US$ 433 bilhões evaporam das bolsas em NY com Tesla e Alphabet em queda forte

As ações de Tesla (TSLA) e Alphabet (GOOGL) despencam nesta quinta-feira, 23, após a divulgação dos balanços do 2° trimestre e eliminam, juntas, cerca de US$ 433 bilhões em valor de mercado no início da tarde. A empresa automotiva recuava mais 13%, o que representa uma perda estimada de US$ 182,5 bilhões em valor de mercado, enquanto a dona do Google caía ao menos 6%, reduzindo seu valor em aproximadamente US$ 250,4 bilhões.
Apesar de ambas terem apresentado crescimento de receita acima do esperado, o mercado reagiu negativamente aoaumento dos investimentos em inteligência artificial (IA), que pressionam o fluxo de caixa e levantam dúvidas sobre o ritmo de retorno desses aportes.
No caso da Tesla, a companhia entregou receita de US$ 28,24 bilhões no segundo trimestre, acima da expectativa de US$ 25,71 bilhões. O lucro ajustado por ação, no entanto, ficou em US$ 0,33, abaixo da projeção de US$ 0,51, frustrando investidores.
A receita cresceu 26% em relação ao mesmo período do ano passado, impulsionada principalmente pelo segmento automotivo, que faturou US$ 20,52 bilhões, alta de 23%. A área de energia gerou US$ 3,14 bilhões, avanço de 13%, enquanto o segmento de serviços e outros negócios cresceu 50%, para US$ 4,58 bilhões.
Aumento dos investimentos em capital pesa sobre a Tesla
O problema esteve na escalada dos custos. As despesas operacionais aumentaram 47% na comparação anual, ritmo superior ao crescimento da receita.
Ao mesmo tempo, os investimentos em capital (capex) dispararam 142%, para US$ 5,79 bilhões, refletindo a estratégia do CEO Elon Musk de acelerar os investimentos no serviço de robotáxis, ampliar a produção do Cybercab e adaptar fábricas para fabricar os robôs humanoides Optimus. Como consequência, o fluxo de caixa da empresa ficou negativo.Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities, foi justamente esse aumento dos investimentos que pesou sobre o resultado.
"Embora a receita tenha superado as expectativas, o lucro veio abaixo do esperado porque a Tesla acelerou fortemente seus investimentos. O crescimento de 142% no capex e a expansão das despesas operacionais explicam a deterioração do fluxo de caixa e ajudam a justificar a reação negativa do mercado às ações", afirma.
Na Alphabet, o desempenho operacional foi ainda mais forte. A empresa registrou receita de US$ 119,8 bilhões no trimestre, alta de 24% na comparação anual e acima dos US$ 117 bilhões esperados pelo mercado.
O Google Cloud foi um dos principais destaques, com crescimento de 82%, para US$ 24,77 bilhões, acima das estimativas dos analistas. A divisão de buscas também continuou resiliente, com receita de US$ 63,27 bilhões, alta de 17% em relação ao mesmo período do ano passado.
Além disso, o lucro líquido saltou 298%, para US$ 112,1 bilhões, impulsionado principalmente pelos ganhos contábeis com participações em empresas como Anthropic e SpaceX.
Na Alphabet, sobram dúvidas sobre o retorno financeiro
Ainda assim, o mercado voltou sua atenção para outro número, nesse caso, o forte aumento dos investimentos em inteligência artificial.Os gastos de capital da Alphabet somaram US$ 44,9 bilhões no segundo trimestre, praticamente o dobro do registrado um ano antes e acima das expectativas. A empresa também elevou pela segunda vez neste ano sua projeção de capex para 2026, passando de um intervalo entre US$ 180 bilhões e US$ 190 bilhões para uma faixa entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões.
Segundo a diretora financeira da companhia, Anat Ashkenazi, o aumento ocorre porque a demanda por infraestrutura para IA continua superior à capacidade disponível, exigindo investimentos mais acelerados em data centers e capacidade computacional.
Na avaliação do Itaú BBA, porém, os números reforçam a tese de crescimento da companhia. Os analistas destacam que o Google Cloud atravessa um momento de expansão excepcional, sustentado pelo crescimento de 82% da receita e por uma carteira de pedidos de US$ 514 bilhões.
Para o banco, embora o aumento do capex gere questionamentos sobre custos e margens no curto prazo, a empresa vem demonstrando capacidade de monetizar esses investimentos. "A empresa continua a demonstrar um caminho claro para a monetização. Os retornos permanecem altos, apesar de estarmos no início do ciclo de investimento (ROIC de 30%, com o ROIC marginal aumentando em relação ao ano anterior)", afirmou.
O BBA ressalta que a demanda por IA continua acima da oferta, evidenciada pelos 22 bilhões de tokens processados por minuto pelas APIs dos modelos da companhia, e afirma acreditar que a Alphabet está apenas no início de uma mudança estrutural impulsionada pela inteligência artificial.
Nem todos compartilham desse otimismo. Analistas ouvidos pela CNBC avaliam que ainda há dúvidas sobre a velocidade com que os elevados investimentos em inteligência artificial serão convertidos em retorno financeiro.
O chefe de pesquisa de tecnologia da gestora britânica Quilter Cheviot, Ben Barringer, cita o salto do capex, a perspectiva de margens mais pressionadas e atrasos no lançamento do Gemini 3.5 Pro como fatores que ainda impedem uma visão mais clara sobre o retorno desses investimentos.
Por outro lado, gestores como Alison Porter, da Janus Henderson, enxergam justamente os elevados investimentos como um sinal positivo para ociclo de expansão da IA.
"Acreditamos que esse cenário é muito promissor para o capex geral em IA e também para os retornos que essas plataformas estão obtendo com esses gastos. Este é um dos trimestres de maior crescimento de receita da Alphabet nos últimos cinco anos, e a empresa é um excelente termômetro para toda essa onda de IA", afirmou à CNBC.
Na Tesla, Elon Musk também defendeu a estratégia de acelerar os investimentos. "Este é um ano de investimentos em capital. Estou confiante de que tudo em que estamos investindo trará retornos incríveis. Na verdade, talvez os melhores retornos sobre investimentos em capital que já vimos", disse o executivo durante a teleconferência de resultados.
