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Sacre Investimentos
Mercado ImobiliárioFII
12/07/2026
7 min

Vida Imobiliária: A geração que prefere mobilidade a grandes apartamentos

Vida Imobiliária: A geração que prefere mobilidade a grandes apartamentos

Uma das cenas urbanas que mais me chamam a atenção acontece quase todos os dias, mas raramente vira assunto. É quando alguém diz, com a maior naturalidade do mundo: “O apartamento é pequeno, mas eu faço tudo a pé”.

Há alguns anos, essa frase soaria como uma justificativa. Hoje, soa como um privilégio.

É curioso perceber como, silenciosamente, uma geração inteira começou a trocar metros quadrados por minutos. Preferiu reduzir o tamanho da sala para diminuir o tempo no trânsito. Aceitou um quarto menor em troca da possibilidade de almoçar em um restaurante do bairro, trabalhar em um café da esquina ou encontrar amigos sem precisar atravessar a cidade.

Não é apenas uma decisão imobiliária. É uma mudança de lógica.

Durante décadas, morar melhor significava morar maior. O imóvel era, em muitos aspectos, a principal representação do sucesso. Casas cresciam conforme a carreira evoluía. Apartamentos maiores simbolizavam estabilidade. Havia uma relação quase intuitiva entre prosperidade e metragem.

Mas as cidades mudaram. E, com elas, mudou também a forma como as pessoas medem qualidade de vida. Hoje, para muitos jovens, um apartamento de cem metros quadrados localizado a uma hora e meia do trabalho pode parecer menos atraente do que um apartamento com menos da metade do tamanho, desde que permita não perder ou, quem sabe, até recuperar duas ou três horas do próprio dia.

Pela primeira, tempo passou a competir com espaço. Essa percepção não é exclusivamente brasileira. Em diferentes mercados do mundo, pesquisas sobre comportamento residencial vêm identificando uma valorização crescente da caminhabilidade, da proximidade e dos bairros de uso misto. Nos Estados Unidos, por exemplo, levantamentos da National Association of Realtors mostram uma disposição especialmente elevada entre jovens das gerações Z e millennial para pagar mais por comunidades caminháveis. Estudos do Urban Land Institute também vêm registrando, há anos, a atração das novas gerações por regiões mais densas, conectadas e capazes de reunir moradia, trabalho, comércio e lazer.

Em outras palavras, não se trata apenas de morar perto do trabalho. Trata-se de morar perto da vida.

E essa mudança diz muito sobre a sociedade que estamos construindo. Vivemos uma época em que o recurso mais escasso deixou de ser apenas dinheiro. Tornou-se atenção. Tornou-se energia. Tornou-se tempo.

Tempo para praticar uma atividade física antes do expediente. Tempo para jantar em casa sem transformar a refeição em mais uma tarefa da rotina. Tempo para caminhar sem que isso precise acontecer apenas durante as férias. Tempo para encontrar alguém numa terça-feira à noite sem que o encontro exija uma operação logística.

Padarias onde o atendente conhece seu nome. Mercados que podem ser visitados a pé. Praças que realmente fazem parte da rotina. Cafés que funcionam como extensão da casa ou do escritório. O bairro deixou de ser apenas o lugar onde se dorme. Voltou a ser o lugar onde se vive.

E isso ajuda a explicar por que tantas cidades assistem ao fortalecimento de regiões mais compactas, mais caminháveis e mais diversas. Não é apenas uma tendência urbanística. É uma resposta humana a uma vida cada vez mais pressionada pelo tempo.

Há, porém, outra dimensão dessa transformação que merece atenção: a relação das novas gerações com o aluguel.

Durante muito tempo, construímos uma narrativa bastante linear sobre a trajetória residencial. O jovem alugava porque ainda não podia comprar. Depois comprava seu primeiro imóvel. Mais tarde, conforme a renda aumentava, mudava para uma casa ou apartamento maior. O aluguel era visto quase sempre como uma fase transitória; a propriedade, como destino natural.

Essa lógica está se tornando menos simples. Em muitas das grandes cidades do mundo, justamente os bairros mais desejados pelas novas gerações são também aqueles onde a compra se tornou mais difícil. São regiões com boa infraestrutura, transporte, comércio, empregos, cultura e vida urbana — e, por isso mesmo, com terrenos mais escassos e imóveis mais caros.

Surge então uma escolha que o mercado imobiliário talvez ainda não tenha compreendido completamente. Um jovem pode não ter renda suficiente para comprar onde deseja viver, mas pode ter renda suficiente para alugar ali. Essa diferença é fundamental.

Porque, nesse caso, o aluguel deixa de ser apenas consequência da falta de recursos para comprar. Ele passa a funcionar também como instrumento de acesso à cidade. Permite que alguém more perto do trabalho, reduza deslocamentos, preserve vínculos sociais e participe de bairros que seriam inacessíveis pela compra.

Não significa, necessariamente, que os jovens tenham abandonado o sonho da casa própria. Essa conclusão seria precipitada. Pesquisas internacionais e estudos sobre acessibilidade habitacional mostram justamente uma tensão mais complexa: muitos jovens continuam desejando comprar, mas enfrentam uma distância crescente entre renda, preço dos imóveis e custo de entrada nos mercados mais valorizados.

Talvez a pergunta correta, portanto, não seja se essa geração prefere alugar ou comprar. Talvez seja: o que ela prefere preservar quando não consegue comprar tudo ao mesmo tempo?

Mais espaço ou melhor localização? Patrimônio ou mobilidade? Um imóvel maior no futuro ou mais tempo disponível no presente? Para uma parcela crescente dos jovens, alugar um apartamento menor em uma região conectada pode ser mais racional do que comprar mais metros quadrados longe da vida que desejam viver. Não porque tenham desistido da propriedade, mas porque perceberam que localização também é uma forma de riqueza.

E existe um aspecto econômico importante nisso. Quando alguém compra um imóvel mais distante porque é o único que cabe no orçamento, o preço de aquisição não representa o custo completo daquela decisão. Há o tempo gasto no trânsito. Há o custo do automóvel. Há combustível, estacionamento, manutenção. Há o cansaço acumulado. Há oportunidades sociais recusadas porque estavam longe demais. Há horas de vida que simplesmente desaparecem entre a casa e o restante da cidade.

Isso não significa romantizar o aluguel. A locação também carrega riscos. Reajustes, insegurança contratual, menor previsibilidade e ausência de formação patrimonial são questões reais. Em mercados pressionados, o aumento dos aluguéis pode inclusive expulsar os próprios jovens das regiões que eles ajudaram a tornar mais vibrantes. A crise global de acessibilidade à moradia mostra que a liberdade de alugar só existe de fato quando há oferta suficiente e quando o custo habitacional não consome uma parcela insustentável da renda.

Mas talvez justamente aí esteja uma das grandes questões urbanas das próximas décadas. Se os jovens valorizam cada vez mais bairros conectados, caminháveis e diversos, mas não conseguem comprar neles e progressivamente também encontram dificuldades para alugá-los, nossas cidades podem estar produzindo um paradoxo: criam os lugares onde as novas gerações querem viver e, ao mesmo tempo, tornam esses lugares financeiramente inacessíveis para elas.

Esse é um problema imobiliário, mas também urbano, econômico e social. Quando uma geração decide trocar um quarto por uma praça, uma garagem por uma ciclovia ou alguns metros quadrados por uma hora livre no fim do dia, ela está dizendo algo muito maior do que parece. Está redefinindo o próprio significado de conforto.

Antes, a questão era: “Quanto cabe dentro da minha casa?” Agora, parece ser: “Quanto da minha vida cabe fora dela?” Essa diferença altera tudo. Talvez estejamos assistindo ao surgimento de uma geração que descobriu algo simples, mas poderoso: morar bem não depende apenas do que existe entre quatro paredes. Depende, principalmente, do que acontece quando se abre a porta de casa.

No fim das contas, o imóvel continua sendo importante. Mas talvez ele tenha deixado de ser o destino para voltar a ser aquilo que sempre deveria ter sido: o ponto de partida para uma vida que acontece na cidade.

E talvez a maior riqueza urbana do futuro não seja poder comprar mais espaço. Seja poder desperdiçar menos tempo.

AutorFábio Tadeu Araújo
FonteExame
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