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InvestMinhas FinançasBDR
04/09/2026
8 min

Vale a pena ser Uber Moto? Estudo mostra quando a conta fecha

Levantamento da GigU mostra diferença de rentabilidade no serviço com com moto própria, financiamento ou aluguel

Vale a pena ser Uber Moto? Estudo mostra quando a conta fecha

Para a Uber, o Uber Moto pode até não dar lucro. Mas para quem está na outra ponta da operação, a conta pode ser bem diferente. Em alguns cenários, a motocicleta aparece como uma alternativa competitiva para gerar renda por meio dos aplicativos.

Um levantamento da GigU, startup de apoio amotoristas e entregadores de plataformas como Uber e 99, compartilhado com a EXAME, mostra que um motociclista de aplicativo no Brasil tem faturamento mediano de R$ 4.330 por mês, num regime de 7 horas diárias (208 horas mensais). Depois de descontar combustível, parcela ou aluguel da moto, manutenção, seguro e Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), sobram R$ 2.310 de lucro líquido mensal.

O valor equivale a uma margem de 53% sobre o faturamento. Na prática, a cada R$ 100 que entram no caixa, R$ 53 ficam com o trabalhador depois dos custos considerados pelo estudo.

A média nacional não torna mais fácil a resposta para a pergunta se "vale a pena ser Uber Moto?", já que o estudo leva em conta o trabalho de motociclistas de aplicativos como um todo, e não apenas os trabalhadores da Uber Moto. Além disso, a GiGU também mostra que a rentabilidade muda de acordo com a cidade, a categoria de atuação e, principalmente, com a situação da motocicleta.

A pesquisa considera 76.174 motociclistas de aplicativo no Brasil, dentro de uma base total de 323.746 trabalhadores de aplicativos. Os dados foram coletados entre fevereiro e setembro deste ano a partir da ferramenta Lucro Líquido, da GigU, na qual os próprios trabalhadores declaram seus custos e jornadas. Os valores apresentados são medianas das simulações mais recentes de cada usuário.

São Paulo e Rio melhoram a conta

Em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, a fotografia é mais favorável do que a mediana nacional. Na Grande São Paulo, o faturamento mediano chega a R$ 5.196 por mês, enquanto os custos ficam em R$ 1.979. O resultado é um lucro líquido de R$ 3.217, com margem de 62%.

na Grande Rio, o faturamento também é de R$ 5.196. O estudo observa, porém, que os custos são maiores, de R$ 2.170, o lucro líquido fica em R$ 3.027, com margem de 58%.

Ainda assim, nos dois casos, o lucro mensal fica cerca de 40% acima da mediana nacional.

A jornada, no entanto, permanece praticamente a mesma. São 208 horas por mês nas duas regiões, ante 207,8 horas na base nacional. Com isso, o lucro por hora chega a R$ 15,48 na Grande São Paulo e a R$ 14,56 na Grande Rio, contra R$ 11,11 no Brasil.

A diferença também aparece no chamado ponto de equilíbrio, ou breakeven, no jargão do mundo de negócios, que indica o número de horas trabalhadas necessárias apenas para pagar os custos da atividade. No Brasil, são necessárias 97 horas de trabalho para cobrir as despesas da motocicleta. Na Grande São Paulo, 79 horas. No Grande Rio, 87 horas.

Isso significa que no cenário nacional, quase metade da jornada mensal do motociclista é consumida apenas pelos custos. Só depois disso começa, de fato, a geração de renda para o trabalhador.

Moto x carro: quem deixa mais dinheiro?

A motocicleta também leva vantagem em eficiência de custos quando comparada ao carro. Segundo a GigU, o trabalhador que usa carro para aplicativos tem faturamento mediano de R$ 7.145 por mês e custos de R$ 4.489. O lucro líquido fica em R$ 2.656. No caso da moto, o faturamento é bem menor, de R$ 4.330, mas os custos também caem de forma significativa, para R$ 2.020. O lucro líquido chega a R$ 2.310.

Assim, o carro gera R$ 346 a mais de lucro no mês, mas exige praticamente a mesma jornada; São 216,5 horas mensais, contra 207,8 horas da moto.

Quando a comparação é feita por hora trabalhada, a diferença praticamente desaparece. O carro gera R$ 12,27 de lucro por hora, enquanto a moto fica em R$ 11,11. A principal vantagem da motocicleta aparece na margem. Segundo o levantamento, 53% do faturamento vira lucro líquido, contra 37% no carro.

O ponto de equilíbrio também é menor para a moto. Um motociclista precisa trabalhar 97 horas para cobrir seus custos, enquanto o motorista de carro precisa de 136 horas.

O que dá mais dinheiro: entrega ou passageiro?

A GiGU também comparou as atividades feitas com a motocicleta. Entre os trabalhadores que declararam a categoria em que atuam, a GigU separou "moto entregas" e moto para transporte de passageiros". A amostra tem 46.553 declarantes em entregas e 1.091 em transporte de passageiros.

O motociclista que trabalha com entregas tem faturamento mediano de R$ 4.330 por mês, custos de R$ 1.965 e lucro líquido de R$ 2.365. O lucro por hora é de R$ 11,38.

O resultado é praticamente equivalente ao da categoria Uber X na base analisada. Os trabalhadores de Uber X têm lucro líquido mediano de R$ 2.352 e lucro por hora de R$ 11,32.

A diferença é que a moto exige uma estrutura de custos muito menor. O trabalhador de Uber X tem custos de R$ 4.143 por mês, contra R$ 1.965 para o motociclista de entregas. Além disso, o ponto de equilíbrio chega depois para o motorista de carro: 133 horas, ante 94 horaspara quem trabalha com entregas de moto.

Já o transporte de passageiros por motocicleta apresenta um resultado ainda mais forte. Na amostra da GigU, o motociclista que leva passageiros tem faturamento mediano de R$ 6.062, custos de R$ 2.110 e lucro líquido de R$ 3.952. O lucro por hora chega a R$ 18,25, o maior entre todas as categorias analisadas.

O número, contudo, deve ser interpretado com cautela, porque a amostra é pequena, de menos de 2 mil motociclistas. Além disso, quem exerce entrega e transporte de passageiros precisa escolher apenas uma categoria na ferramenta. Por isso, a própria GigU considera esse número um piso do segmento.

Há ainda uma particularidade importante para quem pensa especificamente no Uber Moto em São Paulo, uma vez que a modalidade não está operando na capital paulista. Desde 24 de julho, o Tribunal de Justiça de São Paulo acolheu recurso da Prefeitura e suspendeu a decisão que determinava o credenciamento imediato da Uber para o transporte remunerado de passageiros por motocicleta na cidade.

A moto é própria, financiada ou alugada?

Outro fator que muda a resposta sobre se vale a pena trabalhar com a moto em plataformas de aplicativos é de quem é o veículo. Quem tem uma motocicleta própria e quitada apresenta o melhor resultado por hora entre os três cenários analisados.

O faturamento mediano é de R$ 4.330 por mês, enquanto os custos ficam em R$ 1.171. O lucro líquido chega a R$ 3.159, com margem de 73%. A jornada também é menor, de 182 horas mensais. O resultado é um lucro de R$ 17,37 por hora, e o trabalhador precisa de apenas 49 horas para atingir o ponto de equilíbrio.

No caso da moto financiada, a situação muda. O faturamento permanece em R$ 4.330, mas os custos sobem para R$ 1.990. O lucro líquido cai para R$ 2.340, com lucro por hora de R$ 11,26.

A GigU aponta que a parcela mediana do financiamento é de R$ 800. Segundo o estudo, ela reduz a margem em 19 pontos porcentuais e praticamente dobra o número de horas necessárias para cobrir os custos em comparação com uma moto quitada.

Já quem aluga uma motocicleta tem o maior faturamento entre os três grupos, de R$ 5.413 por mês. Depois de custos de R$ 1.971, o lucro líquido chega a R$ 3.442. Mas existe uma contrapartida, segundo o levantamento. A jornada sobe para 242 horas mensais, 60 horas a mais do que a de quem tem uma moto própria. Por hora trabalhada, o aluguel fica atrás da moto quitada: R$ 14,19 contra R$ 17,37.

"Uber Moto não dá lucro para a empresa", diz presidente da Uber

Em entrevista ao programa e Frente com CEO, da EXAME, Silvia Penna, presidente da Uber no Brasil, afirmou que a modalidade não gera lucro para a companhia. Ainda assim, a empresa pretende continuar investindo no produto.

"Uber Moto não é um produto em que a gente ganha dinheiro. A gente investe nele para mobilidade urbana", afirmou.

A lógica, segundo Penna, não está necessariamente no ganho obtido em cada viagem de moto, mas na possibilidade de colocar o usuário dentro do ecossistema da plataforma e fazê-lo utilizar outros serviços. "Esse usuário tem várias ocasiões de uso. Então, ele começa usando o Moto, e depois pode usar outros produtos", disse.

Para a executiva, o preço mais baixo também torna a modalidade uma espécie de complemento ao transporte público. Segundo ela, mais de 60% das viagens de Uber Moto estão associadas a centros de transporte público, funcionando como conexão para o primeiro ou o último trecho do deslocamento.

Essa estratégia explica por que a Uber continua apostando na modalidade mesmo sem obter lucro diretamente com ela. Para o trabalhador, entretanto, a lógica é outra: o que importa é quanto sobra depois de pagar a moto e os demais custos.

AutorClara Assunção
FonteExame
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