US$ 40 trilhões: por que a maior dívida dos EUA não virou tema político
Com cifra equivalente a US$ 117 mil por habitante dos EUA, disparada da dívida americana é preocupante, mas não ganha tração no debate político

A dívida pública dos Estados Unidos atingiu US$ 40 trilhões, em um cenário de déficits persistentes que começam a pressionar cada vez mais as contas do governo. Para o Council on Foreign Relations (CFR), a dimensão do problema contrasta com a pouca atenção que o tema tem recebido no debate político, especialmente às vésperas das eleições de meio de mandato, programadas para novembro.
A cifra equivale a aproximadamente US$ 117 mil por pessoa que vive nos Estados Unidos. A relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB) chegou a 125%, superando inclusive o nível registrado durante a Segunda Guerra Mundial.
Naquele período, o enorme esforço de gastos para financiar o conflito levou a dívida americana a atingir cerca de 106% do PIB. Agora, porém, o país alcança um patamar ainda maior devido, aponta o estudo, à extravagância política.
O déficit também permanece elevado. O Congressional Budget Office (CBO) — entidade não-partidária do legislativo americano que fornece ao governo dados fiscais e orçamentários — projeta que o governo federal encerrará o ano fiscal em setembro com um rombo de US$ 2,1 trilhões, equivalente a cerca de 6% do PIB.
Avanço da dívida
Dívida federal americana já ultrapassa os US$ 40 trilhões ( user3222645/Freepik)
O cenário chama a atenção porque ocorre em um período próximo do pleno emprego, quando, em tese, as receitas do governo deveriam contribuir para a melhora das contas públicas. Em vez disso, o déficit continua ampliando o endividamento federal.
Segundo o CFR, a dívida nacional dobrou na última década e quadruplicou em menos de 20 anos: o artigo revela que cerca de metade da dívida americana foi acumulada desde a primeira eleição de Donald Trump, em 2016, enquanto aproximadamente 75% surgiu desde a primeira eleição de Barack Obama, em 2008.
O custo desse endividamento já se manifesta de forma significativa no orçamento. O governo americano deverá gastar pouco mais de US$ 1 trilhão neste ano apenas com o pagamento de juros da dívida, um valor semelhante ao destinado à defesa nacional.
O avanço dos juros tende a intensificar a disputa por recursos no orçamento federal. Projeções da Peterson Foundation citadas no estudo indicam que os pagamentos de juros podem mais do que dobrar ao longo da próxima década, reduzindo o espaço para outras prioridades do governo.
O risco é agravado pela recente alta dos rendimentos dos títulos de longo prazo do Tesouro americano.
O movimento sugere que investidores podem estar exigindo uma remuneração mais alta diante das preocupações quanto à trajetória fiscal dos Estados Unidos. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, tentou conter essa pressão ao ampliar o programa de recompra de títulos do governo.
A medida provocou uma breve queda nas taxas de juros, mas os rendimentos voltaram a subir posteriormente.
Para o investidor Stanley Druckenmiller, porém, uma política fiscal confiável teria um efeito muito maior sobre os juros de longo prazo do que as operações de recompra de títulos. A avaliação reforça a percepção de que o problema central está na trajetória dos gastos e dos déficits.
Um problema que passa despercebido
Cúpula do Congresso dos EUA, com a bandeira americana: apesar do tamanho da dívida, pauta ganha pouco espaço no debate público, mesmo às vesperas das eleições de meio mandato (Ken Cedeno/AFP)
Apesar da dimensão do problema, a dívida perdeu espaço no debate político americano. O CFR observa que candidatos e eleitores demonstram pouco interesse pelo tema, enquanto questões como os preços dos combustíveis, a inteligência artificial, os data centers e a segurança nacional dominam a agenda.
Uma pesquisa recente da Gallup mostrou que apenas 2% dos americanos consideram a dívida nacional e o déficit federal os principais problemas do país. A baixa preocupação popular reduz a pressão sobre os políticos para que apresentem medidas capazes de conter o crescimento do endividamento.
O risco, segundo o estudo, reside na possibilidade de que a falta de ação seja sustentável apenas até certo ponto.
Enquanto o governo continuar aumentando os gastos e apostando em um crescimento econômico futuro para equilibrar as contas, a dívida seguirá crescendo e poderá se transformar em uma restrição cada vez maior à política fiscal americana.
