Varejo: teses descoladas do cenário macro estão no radar dos investidores, segundo BTG Pactual; veja nomes

O BTG Pactual realizou uma rodada de conversas (roadshow) na Europa que reforçou uma mensagem conhecida: quando se trata do varejo brasileiro, as preocupações macroeconômicas dominam. Em um cenário de taxa básica de juros (Selic), a pressão nas margens, despesas financeiras elevadas e o impacto no consumo dado o reflexo no bolso do consumidor são velhos conhecidos do setor.
Em relatório, a equipe de analistas liderada por Luiz Guanais aponta que o interesse dos investidores pelo setor permanece razoável, mas com posicionamento extremamente baixo. Neste cenário, a busca se direciona para teses descoladas do cenário macro.
“Os investidores apontaram de forma consistente a combinação de ‘juros elevados por mais tempo’ no Brasil, elevada aversão a risco global, preocupações com a persistência da inflação tanto global quanto localmente, incertezas geopolíticas e, em menor grau, o cenário eleitoral brasileiro”, diz o banco.
Também estão no radar temas regulatórios, incluindo a redução da jornada semanal de trabalho e seus impactos potenciais para o varejo, embora tenham representado uma parcela muito menor das perguntas em comparação com as discussões sobre a trajetória dos juros.
O roadshow evidenciou que investidores europeus continuam subalocados no varejo brasileiro, principalmente por conta das incertezas macro e não necessariamente pelos fundamentos específicos das companhias.
“Ao mesmo tempo, as empresas que vêm atraindo maior atenção são justamente aquelas percebidas como relativamente mais protegidas dos ciclos macroeconômicos — ou pelo menos menos alavancadas a eles — ou capazes de gerar vetores próprios de crescimento”, dizem os analistas.
Os nomes em destaque
Mercado Livre
O BTG Pactual aponta o Mercado Livre (MELI34) como a ação, com ampla vantagem, mais discutida durante o roadshow. No geral, o sentimento de investidores permanece construtivo no que diz respeito a trajetória de crescimento do volume bruto de mercadorias (GMV) e ao posicionamento competitivo da companhia.
Apesar disso, a rentabilidade continua no centro do debate sobre o nome. De acordo com os analistas do banco, a maior parte dos questionamentos se concentrou na duração do atual ciclo de investimentos da gigante do e-commerce e se a pressão sobre as margens irá perdurar ao longo do próximos trimestres.
“Os investidores demonstraram interesse particular em entender como o Mercado Livre está respondendo às iniciativas cada vez mais agressivas da Amazone da Shopee, que seguem ampliando seus níveis de serviço e expandindo o sortimento no Brasil”, diz o BTG.
O banco também observou um aumento relevante das perguntas relacionadas ao negócio de crédito do Mercado Pago, especialmente em relação à qualidade dos ativos.
“Continuamos observando uma qualidade de ativos saudável, apesar do ritmo mais acelerado do crescimento da carteira, embora maiores provisões devam continuar pressionando as margens no curto prazo à medida que essa carteira amadurece”, ponderam os analistas.
RD Saúde
O segundo nome mais discutido foi a RD Saúde (RADL3), com a evolução do mercado de GLP-1 (medicamentos usados no tratamento de diabetes e obesidade, como Ozempic e Wegovy) no Brasil entre os temas centrais.
De acordo com o BTG, os investidores buscam entender o mercado endereçável, o recente lançamento dos genéricos, as reduções de preços em curso tanto nos medicamentos de referência quanto nos genéricos e a provável elasticidade entre preços menores e maior volume de pacientes.
“A discussão está cada vez mais centrada em quanto dessa oportunidade estrutural a Raia Drogasil será capaz de capturar no médio prazo e se o cenário atual no Brasil implica riscos de queda para as estimativas”, dizem os analistas.
A concorrência do e-commerce, especialmente do Mercado Livre, também surgiu como tema relevante.
Na visão do BTG Pactual, embora o Meli tenha se tornado mais agressivo nas categorias relacionadas à saúde, a ameaça competitiva para medicamentos prescritos permanece limitada no curto prazo, tendo em vista as restrições regulatórias da companhia e o sortimento significativamente mais restrito quando comparado ao das redes tradicionais do varejo farmacêutico.
Lojas Renner
Em um cenário de recuperação do varejo de vestuário, a Lojas Renner (LREN3) atraiu uma atenção mais significativa do que em roadshows anteriores, diz o BTG.
Investidores buscaram maior visibilidade sobre o momento operacional do setor e a execução das iniciativas internas da companhia, especialmente sobre o centro de distribuição e a constribuição dele para o atingimento das metas de margens.
“A concorrência com a Shein também permaneceu como um tema relevante. Os investidores
questionaram de que forma a evolução da tributação sobre importações pode afetar a dinâmica competitiva e o comportamento do consumidor daqui para frente”, pondera o banco.
Smart Fit
A Smart Fit (SMFT3) gerou um volume menor, mas ainda relevante, de perguntas, com as discussões concentradas principalmente no TotalPass.
De acordo com o BTG, os investidores continuam avaliando o cenário competitivo frente ao Wellhub e, principalmente, o perfil de rentabilidade da plataforma corporativa de bem-estar no longo prazo.
“Em nossos relatórios recentes sobre o TotalPass, analisamos a economia unitária da plataforma, seu posicionamento competitivo e a trajetória rumo à rentabilidade. Nosso trabalho continua sustentando a visão de que as margens devem gradualmente estabilizar e melhorar à medida que o negócio ganha escala e maturidade, apoiando uma visão mais construtiva para o médio prazo”, dizem os analistas.
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Varejo alimentar
Em contraste aos nomes que se destacam nas conversas, as varejistas alimentares receberam atenção bastante limitada ao longo do roadshow, de acordo com o BTG.
De forma geral, os investidores não veem catalisadores de curto prazo, além de ser um dos mais expostos ao cenário macroeconômico brasileiro, especialmente aos juros elevados e ao enfraquecimento do poder de compra do consumidor.
“Conforme argumentamos em nosso trabalho recente sobre endividamento das famílias e consumo, custos mais elevados com serviço da dívida e condições financeiras mais restritivas devem continuar pressionando de forma desproporcional os formatos de varejo mais sensíveis ao cenário macro”, ponderam os analistas.
Ainda que as empresas do varejo enfrentem seus próprios riscos de execução e desafios, os investidores parecem cada vez mais focados em identificar negócios capazes de entregar crescimento de lucro líquido mesmo em um ambiente macroeconômico desafiador, destaca o banco.
