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Mundo
23/06/2026
7 min

Vitória de Espriella: por que a oposição de direita ganha força na América Latina

Vitória de Espriella: por que a oposição de direita ganha força na América Latina

Governos e lideranças conservadoras da América Latina comemoraram a vitória do milionário Abelardo de la Espriella na eleição presidencial colombiana, interpretada por aliados ideológicos como uma vitória direitista após o mandato de Gustavo Petro.

O advogado e empresário de 47 anos, autodenominado "El Tigre" e conhecido por seu discurso de direita, derrotou no segundo turno o senador Iván Cepeda, aliado de Petro, ao obter 49,7% dos votos, segundo a apuração preliminar oficial. Em caso de vitória confirmada, o direitista tomará posse em 7 de agosto.

Durante a campanha e após a vitória, de la Espriella defendeu o fortalecimento de uma frente conservadora latino-americana e sinalizou aproximação com o presidente americano Donald Trump, afirmando ter recebido apoio do republicano em uma conversa telefônica.

A eleição sublinha não só um possível reposicionamento da Colômbia no cenário regional, com maior alinhamento a governos de direita e aos Estados Unidos, mas também reforça uma tendência à direita política em toda a região.

Segundo um levantamento do pesquisador Brian Winter, 12 das últimas 15 eleições na região foram vencidas por membros da oposição de direita, num fenômeno de fortalecimento dessas posições e de um voto de protesto aos governo incumbentes.

# País Data da eleição Vencedor Orientação política
1 Colômbia 21 jun 2026 de la Espriella Direita
2 Peru 7 jun 2026 Fujimori (liderando, resultado não certificado) Direita
3 Costa Rica 1 fev 2026 Fernández Direita
4 Chile 14 dez 2025 Kast Direita
5 Honduras 30 nov 2025 Asfura Direita
6 Bolívia 19 out 2025 Paz Centro-direita
7 Equador 13 abr 2025 Noboa Direita
8 Uruguai 24 nov 2024 Orsi Esquerda
9 Venezuela 28 jul 2024 Maduro reivindicou vitória / González venceu Resultado contestado
10 México 2 jun 2024 Sheinbaum Esquerda
11 República Dominicana 19 mai 2024 Abinader Centro-direita
12 Panamá 5 mai 2024 Mulino Direita
13 El Salvador 4 fev 2024 Bukele Direita
14 Argentina 19 nov 2023 Milei Direita
15 Guatemala 20 ago 2023 Arévalo Centro-esquerda
Fonte: Brian Winter

Guinada à direita

Um eleitor do candidato de direita Ivan Cepeda protesta a vitória de De La Espirella na Colômbia

Todavia,Espirella é apenas o último de uma longa linha de candidatos de direita, muitos dos quais contaram com o apoio direto de Trump em suas campanhas.

No ano passado, as eleições latino-americanas consolidaram uma sequência de vitórias de candidatos identificados com a direita ou a centro-direita, nas quatro eleições presidenciais do continente.

No Equador,Daniel Noboa garantiu a reeleição com 55% dos votos. Na Bolívia, Rodrigo Paz encerrou duas décadas de predominância política do grupo liderado por Evo Morales, marcando uma mudança significativa no equilíbrio de forças do país.

Em Honduras, o conservador Nasry “Tito” Asfura, apoiado publicamente por Donald Trump, foi declarado vencedor com 40,26% dos votos em uma disputa cercada por questionamentos e por denúncias de irregularidades.

Já no Chile, José Antonio Kast foi eleito com 58,16% dos votos, resultado interpretado por analistas como uma das mais expressivas guinadas à direita na política chilena desde a queda do ditador Augusto Pinochet, em 1990.

O cenário regional é selado pelas lideranças de Javier Milei, na Argentina, e Nayib Bukele, em El Salvador, frequentemente associadas a uma agenda de segurança rígida, liberalização econômica e enfrentamento direto às forças políticas tradicionais.

Para observadores, o avanço desses governos reflete uma reconfiguração do mapa político latino-americano, impulsionada pelo desgaste de administrações anteriores e pela crescente demanda por respostas a desafios econômicos e de segurança pública.

Por que a oposição ganha tanta força?

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma cerimônia de assinatura de acordo de paz com o presidente de Ruanda, Paul Kagame, e o presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, no Instituto de Paz Donald J. Trump, em 4 de dezembro de 2025, em Washington, DC. Como parte de sua campanha para se apresentar como um mediador de conflitos, Trump convidou os líderes africanos a Washington para firmar um acordo de paz e cooperação econômica que busca encerrar décadas de conflito entre os governos de Ruanda e do Congo, milícias, grupos rebeldes e outras facções envolvidas. O acordo de paz foi inicialmente assinado em junho de 2025, mas tropas ruandesas permanecem na RDC e os combates continuam. (

Donald Trump: EUA priorizam América Latina como peça central da política externa (Chip Somodevilla/Getty Images)

Segundo os pesquisadores Carlos Malamud e Rogelio Castellano, as eleições na América Latina no ano passado consolidaram tendências políticas e eleitorais que refletem importantes mudanças sociais: o voto de oposição contra os governos estabelecidos, algo natural nas dinâmicas políticas, assumiu, dessa vez, a forma de uma direita revivida e revigorada.

Por trás disso, Malamud e Castellano destacam alguns fatores.

Primeiramente, apontam os pesquisadores, os resultados eleitorais evidenciaram o desgaste de governos incumbentes e o declínio de partidos históricos em grande parte da região, que viveu um longo período de governos de esquerda: Rodrigo Paz, talvez o mais moderado dos novos direitistas no poder, pôs fim a 20 anos consecutivos de governo de esquerda na Bolívia, por exemplo.

Em Honduras, cerca de 80% dos eleitores concentraram seus votos nos oposicionistas Nasry Asfura e Salvador Nasralla, enquanto a então presidente Rixi Moncada recebeu menos de um quinto dos votos válidos.

No Chile, José Antonio Kast conquistou uma ampla vitória sobre a candidata já estabelecida Jeannette Jara, que serviu por anos como ministra do Trabalho, com uma diferença de cerca de 20 pontos percentuais.

Ato de campanha de Abelardo de la Espriella, na Colômbia: equipe do candidato aposta em “entretenimento” para cativar eleitores e molda futuras campanhas na América Latina (Manuel Pedraza/AFP/Getty Images)

Fator Trump

Aproveitando uma tendência natural dos eleitores, o que os pesquisadores chamam de "fator Trump" também ganhou influência, com o republicano apoiando abertamente candidatos mais alinhados à sua administração, dando um ar de trumpismo à onda direitista.

Seu apoio foi fundamental para as eleições de muitos políticos, de Milei na Argentina a Asfura na Honduras e, agora, de Espirella na Colômbia.

A premissa de combate ao crime, reforçada por Trump por meio do seu poderio militar e de intervenções como a designação de determinadas organizações criminosas como grupos terroristas, bem como pela intervenção que removeu Maduro do poder, também ecoa entre eleitores latino-americanos, que vivem na região com o maior número de homicídios do mundo.O modelo de repressão intensa de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, atraiu elogios de Washington — o prestígio do reconhecimento leva candidatos de todo o continente a buscar ecoar as medidas, inclusive prometendo uma abordagem inspirada no caso de Bukele em suas campanhas.

Por fim, muitos países apresentam cenários políticos fragmentados e polarizados, com elevado número de candidatos e duelos antes impensáveis no segundo turno, entre candidatos que não cativam os eleitores.

Assim, a sombra do republicano, cujo apoio ajuda a superar essas diferenças e unificar a direita, ainda paira sobre as dinâmicas geopolíticas do bloco; vitórias eleitorais consecutivas da direita consolidam um corredor ideológico alinhado a Trump que abrange algumas das principais democracias do continente.

Os pesquisadores apontam, ainda, que a influência americana, em combinação com o "norte" dado por Trump em um cenário de polarização e fragmentação, gera tendências bipartidárias e resulta em eleições ideologicamente menos diversas.

"Em uma eleição altamente polarizada, os dois candidatos mais votados [na Colômbia] obtiveram quase 85% dos votos, um padrão observado em outros países desde 2022. No Brasil, os dois candidatos que se enfrentaram no segundo turno naquele ano [2022] conquistaram 90% dos votos; no Equador, em 2025, mais de 85%; e um pouco menos na Costa Rica, em 2026", escrevem os autores.

No caso brasileiro, foi novamente a intervenção de um presidente americano que ajudou a consolidar o resultado, dessa vez do democrata Joe Biden, cuja interferência — apesar de favorecer a esquerda — não foi muito diferente da de Trump, defendem os pesquisadores.

Isso contrasta com eleições em que nenhum candidato recebeu apoio explícito de Trump: no Peru, por exemplo, Keiko Fujimori, apesar de se alinhar às ideias trumpistas, liderou o primeiro turno com apenas 17% dos votos, seguida por Sánchez, que obteve 12%.

Na Guatemala, nas eleições de 2023, Sandra Torres avançou ao segundo turno com pouco mais de 21% dos votos, enquanto o atual presidente, Bernardo Arévalo, conquistou cerca de 15% e ainda assim foi eleito.

Os números ilustram a dificuldade de candidatos e partidos em construir maiorias eleitorais amplas em um contexto de crescente desconfiança nas instituições e enfraquecimento das forças políticas tradicionais.

É nesse contexto que a interferência americana pode, em casos específicos, dar forma à insatisfação popular, e que candidatos com retóricas de direita, em especial o combate ao crime e foco em uma economia mais liberal, ganham tração política.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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