Visa quer levar stablecoins e IA aos bancos, diz CEO da empresa no Brasil

A empresa de infraestrutura de pagamentos Visa pretende aprofundar seus investimentos em stablecoins e inteligência artificial para fornecer este tipo de ferramenta para instituições financeiras. Essa foi a mensagem de Rodrigo Cury, CEO da companhia no Brasil, em entrevista exclusiva para a EXAME.
Segundo Cury, a Visa está especialmente interessada nas possibilidades de remessa de capital para outros países 24 horas por dia e sete dias por semana de forma mais rastreável, algo que é possível com as stablecoins. Além disso, a empresa também vê oportunidade em consultoria e análise de dados sobre este mercado voltada para pessoas jurídicas.
“Investimos em stablecoin porque acreditamos que pode ser mais uma alternativa para nossos clientes e parceiros”, afirma Cury.
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Stablecoins são criptomoedas cuja cotação é sempre igual à de uma moeda tradicional de referência. Uma stablecoin de dólar, por exemplo, usa um sistema de reservas para que sua unidade sempre custe US$ 1,00. Com isso, essas criptomoedas acabam funcionando como uma representação em blockchain do câmbio.
Quem usa stablecoin não está exposto ao controle de capitais do país, pode negociar 24 horas por dia sem os limites do horário comercial e também não paga imposto nas transações, mesmo ao fazer uma transferência ou compra internacional.
Parceria com a WeFi
Em abril, a Visa internacional anunciou uma parceria com a empresa de stablecoins WeFi, especializada na orquestração entre finanças descentralizadas e infraestruturas de pagamento regulamentadas.
“O que procuramos é uma proximidade maior dos sistemas tradicionais de movimentação do dinheiro com essa nova tecnologia aproveitando a posição da Visa como parceira principal de grandes bancos”, explica Cury.
Ao lado dele, Antônia de Souza, diretora de moedas digitais da Visa para América Latina e Caribe, revelou que cada vez mais os bancos estão entrando em contato com a Visa para perguntar como usar stablecoins no dia a dia deles.
“Na Visa não escolhemos a melhor tecnologia. Acreditamos que as stablecoins são uma alternativa e, no fim do dia, será uma alternativa para players que tinham pouca escolha anteriormente”, defende.
Rede global de agentes de IA pagando com stablecoins
Também no radar da companhia está o crescimento de pagamentos usando agentes de IA. Para compras recorrentes, por exemplo, o usuário nem precisaria dar um comando e o agente já se anteciparia para adquirir o produto.
Esses agentes que gastam dinheiro de forma autônoma online, embora ainda sejam uma novidade bem distante da adoção em massa, são parte relevante da estratégia de futuro da Visa. Em relatório, a Keyrock estimou que agentes de IA liquidaram mais de US$ 73 milhões entre maio de 2025 e abril de 2026.
Há uma preferência entre esses agentes pelo uso de stablecoins como moeda de liquidação de transações de máquina a máquina, conforme reconhece Cury.
“Tudo o que é descentralizado e com menos camadas de segurança é mais fácil de usar. Para uma IA usar chave Pix ou credencial de cartão o desafio é maior”, explica.
O desafio, segundo Cury, é aproximar o comércio agêntico de um sistema com nível excepcionalmente alto de segurança. “É por isso que o comércio agêntico não é trivial de se fazer”, admite.
Neste contexto, o executivo afirma que o papel da Visa será trazer as camadas de segurança para viabilizar esse ecossistema financeiro do futuro, no qual IA transaciona com IA a serviço de seres humanos. “No geral, o que trazemos são nossos atributos para essas tecnologias”.
Para Cury, a adoção de tecnologias novas, por mais eficientes que pareçam, pode trazer riscos sistêmicos. Neste contexto, as discussões regulatórias, por exemplo, são positivas e geram convergências.
Bandeira de cartão é só uma parte
Cury também falou sobre o papel da Visa no futuro ser muito mais do que seu negócio mais tradicional, o de bandeira de pagamentos com cartões de crédito. No segundo trimestre ao ano fiscal de 2026, a área de Valor Adicionado de Serviços (VAS) da empresa respondeu por 30% da receita.
“Um dos nossos focos hoje é continuar a expandir a Visa além de pagamentos para serviços de valor agregado, como risco, Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM, na sigla em inglês), marketing, consultoria e análise de dados”, diz o executivo.
A atenção a stablecoins e IA, portanto, refletiria um entendimento de que os modelos de negócio consolidados não são mais o bastante pra sobreviver em um mundo de disrupção digital cada vez mais frequente.
