Visa, Mastercard e Ant se unem para criar "CPF" que permite IAs usarem dinheiro
As gigantes globais vão desenvolver um padrão comum para verificar a identidade de agentes autônomos antes de deixá-los pagar por você, aposta que McKinsey projeta movimentar até US$ 5 trilhões até 2030

A fintech chinesa Ant International anunciou nesta quinta-feira, 10, uma parceria com Visa e Mastercard para desenvolver um padrão comum de segurança para pagamentos feitos por agentes de inteligência artificial uma aposta de que consumidores e empresas vão usar cada vez mais assistentes autônomos para fechar compras sozinhos.
No comunicado, as empresas citaram projeção da consultoria McKinsey de que agentes de IA devem movimentar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões do comércio global até 2030. Mas Jiang-Ming Yang, diretor de inovação da Ant International, disse à CNBC que o risco de "alucinação" — quando a IA erra ou inventa informação, torna a confiança o maior obstáculo do setor. "A confiança é a base da transformação da IA", afirmou.
A colaboração vai se concentrar no que as empresas chamam de "Know Your Agent", um trocadilho com o "Know Your Customer" (KYC), processo já obrigatório no setor financeiro para verificar a identidade de clientes humanos. A ideia é criar padrões comuns que vinculem cada agente de IA a uma entidade válida, avaliem seu comportamento e monitorem sua atuação ao longo do tempo.
O objetivo prático é a interoperabilidade: hoje, cada bandeira e cada plataforma de pagamento vem construindo seu próprio sistema de verificação, o que obrigaria empresas e desenvolvedores a se cadastrar em múltiplas redes separadas. "Se um agente se registra com a Ant, ele não precisa se registrar de novo com a Visa ou a Mastercard", explicou Yang.
Uma corrida que já dura um ano
Nos últimos 12 meses, Visa, Mastercard e a própria Ant International já haviam lançado, cada uma isoladamente, seu próprio protocolo para agentes de IA completarem pagamentos com segurança, respectivamente o Trusted Agent Protocol, o Verifiable Intent e o Agentic Mobile Protocol, este de código aberto. A nova parceria é uma tentativa de convergir esses esforços paralelos antes que o mercado se fragmente demais.
Fora dos Estados Unidos e da Europa, onde Visa e Mastercard dominam as transações, boa parte das economias emergentes usa carteiras digitais, mais de 50 delas já são parceiras da Ant International, dentro do sistema Alipay+. Essas carteiras também começaram a se conectar a cartões de crédito e já superam o cartão físico como forma de pagamento em muitos mercados: segundo a processadora Worldpay, carteiras digitais responderam por 56% do valor do comércio eletrônico global e 33% das transações em ponto de venda em 2025, somando mais de US$ 13 trilhões em gastos.
O Brasil já está testando o mesmo modelo
O movimento chega num momento em que o Brasil também avança nesse terreno — e por razão parecida à citada pelas próprias empresas: alta digitalização de pagamentos. O Banco do Brasil já realizou, em março, a primeira transação de comércio agêntico do país em parceria com a Visa, e desde então outras empresas, como a Cielo, testam agentes próprios de compra por chat.
O sucesso do Pix, hoje o meio de pagamento mais usado pelos brasileiros, tem sido citado por executivos como um dos motivos que tornam o país um mercado especialmente promissor para esse tipo de tecnologia.
O desafio que ainda falta resolver por aqui é regulatório: diferentemente de Visa e Mastercard, que dependem de rede de cartão, o Pix tem estrutura própria de autenticação e devolução de valores em caso de fraude, e cabe ao Banco Central decidir se vai definir um padrão próprio de identidade de agentes de pagamento com IA, ou se cada bandeira seguirá operando seu próprio sistema paralelo, a mesma tensão de fragmentação que a aliança entre Ant, Visa e Mastercard tenta resolver agora em escala global.
Enquanto o padrão de segurança ainda está em construção, o uso prático já avança na China. A Alipay, controlada pela Ant Group — que se separou da Ant International há quase três anos —, anunciou nesta quarta-feira que usuários podem programar pedidos recorrentes de Starbucks através de um recurso de IA do aplicativo.
Basta dizer ao app algo como "compre um Starbucks Iced Americano às 10h todos os dias", e o pedido é feito automaticamente no horário marcado, com o usuário só precisando confirmar o pagamento. A mesma ferramenta já permite solicitações recorrentes de corrida com a Didi, rival da Uber na China.
