‘Uma ferramenta que vai trabalhar ao lado de pessoas’: a IA na rotina de um executivo de pagamentos
Thomas Camargo, VP de Produtos, Aceitação da Mastercard, uniu o PIACC da Saint Paul à gestão diária de inteligência artificial em sua equipe

Em uma das aulas do curso que fez na Saint Paul, Thomas Camargo se viu diante de um exercício que soa, à primeira vista, distante da rotina de um executivo de meios de pagamento. "Um dos exercícios exigiu que fizéssemos uma música combinando distintas ferramentas de IA: um poema e uma música com a IA”, conta.
Para ele, o valor não estava na música em si. "Ainda que seja anedótico, não seja algo que vá usar no dia a dia, esse trabalho é um tipo de experiência hands on, utilizando as ferramenta que te dão a credibilidade, a facilidade de, ao voltar para o escritório, ser tanto um usuário mais efetivo, mas também ser um líder mais efetivo”, conta.
Camargo é VP de Produtos, Aceitação da Mastercard e cursou o PIACC, Programa de Inteligência Artificial para C-levels, Conselheiros e Acionistas, da Saint Paul Escola de Negócios.
A experiência, diz ele, se somou a uma trajetória de mais de duas décadas construída em bancos, bandeiras e empresas de cartão, e hoje molda a forma como sua equipe trabalha com dados e ferramentas de IA todos os dias.
Da estabilização do real ao Open Banking
A carreira de Camargo começou em um momento específico da economia brasileira. "O país estava passando por uma transformação muito importante em relação à estabilização econômica em decorrência dos efeitos positivos do plano real", recorda.
"A expectativa é que iria ocorrer uma grande inclusão financeira, uma massa muito grande de consumidores que passaria a consumir produtos financeiros de uma maneira como eles não consumiam antes", diz.
Ele começou como trader de câmbio, passou por Citigroup e por Credicard, onde participou da separação entre Orbitall e Credicard que deu origem à processadora e à emissora, à época.
Depois de um período em finanças, planejamento comercial e BI, mudou-se para Miami, onde passou quase oito anos atendendo a região da América Latina, exceto Brasil e México, primeiro em cartões de crédito, depois no banco de varejo.
Fez o MBA em Kellogg e foi para a American Express, em um modelo de negócio diferente do banco de varejo. "Na Amex já era uma estrutura de bandeira, um modelo B2B", explica. Cuidou de Venezuela, Chile e Peru.
Voltou ao Brasil em 2010, por decisão pessoal ligada à família, no momento em que terminava a exclusividade que Redecard e Cielo tinham com suas respectivas bandeiras. Entrou na Mastercard pelo time de aceitação, passou por contas grandes e pela chamada long tail, liderou o início da operação de Open Banking da empresa no país e, há cerca de dois anos, retornou à aceitação, agora com outra leitura de mercado.
"Quinze anos atrás, a visão era destravar a aceitação, permitir que a gente tivesse múltiplos adquirentes", diz.
"Hoje o cartão é presente na vida da maioria das pessoas, em praticamente todos os ramos da economia. Mas a gente ainda vê grandes oportunidades em alguns ramos e casos de uso serem ampliados como por exemplo educação, pagamentos de contas, fluxos B2B via parcerias com emissores, adquirentes, subadquirentes e ERPs”, comenta.
IA no dia a dia, com governança
Na Mastercard, o uso de inteligência artificial já é rotina. "A visão da Mastercard é que ela seja uma ferramenta que vai trabalhar ao lado das pessoas", afirma.
Segundo ele, não houve, nos últimos meses, um único dia sem uso de alguma ferramenta de IA pela equipe.
Thomas Camargo, VP de Produtos, Aceitação da Mastercard
Essa organização do conhecimento, diz, é central para o negócio de uma bandeira: garantir que o pagamento funcione com segurança, de um lado, e antecipar o futuro do meio de
pagamento, de outro, coordenando iniciativas e projetos com mais de 30 adquirentes, mais de 120 emissores e milhões de varejistas no Brasil.
"Ter o auxílio de ferramentas de inteligência artificial que permitam organizar todo esse conhecimento e criar mecanismos de comunicação em escala traz um ganho de produtividade e impactos positivos incríveis", diz.
A caixa de Pandora do PIACC
A escolha pelo PIACC combinou dois fatores, segundo Camargo: "a combinação do rigor acadêmico da Saint Paul" e uma estrutura de curso pensada para conectar o conteúdo ao dia a dia das empresas. Entre as aulas, destaca as ministradas a partir do livro do professor Musa.
"É um conteúdo que é como abrir uma caixa de Pandora, em termos de prover estrutura de pensamento, de entendimento do alcance dessas ferramentas, mas também da responsabilidade como líderes de negócio de como implementar isso com segurança, com respeito à privacidade de dados", conta.
Perguntado sobre um projeto específico que tenha levado da sala de aula para a Mastercard, hesita. "Diferentes elementos, diferentes disciplinas eu tive a oportunidade de incorporar e trazer para o dia a dia do meu trabalho", diz, citando a volta à leitura de código e, principalmente, a criação de processos dentro do time.
O que vem depois do cartão
Para os próximos anos, Camargo aposta no que chama de agentic commerce. "Serão ferramentas que auxiliarão os consumidores a fazerem compras que hoje são repetitivas ou rotineiras de uma forma mais rápida e mais simples, dentro de certas regras de segurança", descreve, incluindo também decisões de compra mais complexas, com por exemplo que envolvam múltiplos provedores de serviço.
Do lado das empresas, o desafio é lidar com o volume de dados gerado em cada interação, do celular ao terminal de pagamento. "Entender essa jornada, trabalhá-la de forma mais
efetiva, gerando eficiência, redução de custo e uma melhor experiência para os consumidores vai ser um dos principais temas da indústria nos próximos anos", finaliza.
