Vale a pena comprar dólar agora? Entenda por que a moeda voltou a subir
Moeda avança pelo segundo dia seguido e retorna ao patamar de R$ 5,12; queda do petróleo e temores de inflação nos EUA explicam o movimento

O dólar sobe pelo segundo dia seguido nesta terça-feira, 28, e volta ao patamar de R$ 5,12, nível que não era registrado havia quase duas semanas. A valorização da moeda americana ocorre mesmo com a bolsa de valores brasileira operando em alta.
Nos últimos dias, a divisa passou a acompanhar a trajetória do petróleo, que recuou depois da interrupção dos ataques entre Estados Unidos e Irã no Estreito de Ormuz. O barril do Brent, referência para a Petrobras, chegou a tocar US$ 100 na semana passada e agora é negociado ao redor de US$ 87. Para o Brasil, grande exportador da commodity, o recuo tem efeito direto sobre o fluxo de moeda estrangeira.
Por que o petróleo mais barato impulsiona o dólar
Segundo André Galhardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica, a queda do barril é o primeiro dos dois fatores mais evidentes por trás da alta da moeda.
"Se o petróleo está mais barato, a gente tem menos dólar ingressando no Brasil, seja pelas exportações de petróleo bruto, seja pelo ingresso de dólares em companhias que exploram petróleo, como a Petrobras", afirma o economista. Ele lembra que o Brasil é grande exportador da commodity, com volume 30% maior no primeiro semestre deste ano na comparação com o mesmo período de 2025.
Os dados do balanço de pagamentos divulgados pelo Banco Central nesta manhã mostraram déficit em transações correntes comportado e investimento direto no país acima de US$ 9 bilhões, muito acima das projeções do mercado, que apontavam no máximo US$ 7,2 bilhões. "O Brasil continua recebendo bastante dólar, mas em termos relativos o ingresso é menor, e isso acaba trazendo algum impacto no mercado cambial", explica.
A leitura é compartilhada por Márcio Estrela, consultor em regulação cambial e financeira na Starnet Estrela. "O petróleo é um dos principais, senão o principal, item de exportação do Brasil. Quando cai o preço internacional do petróleo, significa que a receita em dólar do Brasil diminui. Essa é a principal explicação", diz.
Os temores de inflação nos Estados Unidos
O segundo fator apontado por Galhardo está no exterior. Apesar do recuo recente, o petróleo ainda opera em patamar bem mais alto do que há 15 dias, o que renova os temores de um processo inflacionário mais duradouro nos Estados Unidos. A inflação americana caiu com força em junho, mas segue elevada, em 3,5%, ante meta de 2%.
"Esse petróleo mais resiliente, apesar dessa queda recente, renova os temores de inflação nos Estados Unidos, o que pode acabar aumentando as apostas de que o Fed terá que fazer um aumento de juros na reunião marcada para setembro", avalia o economista. Juros mais altos nos Estados Unidos tendem a atrair capital para a moeda americana e a pressionar o real, movimento que já vinha sendo observado desde a chegada de Kevin Warsh à presidência do Federal Reserve, como a EXAME mostrou em junho.
O Fed se reúne nesta quarta-feira, 29, e a expectativa majoritária é de manutenção da taxa, hoje na faixa de 3,50% a 3,75%. Galhardo espera um comunicado enxuto, sem grandes sinalizações. "O que se espera é a manutenção, mas um aumento de juros na reunião marcada para setembro não está totalmente descartado", diz. No Brasil, o Copom cortou a Selic para 14,25% em junho e volta a se reunir no início de agosto.
Os efeitos que atenuam a alta
Estrela pondera que a própria queda do petróleo tem efeitos mitigadores no câmbio. O Brasil é um dos maiores importadores mundiais de fertilizantes, e a redução de preços diminui as despesas de importação. Além disso, o barril mais barato tende a aliviar pressões inflacionárias domésticas, o que, em tese, melhoraria as perspectivas para o real. "Mas a desvalorização do câmbio anula esse efeito positivo", observa o consultor.
"Tem algumas análises que falam que a desvalorização do real compensaria a redução da receita em real das empresas, mas não acredito que seja um movimento nessa linha, porque os maiores exportadores precisam da receita em dólar", afirma.
O que esperar nas próximas semanas
Para Elson Gusmão, diretor de câmbio da Ourominas, o real deve seguir volátil no curto prazo, atento a três frentes: o Fed, o Copom e o tarifaço americano. "Nas próximas semanas, o câmbio deve permanecer volátil, acompanhando o Fed, o Copom e o tarifaço. Se as tarifas reduzirem exportações brasileiras ou ampliarem a tensão comercial, o dólar poderá ganhar força mesmo com a inflação doméstica mais baixa", afirma.
A referência é à tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, resultado da investigação aberta com base na Seção 301 da lei comercial americana.
