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InvestMercadosACS
10/07/2026
6 min

Vale cai mais de 6% em julho: por que as ações estão sob pressão?

Vale cai mais de 6% em julho: por que as ações estão sob pressão?

As ações da Vale (VALE3) atravessam um período de forte pressão no Ibovespa, acumulando queda de 6,07% em julho até o fechamento desta quinta-feira, 9, após já terem recuado 5,96% em junho. Embora os papéis tenham interrompido a sequência negativa e encerrado o último pregão em alta de 0,62%, a R$ 73,15, o desempenho recente segue refletindo uma combinação de fatores que aumentou a cautela dos investidores.

A pressão sobre as ações se intensificou nesta semana. Depois de cair 1,33% na segunda, 6, e 2,04% no dia seguinte, 7, a Vale registrou uma forte baixa de 4,59% na quarta-feira, 8, fechando a R$ 72,70. Foi a maior queda diária dos papéis desde 8 de abril de 2025, quando haviam recuado 5,48% para R$ 49,20, o menor patamar desde 19 de novembro de 2021.

A forte desvalorização ocorreu em meio a uma sucessão de acontecimentos envolvendo a mineradora, incluindo um corte de recomendação pelo Morgan Stanley, mudanças na governança corporativa, o escrutínio da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre a saída do presidente do conselho e, mais recentemente, a renovação de um contrato bilionário de transporte ferroviário com a MRS Logística.

Corte do Morgan Stanley pressionou ações

Mas o principal gatilho para a queda de quarta-feira foi a revisão das projeções do Morgan Stanley para a Vale. O banco reduziu suas estimativas para a companhia diante de uma perspectiva mais desafiadora para o mercado global de minério de ferro.

Segundo os analistas do banco americano, a produção mundial de aço, especialmente na China, ficou abaixo das projeções anteriores, aumentando a expectativa de excedente da commodity no mercado internacional e pressionando os preços nos próximos anos.

Com isso, o minério de ferro passou a ser considerado a commodity menos preferida pela equipe de análise da instituição entre as cobertas pelo relatório. O Morgan Stanley também elevou suas projeções para os custos operacionais da Vale, estimando um custo caixa (C1) de US$ 23 por tonelada em 2026, acima da faixa de guidance da companhia, de US$ 20 a US$ 21,5 por tonelada.

As revisões levaram o banco a reduzir suas projeções para Ebitda e lucro por ação da mineradora. Apesar dereconhecer avanços na divisão de Metais Básicos, a instituição avalia que essa melhora já está amplamente incorporada ao preço dos papéis. O novo preço-alvo foi fixado em US$ 16,50 por ADR, equivalente a um potencial de valorização de aproximadamente 11%.

Além da revisão do Morgan Stanley, investidores acompanharam uma série de acontecimentos relacionados à governança da companhia.

Mudanças na governança aumentaram atenção do mercado

Na noite de segunda, 6, a Vale informou, por meio de fato relevante,a renúncia imediata de Daniel Stieler aos cargos de membro e presidente do Conselho de Administração.

A empresa afirmou que a decisão foi pessoal e agradeceu ao executivo pela atuação desde 2021, destacando sua contribuição para o fortalecimento da governança e para as decisões estratégicas da companhia. A saída também levou à retirada de um dos itens da pauta da Assembleia Geral Extraordinária marcada para 22 de julho.

Dois dias depois, porém, aComissão de Valores Mobiliários (CVM) instaurou um processo administrativo para apurar informações divulgadas pelo Valor Econômico de que a saída de Stieler teria sido acompanhada por um acerto financeiro.

Em resposta ao regulador, a Vale afirmou que não houve acordo, entendimento ou indenização que condicionasse a renúncia do executivo. A companhia, porém, reconheceu que firmou um contrato de confidencialidade e não concorrência por 24 meses com o ex-presidente do conselho, prevendo uma remuneração específica por essas obrigações.

Segundo a mineradora, o pagamento não representa uma indenização por desligamento, mas uma contraprestação pelas cláusulas de confidencialidade e não concorrência. A empresa afirmou ainda que não considerou o contrato um fato relevante por entender que seus termos não influenciam de forma material as decisões de investimento nem o preço de negociação de seus valores mobiliários.

O caso ganhou repercussão após um acionista minoritário solicitar que a CVM investigasse as circunstâncias da saída de Stieler. Os acionistas deverão eleger um novo presidente do Conselho de Administração em 22 de julho.

Vale renova contrato bilionário com a MRS

Nesta quinta-feira (9), outro anúncio envolvendo a companhia chamou a atenção do mercado. A Vale informou a renovação de seu contrato de transporte ferroviário com a MRS Logística, em uma operação estimada em R$ 51,3 bilhões e com vigência de 15 anos, entre dezembro de 2026 e dezembro de 2041.

O contrato prevê o transporte de minério de ferro, pelotas e derivados entre terminais em Minas Gerais e portos no Rio de Janeiro. Considerando os programas anuais de transporte e as flexibilidades negociadas entre as partes, o valor estimado do acordo é de aproximadamente R$ 43,5 bilhões.

O novo contrato substitui o atual, que vence em novembro de 2026, e mantém a cláusula de "take or pay", pela qual a Vale garante à MRS um pagamento mínimo equivalente a 85% da receita orçada para cada ano. O acordo também amplia a flexibilidade para volumes transportados, reduzindo o risco de pagamentos mínimos em cenários de menor produção.

BTG vê ação descontada e mantém recomendação de compra

Apesar da sequência de notícias e da pressão recente sobre as ações, o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) avalia que o movimento ampliou o desconto dos papéis.

Em relatório divulgado nesta quinta, o banco afirmou que a Vale continua sendo negociada a aproximadamente 4,2 a 4,3 vezes o EV/Ebitda projetado para 2026, um desconto de 25% a 30% em relação às grandes mineradoras australianas.

Pelos cálculos dos analistas, a companhia ainda pode gerar um yield de fluxo de caixa livre próximo de 9%, patamar considerado atrativo.

"Reconhecemos que algumas premissas operacionais importantes se deterioraram nos últimos meses, especialmente os maiores custos caixa C1 do minério de ferro, refletindo uma combinação de fatores operacionais temporários e inflação de custos", pondera o banco.

"Ainda assim, as revisões em nossas estimativas de resultados permanecem relativamente limitadas, uma vez que os preços do minério de ferro, cobre e níquel continuam amplamente alinhados às nossas projeções de alguns meses atrás", acrescentou o BTG. O banco manteve recomendação de compra para a Vale e reiterou o preço-alvo de R$ 90 para as ações.

AutorClara Assunção
FonteExame
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