Vale investir na Bolsa depois da ‘segunda-feira sangrenta’? Estrategista da Monte Bravo diz quais setores olhar, mas tem um ativo preferido
Veja que setores e ativos se destacam após a queda drástica do Ibovespa logo após o segundo turno das eleições

Se, em Game of Thrones, o "Casamento Vermelho" mostrou que nem todo banquete termina em festa, a Bolsa resolveu lembrar, em uma segunda-feira sangrenta, que nem todo pregão termina em celebração. Em meio ao caos, fica a dúvida no colo do investidor: em quais ações vale ficar de olho na renda variável brasileira?
Na segunda-feira (26), a B3 precisou acionar o circuit breaker para conter uma queda de mais de 10% do principal índice da bolsa brasileira. O Ibovespa terminou o dia com um tombo de 13,88%, a maior queda desde março de 2020, na esteira da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Na avaliação do estrategista-chefe da Monte Bravo, Raí Chicoli, vale a pena acompanhar alguns papéis da Bolsa, entre eles os de bancos, que apresentam mais resiliência e resultados fortes de forma recorrente, apesar da sangria observada nas ações do setor na véspera.
Ativos ligados a commodities também tendem a ser uma boa opção, segundo Chicoli, considerando a recente depreciação cambial.
De acordo com o estrategista, a corretora prefere olhar para as empresas exportadoras no geral do que para um único nome do setor. Ainda assim, entre os ativos recomendados aparecem a Suzano (SUZB3) e a Vale (VALE3).
"A parte de câmbio apanhou menos, está apresentando certa recuperação hoje, na faixa dos R$ 5,35, não muito diferente do intervalo em que estávamos no pré-eleição", afirma Chicoli.
"O câmbio parece não estar ainda com uma precificação de cenário tão negativo, uma vez que depende de fatores externos. Também estamos em um contexto de soft landing [pouso suave] da economia", acrescenta.
Pior do Ibovespa parece ter passado
O pior momento do Ibovespa (IBOV) parece ter passado — pelo menos por enquanto. No entanto, Chicoli considera difícil falar em estabilidade de preços, visto que ainda há diversas questões relevantes a serem definidas nos próximos dias.
"Há muita incerteza sobre os próximos passos do governo. Enquanto questões sobre como será o ajuste fiscal e quem será o próximo ministro da Fazenda não forem sanadas, é difícil falar em alguma estabilidade de preços", afirma Chicoli, reforçando que é preciso ter cautela com os nomes circulando na mídia para a pasta.
Entre as opções citadas pela imprensa estão o vice-presidente Geraldo Alckmin; o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo; o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles; e a possível permanência de Dario Durigan.
Ajuste fiscal pelas despesas
De acordo com Chicoli, a expectativa é de que seja encaminhada alguma proposta de ajuste fiscal pelo governo. Contudo, ainda é difícil visualizar uma proposta robusta, algo que pode ou não ser fortalecido a depender do indicado para a Fazenda.
"Não há mais muito ajuste para ser feito do ponto de vista de arrecadação. Precisamos fazer um ajuste via despesas, e corte de gastos é algo politicamente difícil no Brasil — tanto pensando em governos de esquerda quanto de direita", afirma o estrategista-chefe da Monte Bravo.
Para ele, a proposta deveria ter algo como um teto de gastos — que não é provável que seja implementado pelo PT —, com um limite para o crescimento real das despesas perto de 1%.
Além disso, deveria incluir as despesas que ficam hoje de fora do arcabouço fiscal para ter um "superávit verdadeiro"e contribuir na execução de um ajuste fiscal significativo.
Pontos como o avanço dos gastos com Previdência, o crescimento da máquina pública e o reajuste de benefícios sociais devem seguir no radar dos investidores, segundo Chicoli.
"A dúvida é se o governo seguirá por um caminho de reajuste consistente ou não", diz.
Tesouro IPCA+ é uma aposta para o atual momento
A carteira de alocação da Monte Bravo hoje é baixa em Bolsa, segundo Chicoli, com as atuais apostas para o momento sendo as companhias exportadoras, com a receita em dólar, e também os bancos, devido à recorrência de resultados fortes.
Ao olhar para o mercado de títulos, porém, a corretora vê um nome atrativo: a Nota do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B) de mais longo prazo, pagando um juro real mais alto. No Tesouro Direto, o título é negociado como Tesouro IPCA+.
"Caso o governo venha endereçar a questão fiscal, temos um fechamento de taxa que pode ser significativo. E, se o governo não encaminhar o fiscal, uma das formas que isso acaba se espalhando na economia é via inflação", afirma Chicoli.
"Então, é um ativo que protege o investidor de um cenário inflacionário. Gostamos mais de NTN-Bs nesse cenário", complementa.
Por ora, a avaliação do estrategista-chefe da Monte Bravo é de dificuldade para montar alguma posição na Bolsa, devido à falta de definição de temas importantes.
