União de gigantes amplia segurança para mercado de R$ 10 tri em duplicatas
Nexxera e Núclea combinam duplicatas, dados transacionais e histórico financeiro para reduzir riscos e ampliar as fontes de capital e crédito mais facilitado para empresas

Pouco mais de um mês após a entrada em operação da nova infraestrutura de duplicatas escriturais no Brasil, uma das maiores mudanças recentes no mercado de crédito empresarial avança sobre um universo estimado em R$ 10 trilhões por ano. O modelo transforma vendas a prazo em ativos digitais mais rastreáveis e seguros, abrindo espaço para ampliar a oferta de financiamento às empresas.
O sistema entrou em operação em 15 de julho de 2026, dentro de um cronograma gradual estabelecido pelo Banco Central. A primeira etapa é de adesão voluntária e a expectativa é que a infraestrutura esteja em pleno funcionamento por volta de dezembro deste ano, antes do avanço posterior da obrigatoriedade para grandes, médias e pequenas empresas.
É nesse novo mercado que a catarinense Nexxera se uniu à paulista Núclea para desenvolver uma solução que combina o registro das duplicatas com dados transacionais e o histórico financeiro de compradores e fornecedores. A proposta é oferecer aos financiadores uma visão mais ampla sobre cada operação, reduzir a percepção de risco e criar condições para que empresas tenham acesso a mais fontes de crédito.
Para milhares de negócios brasileiros, a mudança ataca um problema cotidiano: vender não significa necessariamente ter dinheiro no caixa. Entre a emissão de uma nota fiscal e o pagamento pelo cliente podem transcorrer 30, 60 ou 90 dias. Nesse intervalo, salários, fornecedores, impostos e outras despesas continuam vencendo.
Transformar o valor que ainda será recebido em recursos para manter a operação funcionando é uma necessidade recorrente — e, para quem não dispõe de garantias reais, pode custar caro. É justamente nesse descasamento que a duplicata escritural pretende mexer: uma venda já realizada, mas ainda não paga, passa a contar com uma infraestrutura que permite verificar a existência, a titularidade e a situação daquele recebível.
O tamanho desse mercado ajuda a dimensionar o potencial da transformação. Cerca de R$ 10 trilhões em duplicatas são emitidos anualmente no Brasil. Trata-se de um gigantesco estoque de valores a receber que, à medida que ganha registro eletrônico e informações mais confiáveis, pode ampliar as possibilidades de financiamento das empresas.
Entre os efeitos esperados estão maior segurança nas operações, redução das assimetrias de informação e aumento da concorrência entre financiadores. O novo ambiente permite que fornecedores, mediante autorização de acesso às informações, apresentem seus recebíveis a diferentes instituições interessadas em oferecer crédito, ampliando as alternativas além do banco com o qual já mantêm relacionamento.
Histórico confiável
A lógica da solução desenvolvida pela Nexxera e pela Núclea parte de uma constatação simples. Uma empresa pode não possuir imóveis, máquinas ou patrimônio suficiente para oferecer como garantia, mas apresentar uma carteira consistente de clientes, vendas recorrentes e um histórico confiável de pagamentos e recebimentos. Quando essas informações passam a ser organizadas e analisadas em conjunto, o financiador deixa de enxergar apenas uma fotografia patrimonial e passa a observar a dinâmica do negócio.
“Existe muito dinheiro bom procurando ativos bons e seguros. O desafio é criar condições para que esse capital chegue às empresas com menor percepção de risco. A duplicata escritural, combinada à gestão dos pagadores e recebedores, aos dados transacionais e ao registro dos recebíveis, pode criar um ambiente muito mais seguro para o financiador e, consequentemente, ampliar o acesso ao crédito”, afirma Edson Silva, presidente da Nexxera.
A tese defendida pela companhia é que a discussão sobre financiamento empresarial não pode ficar restrita ao nível dos juros. Mesmo com a Selic elevada, o risco atribuído a cada tomador continua sendo um componente decisivo do preço final do crédito. Quanto menor a capacidade de conhecer a empresa e avaliar a qualidade da garantia, maior tende a ser o prêmio exigido por quem empresta.
A escrituração procura atacar justamente parte dessa incerteza. Emitida e registrada nos sistemas eletrônicos que integram a nova infraestrutura, a duplicata passa a ter sua titularidade identificada e suas negociações rastreadas. Também é possível identificar se aquele ativo foi oferecido como garantia ou negociado, reduzindo o risco de uma mesma venda sustentar operações diferentes.
Há outra mudança relevante para o empresário. As duplicatas podem ser analisadas por diferentes instituições interessadas em financiar aquele recebível, abrindo espaço para bancos, fintechs e outros agentes competirem pelo ativo. A possibilidade de ampliar o número de financiadores é uma das apostas para aumentar a concorrência nesse mercado.
Para uma pequena indústria, o efeito pode ser concreto. Imagine uma venda de R$ 500 mil para uma grande rede, com pagamento previsto para 60 dias. O negócio foi fechado, a mercadoria entregue e a receita contabilizada, mas o dinheiro ainda não chegou. Enquanto espera, a fábrica precisa comprar matéria-prima, pagar funcionários e produzir o próximo pedido.
Se precisar antecipar aquele valor, a qualidade das informações disponíveis sobre o recebível influencia a avaliação feita por quem fornecerá os recursos. Com o registro eletrônico, o credor consegue saber que o ativo existe, a quem pertence e se já está comprometido. Acrescentando dados sobre o histórico das empresas envolvidas, a intenção é criar outra camada de segurança para a decisão.
“Quando conseguimos unir registro, dados e comportamento financeiro em uma mesma visão, deixamos de olhar apenas para uma fotografia da empresa e passamos a enxergar sua dinâmica real. Essa inteligência pode ser decisiva para reduzir a percepção de risco e permitir que mais recursos cheguem ao mercado de crédito empresarial”, diz Silva.
Quem são as parceiras
A Nexxera chega a esse mercado depois de uma transformação que ampliou significativamente sua presença no sistema financeiro corporativo. Fundada em Florianópolis em 1992 por Edson Silva e Edenir Silva, a companhia começou conectando empresas e bancos para troca de arquivos e execução de operações financeiras e, ao longo de mais de três décadas, avançou sobre pagamentos, cadeias de fornecedores, recebíveis e crédito.
Hoje, a estrutura da companhia conecta 1,2 milhão de empresas e mantém cerca de 12 mil contratos ativos. Em 2025, suas plataformas movimentaram aproximadamente R$ 10 trilhões em transações eletrônicas, enquanto o faturamento chegou a R$ 180 milhões, avanço de 76% em relação ao ano anterior.
Do outro lado da parceria, a Núclea é uma das principais infraestruturas do mercado financeiro brasileiro. Sediada em São Paulo, atua em liquidação, registro de ativos, dados, prevenção a fraudes e serviços para instituições financeiras.
Em 2024, a Núclea processou mais de 40,7 bilhões de operações, que movimentaram mais de R$ 18,4 trilhões. No ano seguinte, a companhia registrou receita de R$ 1,66 bilhão, EBITDA ajustado de R$ 819 milhões e lucro líquido de R$ 639,6 milhões.
