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03/06/2026
8 min

Vale (VALE3) aposta em virada estratégica para destravar valor — mas emite sinal amarelo para o 2T26

Vale (VALE3) aposta em virada estratégica para destravar valor — mas emite sinal amarelo para o 2T26

A Vale (VALE3) segue confiante nos fundamentos do mercado global de minério de ferro, apesar das preocupações do mercado com a desaceleração da economia chinesa e a entrada de novos projetos de mineração nos próximos anos.

Em encontros com analistas do Citi e do Itaú BBA nesta semana, o vice-presidente executivo comercial e de desenvolvimento da companhia, Rogério Nogueira, reforçou a avaliação de que o mercado permanece saudável, com preços sustentados por uma combinação de demanda resiliente e custos elevados para parte relevante da oferta global.

Segundo a mineradora, a China continua sendo o principal pilar de sustentação do mercado. A utilização dos altos-fornos do país segue próxima de 90%, enquanto a produção de ferro-gusa permanece mais forte do que a produção de aço.

Embora o setor imobiliário continue pressionado, a demanda vem sendo sustentada pelos investimentos em infraestrutura e pela atividade manufatureira.

A companhia também destacou que os estoques de minério de ferro na China voltaram a cair após um período de acúmulo, enquanto os estoques dos produtos da própria Vale permanecem relativamente baixos.

Fora da China, a mineradora vê sinais de recuperação na Europa, impulsionados por medidas de proteção comercial e por uma visão estratégica de fortalecimento industrial.

Os Estados Unidos seguem apresentando demanda consistente, enquanto Índia e Sudeste Asiático continuam registrando crescimento. Japão, Coreia do Sul e Oriente Médio aparecem como os mercados mais fracos neste momento.

Curva de custos continua sustentando o minério

Um dos principais argumentos da Vale para justificar sua visão positiva para o minério de ferro está na curva global de custos da indústria.

A empresa estima que mais de 50 milhões de toneladas anuais de capacidade global operariam com prejuízo caso os preços do minério recuassem para níveis inferiores a US$ 100 por tonelada.

Segundo a administração, a estrutura de custos do setor mudou significativamente nos últimos anos em função da alta dos fretes marítimos, dos combustíveis utilizados no transporte e de fatores cambiais.

Como exemplo, a Vale destacou que mineradoras independentes brasileiras enfrentam custos logísticos próximos de US$ 65 por tonelada. Desse total, cerca de US$ 35 correspondem ao transporte marítimo spot (à vista), US$ 20 ao frete e outros US$ 10 às despesas portuárias.

Além disso, muitas dessas empresas recebem preços inferiores aos índices de referência devido à qualidade do minério e à umidade da carga. Em alguns casos, a margem líquida remanescente fica próxima de US$ 5 por tonelada, valor que ainda precisa cobrir custos operacionais, despesas fixas e royalties.

A Vale quer ser reconhecida pela flexibilidade

As discussões com investidores mostraram uma mudança importante na estratégia da mineradora.

Historicamente associada à produção de minério de alto teor, a Vale agora busca maximizar valor por meio da flexibilidade de seu portfólio e da capacidade de desenvolver blends específicos para diferentes mercados.

Nesse contexto, o SSCJ, minério de médio teor produzido em Carajás, passou a ocupar papel central na estratégia comercial da companhia.

Segundo a administração, o modelo anterior de maximização do teor de ferro frequentemente levava ao descarte de minério de boa qualidade sem que houvesse remuneração adequada por isso.

 A nova abordagem permite ampliar a produção, preservar rentabilidade e atender melhor às necessidades dos clientes.

A companhia também vem utilizando materiais com maior teor de sílica provenientes do Sistema Sudeste para operações de mistura e concentração. Com isso, reduz a oferta de minérios corretivos disponíveis no mercado e aumenta o valor desses produtos.

Os resultados já começam a aparecer. A Vale destacou que o prêmio de baixa alumina da Metal Bulletin saiu de níveis negativos no início de 2025 para aproximadamente US$ 5,70 por tonelada atualmente.

Segundo Rogério Nogueira, a mudança para o SSCJ tem permitido à companhia alcançar realizações de preços superiores aos benchmarks de mercado, enquanto concorrentes australianas possuem menor flexibilidade para alterar especificações e seguem mais focadas na redução de custos.

Simandou pode aumentar a demanda por minério brasileiro

Outro tema relevante das conversas com investidores foi o projeto de Simandou, na Guiné, considerado uma das maiores novas fronteiras de minério de ferro do mundo.

Embora o minério da região apresente elevada qualidade, a Vale avalia que ele possui características que exigem correções para determinados processos industriais.

Segundo a companhia, o material produzido em Simandou apresenta alto teor de alumina e baixo teor de sílica, o que torna necessário o uso de minérios brasileiros ricos em sílica para operações de sinterização e para a alimentação dos altos-fornos.

A administração afirmou que já vem recebendo consultas comerciais relacionadas a soluções de blending envolvendo o minério guineense.

A expectativa é que esse movimento aumente o valor estratégico dos produtos corretivos da Vale e reforce a vantagem competitiva da empresa no mercado global.

Além disso, a mineradora pretende ampliar sua infraestrutura logística por meio de novos centros de concentração e mistura, buscando reduzir custos e aumentar a flexibilidade operacional.

Índia ganha importância na estratégia de crescimento

Entre os mercados considerados prioritários para expansão, a Índia ocupa posição de destaque.

A Vale informou que vem aumentando as vendas para o país e investindo em infraestrutura nas duas costas indianas para ampliar sua presença local.

A estratégia inclui o desenvolvimento de misturas específicas entre minério brasileiro e minérios produzidos na Índia, permitindo atender às necessidades particulares das siderúrgicas locais.

Segundo trimestre deve trazer pressão sobre preços e custos

Apesar do otimismo em relação aos fundamentos de longo prazo, a administração alertou que o segundo trimestre deve apresentar condições menos favoráveis para os resultados da companhia.

Entre os fatores apontados estão descontos aplicados a parte da produção de minério de médio teor que ainda apresenta maior variabilidade de especificações, o que deve pressionar a realização média dos finos.

  • Leia também: Vale (VALE3) tem lucro líquido de US$ 1,893 bilhão no 1T26, e metais básicos ganham espaço no resultado; confira os números da mineradora

A Vale também destacou a compressão dos prêmios do Pellet Feed China (PFC) após o retorno de produtos da mineradora BHP ao mercado.

No segmento de pelotas, a combinação entre menor produção e uma participação maior das pelotas destinadas a altos-fornos, que possuem menor prêmio em relação às pelotas para redução direta, também deve afetar a rentabilidade.

Do lado dos custos, a companhia vê pressão adicional provocada pelo câmbio próximo de R$ 5 por dólar, pelos preços mais elevados do diesel e pelos custos de frete.

Bancos seguem otimistas com a Vale

Apesar dos desafios de curto prazo, Citi e Itaú BBA mantêm recomendações positivas para a mineradora.

O Citi reiterou recomendação de compra para os ADRs da Vale negociados em Nova York e manteve preço-alvo de US$ 18 por ação.

Considerando a cotação de US$ 16,82 utilizada pelo banco, o potencial de valorização é de aproximadamente 7%. Somado ao dividend yield (retorno esperado com o pagamento de dividendos) estimado de 5,9%, o rendimento total projetado chega a cerca de 13%.

Já o Itaú BBA manteve recomendação outperform, equivalente à compra, e elevou o tom positivo sobre a tese da companhia.

O banco estabeleceu preço-alvo de US$ 19 para os ADRs até o fim de 2026, o que representa potencial de valorização de 16,9% em relação ao preço de US$ 16,25 considerado no relatório.

Para as ações negociadas na B3, o preço-alvo do Itaú BBA é de R$ 95 ao final de 2026 — o que implica um potencial de valorização de cerca de 11,8% em relação ao último fechamento (R$ 85).

Na visão dos analistas, a combinação entre disciplina operacional, flexibilidade comercial e uma curva de custos mais elevada para a indústria continua favorecendo a Vale mesmo em um ambiente de preços do minério abaixo dos picos observados nos últimos anos.

Vale cai forte na bolsa

Apesar da visão positiva apresentada pela administração da Vale, as ações da mineradora operavam em queda nesta quarta-feira (3), na esteira do movimento de realização de lucros e a aversão ao risco nos mercados globais.

As ações da Vale também acompanham a queda dos preços do minério de ferro, pressionados pela compressão das margens do aço e pelo enfraquecimento sazonal da demanda na China, maior consumidora global da commodity.

Por volta das 13h40 (de Brasília), VALE3 recuava 3,61%, a R$ 81,92. O movimento também pressionava outras empresas ligadas a mineração e siderurgia, como CSN (CSNA3), Usiminas (USIM5) e Gerdau (GGBR4).

No mesmo horário, o Ibovespa caía 2,25%, aos 170.266,65 pontos, em meio às incertezas sobre as negociações entre Estados Unidos e Irã e às preocupações com a proposta de novas tarifas comerciais norte-americanas sobre diversos parceiros, incluindo o Brasil.

AutorLarissa Bernardes
FonteSeu Dinheiro
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