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Exame INACS
29/05/2026
5 min

Usiminas toma liderança do Ibovespa no ano, mas não é unanimidade no mercado

Usiminas toma liderança do Ibovespa no ano, mas não é unanimidade no mercado

As ações da Usiminas (USIM5) acumulam alta nominal de quase 78,6% em 2026, ocupando com folga a primeira posição no ranking de desempenho do Ibovespa. A segunda colocada, a PRIO, sobe 60% no mesmo período. Boa parte desse movimento ganhou força após a divulgação dos resultados da siderúrgica no primeiro trimestre de 2026, em 24 de abril, e analistas de diversas casas revisaram estimativas para cima.

Por trás da recuperação da Usiminas há uma mudança estrutural no mercado brasileiro de aço plano. Entre o fim de 2025 e o início de 2026, o governo brasileiro implementou uma série de medidas antidumping voltadas principalmente às importações chinesas, com tarifas de até US$ 600 por tonelada para produtos como aço laminado a frio, galvanizado e pré-pintado.

O governo também elevou alíquotas de importação de 10,8% para 25% em uma série de outros produtos siderúrgicos. O resultado foi imediato: as importações de aço plano caíram 42% em abril, e a participação da China no mercado brasileiro recuou de 69% para 46%, aponta o Goldman Sachs.

O UBS BB calculou que o conjunto dessas medidas cobre cerca de 50% do total das importações brasileiras de aço e 80% das importações de planos, criando um déficit de oferta no mercado doméstico equivalente a retirar o volume de produção de uma Usiminas inteira. Países como Vietnã e Coreia do Sul, que também exportam para o Brasil não têm capacidade para repor esse volume.

O que vier de outros fornecedores asiáticos chegará com um ágio de US$ 100 a 200 por tonelada sobre os preços chineses. O banco estima que isso abre espaço para altas de 10% a 20% nos preços domésticos ao longo de 2026. O Goldman Sachs foi na mesma direção ao destacar que a Usiminas é a siderúrgica brasileira com maior alavancagem operacional ao preço do aço. A cada 1% de alta nos preços realizados, o EBITDA da empresa tende a crescer cerca de 8%, acima de concorrentes como CSN e Gerdau.

As casas que elevaram a visão sobre o papel

O resultado do primeiro trimestre foi o primeiro balanço a capturar, mesmo que parcialmente, os efeitos dessas medidas. O EBITDA ajustado superou em 27% a 31% as estimativas das principais casas. A margem operacional da divisão de aço saiu de 4,2% para 10%. O lucro líquido de R$ 896 milhões veio 166% acima do consenso e mais de cinco vezes o resultado do trimestre anterior.

De forma geral, os analistas foram surpreendidos por custos menores e volumes melhores do que o esperado na divisão de aço. Os preços realizados vieram acima das projeções, assim como o mix de vendas, com crescimento expressivo das vendas ao setor automotivo.

A valorização do real no período também ajudou a comprimir os custos de matérias-primas cotadas em dólar. O resultado financeiro positivo e o reconhecimento de créditos tributários completaram o quadro. Para o mercado, o trimestre representou a primeira evidência concreta de que a virada operacional da companhia havia começado de fato.

O Goldman Sachs elevou a recomendação de neutra para compra em maio, com preço-alvo de R$ 10,50. O UBS BB, que já cobria o papel com recomendação de compra, elevou seu alvo de R$ 9 para R$ 10,00 e sinalizou que as margens da divisão de aço podem chegar a 14% em 2027, contra cerca de 6% registrados em 2025.

O Itaú BBA, com Outperform e alvo de R$ 9, foi além ao sinalizar que os resultados do terceiro trimestre em diante podem surpreender ainda mais, à medida que novas rodadas de reajuste de preços forem capturadas pelo balanço. O BTG Pactual, mesmo mantendo recomendação neutra, revisou seu preço-alvo de R$ 7 para R$ 10, reconhecendo que os sinais de recuperação se tornaram mais concretos.

O lado do mercado que ainda não se convenceu

Apesar do entusiasmo, as casas que mantiveram recomendação neutra têm argumentos semelhantes

O BTG Pactual prefere a Ternium, controladora da Usiminas, por uma razão objetiva: as duas empresas estão em momentos opostos do ciclo de investimentos. Enquanto a Ternium está encerrando um programa pesado de capex e entrando na fase de geração de caixa, a Usiminas está prestes a iniciar um novo ciclo que pode superar US$ 1 bilhão, incluindo a troca da bateria de coque e a expansão da mineradora MUSA. Esse programa ainda não foi aprovado pelo conselho e não está refletido nas estimativas de consenso.

Os múltiplos atuais, conclui o BTG, podem parecer mais baratos do que de fato são quando esse investimento for incorporado. O banco não espera dividendos relevantes da Usiminas enquanto esse ciclo estiver em andamento.

O Santander e a Eleven Financial reconhecem a melhora operacional, mas avaliam que o ponto de entrada ficou pouco atrativo. Ambas mantêm preços-alvo em torno de R$ 6,70 a R$ 6,80, bem abaixo da cotação atual, que já superou R$ 10. Para essas casas, os catalisadores visíveis estão em boa medida precificados.

Riscos como uma eventual retomada das exportações chinesas, pressão de custos acima do esperado ou fraqueza na divisão de mineração poderiam comprometer a trajetória de recuperação de margens que o mercado passou a antecipar.

De maneira geral, o mercado aguarda os próximos trimestres para confirmar se a virada do no primeiro foi estrutural ou apenas favorecida por um momento pontual de custos baixos e câmbio favorável.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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