Uma em cada três famílias está endividada na Argentina
Dados do Banco Central e de consultorias apontam 6 milhões de inadimplentes; sem regulação de juros pelo governo Milei, busca por crédito migra para fintechs e agiotagem

Pelo menos uma a cada três famílias argentinas está endividada. É o que mostram os dados do Banco Central do país e de consultorias econômicas locais: mais de 20 milhões de cidadãos possuem dívidas ativas. O país tem aproximadamente 46 milhões de habitantes.
Entre os endividados, mostra o estudo, cerca de 6 milhões estão em mora — com pagamentos atrasados há mais de 90 dias ou em situação de inadimplência. E, segundo análise do Centro de Economia Política Argentina (CEPA), aproximadamente 3,5 milhões de devedores (55% dos inadimplentes) possuem débitos classificadostecnicamente como irrecuperáveis.
A deterioração do poder de compra no país tem levado, nos últimos anos, ao endividamento em massa da população. Não com itens comuns, mas com compras voltadas para a sobrevivência. Dados da CEPA indicam que cerca de 90% do atraso nos cartões de crédito é originado por compras em supermercados e alimentação.
A pressão sobre o orçamento doméstico reflete o descompasso entre a inflação de itens essenciais e o reajuste salarial. Na cidade de Buenos Aires, as tarifas de metrô registraram alta de 2.000%, o transporte ferroviário subiu 1.800% e os serviços básicos avançaram 850%, enquanto a média dos salários teve reajuste de 300% no período.
Evolução para o crédito informal e fintechs
A perda de acesso ao crédito bancário tradicional tem deslocado os tomadores para plataformas digitais e fintechs, cujas taxas de inadimplência costumam ser superiores. A taxa nominal anual (TNA) nos bancos de menor custo gira em torno de 70% — para uma inflação projetada de 30% nos próximos 12 meses —, enquanto o Custo Financeiro Total (CFT) em carteiras digitais e fintechs pode atingir até 1.500%.
Nos casos em que o crédito formal e digital é esgotado, a demanda migra para o mercado informal de agiotagem. Dados da Secretaria de Segurança da Província de Buenos Aires apontam um aumento nas ocorrências de violência ligadas à cobrança de dívidas informais, onde empréstimos iniciais de 1 milhão de pesos (cerca de US$ 660) chegam a escalar para 25 milhões de pesos (cerca de US$ 16,6 mil) em um intervalo de cinco meses devido a juros desregulados.
Postura governamental e debate sobre juros
O avanço da inadimplência motivou manifestações na capital argentina organizadas pela Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e por associações de devedores, que reivindicam a decretação de emergência de crédito e a limitação das taxas cobradas pelo setor financeiro.
O governo do presidente Javier Milei tem classificado a crise de endividamento individual como "uma questão entre entes privados". Questionado sobre as taxas aplicadas por aplicações financeiras digitais — que chegam a oscilar entre 400% e 700% —, o ministro da Economia, Luis Caputo, reconheceu a existência de cobranças abusivas, mas reiterou que o Poder Executivo não interferirá na regulação dos contratos entre as partes.
