Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Mundo
02/07/2026
6 min

Venezuela tem risco de novas doenças após terremoto, diz coordenador da MSF

Venezuela tem risco de novas doenças após terremoto, diz coordenador da MSF

Uma semana após os terremotos que mataram ao menos 2.295 pessoas, a Venezuela enfrenta novos desafios, como o risco de surtos de doenças, e a necessidade de dar abrigo a milhares de desalojados.

“Em um terremoto, toda a infraestrutura fica prejudicada. O sistema de saneamento, a provisão de água e esgoto, tudo isso fica rompido e tem que ser rapidamente fixado, porque há risco de novas doenças e infecções, A gente pode falar de cólera, febre tifoide, difteria, tem várias outras doenças que podem aparecer”, diz Fabio Biolchini, coordenador de operações para América Latina e Caribe da Médicos Sem Fronteiras, em conversa com a EXAME.

“Há infecções ligadas também à decomposição de corpos. Estamos falando de milhares de pessoas que infelizmente não puderam ser resgatados, e com o tempo esses corpos vão se decompondo”, prossegue.

“Isso pode também prejudicar, a rede de água, de esgoto e os próprios hospitais, que recebem esses corpos. Se eles não tiverem condições de higiene adequadas, isso pode causar infecções em pessoas que estão vivas”, afirma.

A Médicos Sem Fronteiras atua na Venezuela desde antes da crise, pois os hospitais locais já não tinham condições de funcionar adequadamente por causa da crise econômica que assola o país há mais de uma década. Leia a seguir mais trechos da entrevista.

Como está a situação na Venezuela neste momento?

A gente está entrando agora em uma segunda fase da resposta à emergência, uma semana depois do desastre. Os primeiros dias e as primeiras horas, geralmente são focalizados em resgate de sobreviventes sob os escombros dos edifícios que colapsaram. As primeiras 72 horas são cruciais para que o máximo possível de pessoas seja salvo. Depois disso, as chances de achar pessoas com vida começam a ficar bastante remotas.

Agora, a resposta de emergência passa para uma segunda fase, que á de tratar dos sobreviventes que agora estão desalojados, São milhares de pessoas que perderam suas casas, seus apartamentos e que hoje estão na rua. Estamos falando de mais ou menos 1.500 edifícios que foram danificados ou completamente colapsados, e não são seguros para voltar.

Então essas pessoas estão simplesmente se instalando em diferentes partes da cidade de Caracas e outras cidades ao redor. Em parques, em lugares que tem espaço, em campos improvisados. Estas pessoas precisam de cuidados médicos de cobertor, de kits de higiene, de tudo que uma pessoa comum necessita e atendimento médico. Não só as pessoas diretamente afetadas pelo terremoto, mas também as pessoas regulares que já precisavam de atendimento médico e que agora se encontram nessa situação de mal vulnerabilidade.

É uma crise muito grave o que está acontecendo na Venezuela. O número de pessoas mortas, infelizmente, deve aumentar muito nos próximos dias. Os venezuelanos precisam de toda a nossa solidariedade dentro e fora do país.

O sistema de saúde da Venezuela já tinha problemas antes. Como isso complica as coisas?

O sistema vem sofrendo, há muitos anos, de uma crise econômica agravada no país. É a razão pela qual nós, Médicos Sem Fronteiras, já estávamos presentes na Venezuela antes mesmo do terremoto, há 11 anos.
Nem todos os hospitais colapsaram. Muitos ficaram funcionais após o terremoto, só que faltavam materiais, como kits de emergência, kit cirúrgico, anestesia, antibióticos, todo tipo de material que se usa numa cirurgia.

Então, nós enquanto Médicos de Fronteiras tivemos esse papel importante no começo, que foi a distribuição de kits de para cirurgia para pessoas com vítimas do terremoto. Distribuímos kits para o cuidado de 3.500 pacientes, o que é bastante relevante.

Os hospitais estão sobrecarregados. Eles já estavam sob pressão mesmo antes do terremoto, e agora com esse número gigante de pacientes novos, mais insumos são necessários, e os médicos estão trabalhando noite e dia.

Houve alguns casos que te marcaram mais?

São muitas histórias tristes. A gente escuta história de pessoas que ainda estão sob os combos que mandavam mensagens por telefone dizendo onde estavam. Muitos voluntários e pessoas locais que começaram a retirar escombros com as próprias mãos a retirar os escombros, para tentar achar familiares e amigos.

Há, também, a sobrecarga de trabalho dos profissionais de saúde que estão na linha de frente. Eles estão trabalhando dia e noite, em condições nada ideias.

Além dos ferimentos gerados pelo terremoto, há risco de que surjam surtos de outras doenças?

Sem dúvida, porque quando você tem um terremoto, toda a infraestrutura de uma cidade fica prejudicada. O sistema de saneamento, a provisão de água e esgoto, tudo isso fica rompido e tem que ser rapidamente fixado, porque há risco de novas doenças e infecções, A gente pode falar de cólera, febre tifoide, difteria, tem várias outras doenças que podem aparecer nesse tipo de contexto.

Há infecções ligadas também à decomposição de corpos. Estamos falando de milhares de pessoas que infelizmente não puderam ser resgatados, e com o tempo esses corpos vão se decompondo. Isso pode também prejudicar, a rede de água, de esgoto e os próprios hospitais, que recebem esses corpos. Se eles não tiverem condições de higiene adequadas, isso pode causar infecções em pessoas que estão vivas e sendo operadas. É um cuidado muito importante que tem que ser feito a partir de agora para que não exista ainda mais uma outra tragédia em cima dessa.

Muitos países ofereceram ajuda, para Venezuela nesse momento. Como que está sendo trabalhar com equipes de tantos países ao mesmo tempo?

As equipes de resgate chegaram bem rapidamente gente de diversos países que são importantíssimos, porque o resgate de pessoas sob os escombros é uma especialidade. Não é todo mundo que sabe fazer, você precisa de treinamento, de maquinário específico e tem muitas equipes com essa especialidade ao redor do mundo que chegaram na Venezuela.

É uma solidariedade muito bonita de se ver, mas ao mesmo tempo traz novos desafios que é a coordenação de todos esses esforços juntos, São múltiplos atores de diversos países, E nem sempre é fácil coordenar todas essas informações em meio a ao caos. Não vamos esquecer que é uma situação caótica. Vários serviços do governo param de funcionar, as rodovias e as ruas ficam congestionadas, não é fácil se movimentar, telecomunicações muitas vezes são rompidas.

A MSF aceita doações pelo site doe.msf.org.br.

AutorRafael Balago
FonteExame
Distribuído por