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InvestMercadosBDR
17/08/2026
6 min

Vale do Silício é credor: Google, Microsoft e Facebook têm milhões a receber da Casas Bahia

Gigantes de tecnologia têm milhões a receber da varejista, que tenta reestruturar R$ 17,3 bilhões em dívidas em recuperação judicial

Vale do Silício é credor: Google, Microsoft e Facebook têm milhões a receber da Casas Bahia

A crise financeira da Casas Bahia chegou também às gigantes de tecnologia. Google, Microsoft e Facebook estão entre as empresas que aparecem na lista de credores apresentada pela varejista à Justiça de São Paulo nesta segunda-feira, 17, com créditos que, somados, chegam a mais de R$ 103 milhões. Os valores estão sujeitos à recuperação judicial e foram classificados como créditos quirografários, sem garantias reais.

O Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial para reorganizar R$ 17,322 bilhões em créditos sujeitos ao processo. Na petição inicial, a companhia classificou a situação como a“pior crise financeira desde a sua fundação” e afirmou que precisa da proteção judicial para preservar a operação, o abastecimento das lojas e o pagamento ordenado de suas obrigações.

No caso das empresas de tecnologia, os créditos aparecem na relação como “operações com fornecedor”. A classificação inclui serviços como publicidade, infraestrutura de nuvem e licenciamento de software.

Por serem quirografários, esses valores ficam sujeitos às condições, prazos e eventuais descontos que forem estabelecidos no plano de recuperação judicial.

O Google aparece com créditos de mais de R$ 61,6 milhões. A maior parcela está registrada em nome da Google Brasil Internet Ltda., com cerca de R$ 52,3 milhões. Há ainda R$ 9,3 milhões atribuídos à Google Cloud Brasil Computação e Serviços de Dados Ltda. e um crédito de R$ 3,5 mil relacionado à Integra Soluções para Varejo Digital.

A Microsoft, por sua vez, possui mais de R$ 36 milhões a receber. A Microsoft do Brasil Importação e Comércio de Software e Vídeo Games Ltda. aparece com aproximadamente R$ 31,7 milhões, enquanto a Microsoft Informática Ltda. tem outros R$ 4,65 milhões.

Já a Facebook Serviços Online do Brasil Ltda., empresa ligada à Meta, aparece com um crédito de R$ 5,11 milhões.

Os documentos também mostram que a exposição da Casas Bahia às empresas de tecnologia vai além das três gigantes. A Apple Computer Brasil tem R$ 182,97 milhões a receber, um dos maiores créditos do setor e superior aos valores registrados individualmente para Google, Microsoft e Facebook. A SAP Brasil aparece com R$ 10,84 milhões, enquanto a Oracle do Brasil tem R$ 3,22 milhões.

A Amazon AWS Serviços Brasil também consta na relação, mas com um valor de R$ 51,7 mil.

Techs são uma pequena parte de uma dívida muito maior

Apesar dos valores milionários das empresas de tecnologia, a lista de credores revela que a maior pressão sobre a Casas Bahia vem de uma combinação de bancos, fundos, seguradoras e, principalmente, fornecedores de produtos.

Considerando os 19 maiores nomes identificados na relação, os créditos somam aproximadamente R$ 11,96 bilhões, o equivalente a cerca de 69% dos R$ 17,32 bilhões sujeitos à recuperação judicial.

AZurich Minas Brasil Seguros aparece no topo, com R$ 1,98 bilhão a receber, seguida pelo IBCB-AF01 FIDC, com R$ 1,09 bilhão, e pela Samsung Eletrônica da Amazônia, com R$ 937,6 milhões.

Entre os demais grandes credores estão Whirlpool, com cerca de R$ 800,9 milhões; Electrolux, com R$ 700,1 milhões; TCL Semp, com aproximadamente R$ 633,4 milhões; LG Electronics, com R$ 623,7 milhões; Motorola Mobility, com R$ 619 milhões; e Banco do Brasil, com R$ 598,1 milhões.

A concentração entre fabricantes de eletroeletrônicos ajuda a dimensionar o risco operacional da recuperação. A Casas Bahia depende desses fornecedores para manter o estoque e, consequentemente, as vendas. Na petição inicial, a companhia argumenta que uma interrupção no abastecimento poderia comprometer diretamente sua capacidade de gerar caixa.

“Sem as mercadorias, não há vendas; sem vendas, não há incremento do fluxo de caixa”, afirma a companhia no documento apresentado à Justiça.

Por isso, a Casas Bahia pediu que fornecedores mantenham a entrega de produtos já comprados e em trânsito, mesmo após o pedido de recuperação judicial. A empresa também tenta impedir a retenção de estoques oferecidos como garantia, argumentando que as mercadorias são essenciais para o funcionamento das lojas físicas e dos canais digitais.

Bancos e fundos também têm exposição bilionária

A relação de credores mostra ainda uma forte concentração no sistema financeiro. O endividamento bancário totaliza R$ 7,034 bilhões, enquanto existem outros R$ 2,016 bilhões emobrigações relacionadas a cotas seniores de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).

O Banco Digio aparece com cerca de R$ 2,99 bilhões, embora apenas R$ 655,6 milhões estejam sujeitos à recuperação judicial. Os outros R$ 2,34 bilhões são classificados como extraconcursais.

O Bradesco aparece diretamente com cerca de R$ 1,01 bilhão e, considerando também os créditos atribuídos ao Digio, a exposição do grupo chega a aproximadamente R$ 4,78 bilhões. No caso do Bradesco, a maior parte do valor também é classificada como extraconcursal.

Isso significa que nem todo o passivo listado pela Casas Bahia estará necessariamente submetido às mesmas condições do plano. Créditos extraconcursais não integram a recuperação judicial e, dependendo de sua natureza e das garantias envolvidas, podem ter condições de cobrança diferentes das aplicadas aos créditos sujeitos ao processo.

Entre os demais credores financeiros estão o Banco do Brasil, com R$ 598,1 milhões; Oliveira Trust DTVM, com cerca de R$ 568,2 milhões considerando diferentes emissões; Redasset Gestão de Recursos, com aproximadamente R$ 337 milhões; CBSB FIDC, com R$ 233,9 milhões; e Itaú Unibanco, com R$ 208,3 milhões.

A petição afirma que contratos financeiros e comerciais que somam mais de R$ 10 bilhões contêm cláusulas de vencimento antecipado em determinadas situações, incluindo eventos relacionados à recuperação judicial. Evitar uma corrida de credores para exigir o pagamento imediato das dívidas está entre as razões apontadas pela companhia para pedir proteção urgente à Justiça.

Pedido de RJ ainda precisa ser aprovado pela Justiça

A recuperação judicial ainda depende da análise da Justiça. Se o pedido for aceito, a companhia deverá apresentar um plano aos credores dentro dos prazos previstos na legislação.

A Casas Bahia afirma que o objetivo é preservar mais de 20 mil empregos diretos, manter a operação e criar condições para uma retomada sustentável. O grupo possui mais de 700 lojas físicas em 21 estados e no Distrito Federal e atende, segundo os documentos, mais de 105 milhões de consumidores.

AutorClara Assunção
FonteExame
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