Venezuela completa 6 meses sem Nicolás Maduro devastada por terremotos

Seis meses após a captura de Nicolás Maduro, a Venezuela lida com as consequências dos terremotos que deixaram pelo menos 2.595 mortos e colocaram em suspenso reformas institucionais e o caminho para eventuais eleições.
A detenção do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, ocorreu durante uma operação militar dos Estados Unidos em Caracas e em três regiões vizinhas, no dia 3 de janeiro. O episódio abriu um novo cenário político em um país marcado por uma crise prolongada, com impactos simultâneos nas esferas política, econômica e social.
Em meio a esse contexto, a situação evoluiu para uma emergência nacional, com milhares de famílias em luto e mais de 12.000 feridos em processo de recuperação.
Os impactos dos tremores atingem também a infraestrutura do país, já fragilizada por anos de corrupção, baixa manutenção e gestão contestada. As perdas materiais são estimadas em US$ 6,7 bilhões, cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo projeções iniciais do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
O governo venezuelano calcula mais de 12.800 pessoas sem moradia devido a danos estruturais e ao colapso de edifícios, com concentração dos casos no estado de La Guaira, no norte do país e próximo a Caracas, região mais afetada pelos terremotos.
Delcy Rodriguez, presidente interina da Venezuela desde a prisão de Nicolás Maduro. (Federico PARRA / AFP) (Federico Parra/AFP)
A tragédia pressiona tanto o governo interino de Delcy Rodríguez, que assumiu após a captura de Maduro, quanto a relação com os Estados Unidos, que mantêm o plano de transição para a Venezuela estruturado em fases, com foco na recuperação.
Segundo Washington, o programa “permanece intacto”.
Nos seis meses anteriores ao evento sísmico, sob monitoramento da Casa Branca, Delcy Rodríguez avançou em medidas como a abertura de setores estratégicos, entre eles petróleo, mineração e energia elétrica, para investimentos privados e estrangeiros. Também houve desmonte gradual da estrutura governamental ligada a Maduro e mudanças no alto comando militar.
A presidente interina adotou anistias e promoveu a libertação de presos políticos, além de anunciar reformas no sistema de justiça criminal e na estrutura administrativa do governo.
Na semana anterior aos terremotos, os Estados Unidos avançaram para a terceira etapa do plano político, com o envio da opositora Dinorah Figuera a Caracas para diálogo com o chavismo, excluindo a vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, que afirma ter “a responsabilidade de dirigir” as negociações com o governo de Delcy Rodríguez.As negociações entre o presidente do Parlamento, Jorge Rodríguez, irmão da chefe de Estado, e Figuera se integravam ao processo de reorganização institucional. Entre os pontos discutidos estava a formação de um Conselho Nacional Eleitoral (CNE) descrito pela oposição como “vigoroso, crível e transparente”, atualmente sob controle do chavismo.
Interinato e regras constitucionais
Figuera havia informado a necessidade de “entregar em dezembro de 2026 o produto de um trabalho”, cenário que passou a ser incerto após a tragédia e o fim do prazo do interinato.
Pela Constituição, a ausência temporária do presidente é assumida pelo vice-presidente executivo por 90 dias, prorrogáveis por mais 90, totalizando 180 dias mediante decisão parlamentar, o que não ocorreu em plenário.
Em 4 de julho, o período de 180 dias se encerra, o que obriga o Parlamento a deliberar sobre a existência ou não de ausência absoluta.
Caso a ausência seja declarada, deve ocorrer uma “eleição universal, direta e secreta dentro dos 30 dias consecutivos seguintes”, mantendo Delcy Rodríguez no comando do Executivo de forma interina até o pleito.
No dia da captura de Maduro, o Supremo Tribunal classificou o episódio como uma “situação excepcional, atípica e de força maior não prevista literalmente na Constituição”.
O órgão determinou que Delcy Rodríguez assumisse a presidência interina sem definição jurídica definitiva sobre a natureza da ausência presidencial, temporária ou absoluta, nem substituição das competências de outros poderes.
Abertura internacional e resposta humanitária
Vsta aérea mostra edifícios destruídos em Caraballeda, no estado de La Guaira, Venezuela, em 28 de junho de 2026, após terremotos. (Miguel MEDINA / POOL / AFP)
A crise também acelerou a reaproximação da Venezuela com outros países e ampliou medidas de abertura econômica iniciadas anteriormente.
Caracas intensificou relações com governos como El Salvador, Equador, Chile, Panamá, Argentina, Guiana e Israel, que enviaram apoio após a tragédia.
A mobilização internacional envolveu envio de ajuda humanitária, equipes de resgate e profissionais de saúde.
O governo dos Estados Unidos afirmou que “mantém seu compromisso de apoiar os afetados e trabalhar junto a parceiros para ajudar as famílias a se reencontrarem, prestar assistência e levar esperança onde é mais necessário”.
Washington também declarou que sua resposta “continua crescendo, com centenas de pessoas, assistência humanitária e capacidades especializadas que estão apoiando os esforços de resgate e ajuda”.
A presença de veículos de imprensa estrangeiros no país aumentou após o desastre, em contraste com restrições anteriores de entrada e visto.
O cenário político permanece indefinido, com foco voltado para a assistência às vítimas e para a reconstrução das áreas afetadas pelos terremotos.
