Universidade chinesa quer cancelar aulas de inglês à medida que IA avança

Uma universidade de pesquisa da China anunciou que pretende eliminar gradualmente as aulas tradicionais de inglês e substituí-las por disciplinas voltadas à comunicação intercultural. A proposta parte da avaliação de que os avanços da inteligência artificial (IA), especialmente na tradução simultânea, reduziram a necessidade de dominar um idioma estrangeiro para interagir com pessoas de diferentes países.
Com isso, o foco na interlocução entre culturas, independentemente das barreiras linguísticas, passa a ganhar mais protagonismo.
O plano foi apresentado por Zhao Wei, reitor da Shenzhen University of Advanced Technology (Suat), no sudeste da China, em um vídeo divulgado nas redes sociais da instituição no início de julho. Segundo ele, estudantes que ingressarem na universidade em 2026 já deverão adotar o novo currículo, ainda experimental.
A mudança prevê que os alunos deixem de ter aulas convencionais de inglês e passem a estudar aspectos culturais do Oriente e do Ocidente. O objetivo é prepará-los para negociações, intercâmbios acadêmicos e relações profissionais internacionais, desenvolvendo competências que, segundo a universidade, não podem ser substituídas pela IA.
Para Zhao Wei, os sistemas de tradução em tempo real atingiram um nível de eficiência que permite conversas entre pessoas que não compartilham o mesmo idioma. Na avaliação do dirigente, a capacidade de compreender diferenças culturais, exercer empatia e interpretar contextos é mais relevante do que a fluência em inglês em um cenário de rápida evolução tecnológica.
Ao anunciar a mudança curricular, Zhao Wei afirmou que a tecnologia de tradução simultânea alcançou um nível de precisão suficiente para reduzir a necessidade de dominar um idioma estrangeiro. Segundo o reitor, hoje já é possível conversar naturalmente com pessoas de diferentes países usando fones de ouvido capazes de traduzir as falas em tempo real.
Como exemplo, o Zhao explicou que uma pessoa pode falar com ele em inglês enquanto o reitor recebe a tradução imediata para o chinês. Da mesma forma, sua resposta em chinês poderia ser automaticamente traduzida para outro idioma, como o espanhol, permitindo que cada participante utilize sua língua nativa durante a conversa.
Na avaliação de Zhao, esse avanço tecnológico transforma o papel das universidades. Em vez de concentrar esforços exclusivamente no ensino da língua inglesa, as instituições deveriam preparar os estudantes para interpretar contextos culturais, compreender diferentes formas de comunicação e estabelecer relações de confiança em ambientes internacionais.
A proposta apresentada pela Suat acompanha um debate que vem ganhando espaço no ensino superior chinês.
No fim de junho, um seminário realizado na província de Hunan reuniu especialistas e dirigentes universitários para discutir como a inteligência artificial deve influenciar a formação em línguas estrangeiras.
Durante o encontro, He Xuhui, vice-presidente da Central South University, destacou que as universidades enfrentam duas mudanças importantes simultaneamente. De um lado, os estudantes nascidos após os anos 2000 chegam ao ensino superior com um nível de inglês superior ao das gerações anteriores. De outro, as ferramentas de IA estão alterando profundamente a maneira como as pessoas aprendem e utilizam idiomas.
Na mesma discussão, Li Defeng, vice-diretor da Faculdade de Humanidades da Universidade de Macau, defendeu que o ensino de línguas deixe de priorizar apenas as competências linguísticas. Segundo ele, a formação deve se apoiar em quatro pilares: domínio do idioma, comunicação intercultural, pensamento crítico e alfabetização em inteligência artificial.
Outros pesquisadores também defendem que disciplinas de idiomas incorporem conteúdos ligados à cultura chinesa. A proposta busca fortalecer a confiança cultural dos estudantes e prepará-los para representar o país em ambientes internacionais, alinhando a formação universitária aos objetivos de ampliar a influência cultural chinesa no exterior.
Universidades chinesas já flexibilizam exigências de inglês
A discussão sobre mudanças no ensino de idiomas já vem gerando efeitos práticos em diversas universidades da China. Nos últimos anos, algumas instituições reduziram a quantidade de créditos obrigatórios destinados às disciplinas de inglês geral, enquanto outras revisaram critérios tradicionais de avaliação da proficiência dos estudantes.
Durante décadas, era comum que universitários precisassem ser aprovados no College English Test (CET), exame nacional de proficiência em inglês, como condição para concluir a graduação. Essa política visava garantir um nível mínimo de domínio da língua entre os formandos.
Entretanto, esse modelo passou a ser flexibilizado. Já em setembro de 2023, a Universidade Xi'an Jiaotong anunciou que deixaria de exigir a aprovação no exame como requisito para a obtenção do diploma. A decisão foi interpretada por especialistas como um reflexo da evolução do ensino básico e das novas necessidades das universidades.
Pesquisadores da Academia Nacional Chinesa de Ciências da Educação afirmam que a flexibilização não significa que o inglês tenha perdido importância. Pelo contrário, a expectativa é que as instituições passem a estabelecer exigências mais específicas para cada área do conhecimento, considerando tanto o avanço da proficiência dos estudantes quanto o impacto crescente das tecnologias de inteligência artificial na comunicação internacional.
