US$ 10 bilhões em jogo: gigante do setor de vinhos enfrenta disputa familiar

Aos 99 anos, o fundador do Grupo Castel, Pierre Castel, vê a sucessão do seu patrimônio virar problema. Romy, sua única filha, e Alain, um dos sobrinhos do bilionário, tentam destituir na Justiça o CEO escolhido pelo patriarca para comandar o conglomerado de bebidas.
O caso corre na Suprema Corte de Singapura e pode ir a julgamento ainda este ano, de acordo com informações divulgadas pela Bloomberg. A companhia soma mais de 150 subsidiárias, 43 mil funcionários em 35 países e receita anual de 6,5 bilhões de euros (US$ 7,59 bilhões).
O grupo nasceu como uma pequena operação de vinhos perto de Bordeaux, na década de 1940. Hoje é avaliado em US$ 10 bilhões pelo Bloomberg Billionaires Index, com cervejarias, fabricantes de refrigerantes e plantações na África.
A blindagem que virou disputa
O plano de sucessão começou a ser montado há mais de três décadas. Castel consolidou a propriedade do grupo em uma empresa em Gibraltar, criou uma fundação em Liechtenstein e, em 2008, fechou o desenho com um trust em Singapura.
A estrutura é administrada pela SG Trust (Ásia), que controla o grupo por meio de duas entidades em Singapura, a Investment Beverage Business Fund (IBBF) e a Cassiopee; além da D.F. Holding, em Luxemburgo, que consolida os resultados financeiros.
Uma quarta peça, a IBBM, cuida da distribuição de dividendos entre as cinco ramificações da família. E a ideia original era impedir que a segunda geração tivesse poder de gestão sobre o império, mantendo o crescimento via reinvestimento dos lucros.
Romy Castel contesta essa leitura. Em nota, os advogados da herdeira afirmam que quem controla a IBBM define a composição dos conselhos das demais entidades e que esse controle é, justamente, o que está em disputa na Justiça de Singapura.
Família: 'CEO tenta assumir controle'
O atual CEO, Gregory Clerc, foi o advogado que defendeu Castel em uma briga com o fisco suíço perdida em 2022. A defesa argumentava que Castel havia se afastado da gestão direta do negócio para evitar conflitos familiares futuros. Em 2023, ele nomeou o próprio Clerc como CEO.
Já Alain Castel integrava os conselhos da D.F. Holding e da Cassiopee, mas foi removido pelos trustees em dezembro sem justificativa oficial. Ele continua à frente do braço de vinhos da companhia. Depois da saída, passou a questionar publicamente a gestão de Clerc.
A filha, que nunca ocupou cargo operacional na empresa, também disse à Bloomberg em dezembro que o executivo havia acumulado poder demais e estaria "tentando assumir o controle".
Sem conseguir destituir Clerc e o presidente do conselho, Pierre Baer, em assembleias e votações, os dois recorreram à Justiça. Só que uma decisão judicial impede ambos de atuar como diretores da IBBM.
Em e-mail à Bloomberg, Baer disse que a permanência de Clerc na Cassiopee não depende do cargo na IBBM. Ele destacou que o executivo seguirá no posto enquanto o trustee considerar que ele continua "capaz e competente".
Não é só um problema isolado
O caso Castel não é isolado e a fundadora da consultoria de family offices Tamarind Partners, Kirby Rosplock, resume o padrão. "O que uma geração vê como proteção, a próxima sente como restrição".
As 500 maiores empresas familiares do mundo geraram US$ 8,8 trilhões em receita em 2024. A expectativa é que US$ 83 trilhões em patrimônio sejam transferidos entre gerações nas próximas duas décadas no mundo.
A consultoria McKinsey indica, ainda, que empresas familiares respondem por cerca de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) global e 60% dos empregos.
O professor da Universidade de Copenhague, Morten Bennedsen, avaliou que o uso de trusts vem crescendo porque "simplesmente deixar a próxima geração resolver por conta própria é um risco alto", mas pondera que a ferramenta pode sair pela culatra.
Já o sócio do escritório britânico Wedlake Bell, Matt Braithwaite, aponta outro problema em modelos de sucessão decididos sem diálogo com os herdeiros tendem a gerar desconfiança.
Em dezembro, antes do agravamento do litígio, Romy Castel já alertava sobre o desgaste entre as gerações. "É muito difícil, em uma família grande, concordar com tudo. Sempre existe uma disputa de poder, e isso preocupava muito meu pai."
