
Outro padrão observado entre as empresas familiares que mais crescem é a definição clara de propósito e valores. Tornar esses princípios explícitos ajuda a evitar reações impulsivas em momentos de turbulência.
“Ter valores é uma coisa”, diz Allen. “Outra, bem diferente, é comunicar esses valores dentro da empresa e fazer com que sejam conhecidos e compreendidos.”
As empresas familiares costumam reforçar esses princípios por meio de histórias que ilustram como seus valores se traduzem na prática. Segundo Allen, essa estratégia cria um senso de direção compartilhado.
“Uma coisa é dizer ‘nos importamos com o cliente’. Outra é fazer com que líderes e funcionários saibam como transformar isso em decisões do dia a dia.”
Allen cita uma empresa de serviços que destinava um orçamento mensal para que equipes de atendimento reconhecessem clientes com descontos, presentes, cafés ou outras iniciativas de relacionamento. O impacto na percepção dos clientes superou amplamente o custo da ação.
Dar ênfase aos valores também fortalece a reputação da organização. “Elas estão inseridas nas comunidades onde atuam”, afirma Allen. “Empregam várias gerações da mesma família e se importam profundamente com seus funcionários.”
Essa visão pode levar empresas familiares a evitar demissões ou cortes drásticos em momentos difíceis. Allen cita como exemplo a varejista LL Bean, que mantém operações em uma região remota do Maine mesmo com menor rentabilidade.
“Talvez tenhamos um retorno menor neste trimestre em troca dessa maior lealdade”, diz Allen. “Empresas não familiares podem aprender a fazer o mesmo, ampliando os critérios de sucesso.”
Reduza a burocracia sempre que possível
Estruturas de propriedade e governança mais simples permitem que empresas familiares ajam com rapidez em períodos de incerteza. Allen chama essa característica de flexibilidade estrutural.
“Como empresa privada, não estou sujeito a um monte de acionistas aleatórios”, afirma. “Não preciso lidar com a burocracia de uma grande empresa de capital aberto.”
A pesquisa da PwC mostra que muitas empresas familiares com crescimento mais acelerado são de médio porte, um ponto de equilíbrio entre agilidade, acesso a recursos e menor burocracia.
Empresas não familiares também podem aprender com esse modelo, reduzindo camadas de aprovação e acelerando a tomada de decisões.
Para aproveitar essa flexibilidade, conclui Allen, é essencial preparar líderes capazes de pensar estrategicamente e adaptar o negócio às mudanças, em vez de apenas preservar o legado recebido.
