Vitória de Lula pode tirar 17% do Ibovespa e encarecer dólar em até 15%, diz BTG
Para o banco, reeleição de Lula deve levar juro real longo acima de 8% e frear cortes da Selic; exportadoras e empresas com caixa são a proteção

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva pode custar à bolsa brasileira cerca de 35 mil pontos nas próximas semanas. A projeção é do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), que vê o Ibovespa recuar 17%, para algo perto de 170 mil pontos, a partir dos 205 mil pontos do fechamento de sexta-feira.
Em relatório divulgado nesta segunda-feira, 26, e assinado por cinco analistas, entre eles Carlos Sequeira, o banco estima ainda uma desvalorização de 10% a 15% do real. Com o efeito do câmbio, a perda da bolsa medida em dólar chegaria a cerca de 30%.
Lula foi reeleito no domingo, 25, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A diferença foi de 4,4 milhões de votos.
O resultado representou uma virada sobre o primeiro turno, quando o petista terminou cerca de 2,2 milhões de votos atrás do senador. Lula chega assim ao quarto mandato.
O mercado vinha precificando outro desfecho. No último pregão antes da votação, oIbovespa fechou em alta de 0,47%, aos 205.082 pontos, e o dólar caiu para R$ 4,99, embalados pela perspectiva de vitória de Flávio.
Juro longo acima de 8% e Selic travada
A tese do BTG vai além da reação imediata das ações. Para o banco, a vitória do presidente deve pressionar os juros de longo prazo, enfraquecer o real e reduzir o espaço do Banco Central para acelerar o ciclo de cortes da Selic.
O ponto central é o juro real longo, a taxa paga pelos títulos públicos atrelados à inflação, como as NTN-Bs. Ela é referência para o custo de capital das empresas.
Hoje, essa taxa está em 6,7%, depois de cair 0,81 ponto percentual nos últimos 30 dias. Segundo o BTG, ela deve subir rapidamente para acima de 8% e permanecer nesse nível até que o governo apresente a política fiscal dos próximos quatro anos.
Esse patamar ficaria acima da média de todos os governos recentes. No terceiro mandato de Lula, o juro real longo foi de 6,65%, em média, e no segundo, de 6,9%. Nos dois governos de Dilma Rousseff, ficou em 5,52% e 6,55%. Com Michel Temer, em 5,45%, e com Jair Bolsonaro, em 4,49%.
Juros longos mais altos, câmbio mais fraco e expectativas de inflação desancoradas tendem a frear o Banco Central. O boletim Focus projeta a Selic em 12% no fim de 2027, uma redução de 1,75 ponto percentual em relação ao nível atual.
Para o BTG, a depender da política fiscal do novo governo, até essa projeção pode se mostrar agressiva. Na visão do banco, só o anúncio de uma equipe econômica com credibilidade e sinais de disciplina fiscal criariam condições para juros menores.
O tamanho da queda projetada também tem base no valuation. Sem Petrobras e Vale, o Ibovespa negocia a 10,9 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, um desconto de 8,4% em relação à média histórica.
O banco espera que o índice desça rapidamente até um desvio-padrão abaixo dessa média, o equivalente aos 170 mil pontos.
A estimativa é mais pessimista do que a feita no início do mês. Na carteira recomendada de outubro, o BTG calculava que uma reeleição de Lula levaria a um recuo de cerca de 10% do Ibovespa e do real.
O relatório também destaca o novo desenho do Congresso, que vai pesar na negociação de qualquer ajuste fiscal. O PL elegeu 19 senadores e passa a ter 28 das 81 cadeiras do Senado. Somados os aliados, o grupo alinhado a Flávio deve chegar a cerca de 40 senadores a partir de 2027.
Na Câmara, o PL elegeu 121 deputados, 24% do total, e a coalizão de Flávio soma 203 cadeiras, ou 40%. Os partidos de esquerda mantêm tamanho semelhante ao da legislatura atual, com 125 deputados, e o centro fica com 179.
Nos estados, 16 governadores eleitos são alinhados à agenda bolsonarista, incluindo os de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Para aprovar medidas relevantes, Lula precisará negociar com os partidos de centro, segundo o BTG.
As ações que o BTG recomenda para atravessar a queda
Para o investidor, o banco aponta três grupos de ações que devem atravessar melhor um cenário de real mais fraco e juros altos.
- Exportadoras: ganham com o dólar mais caro. O BTG cita Gerdau, Suzano e Vale; PRIO, de petróleo; SLC Agrícola, 3Tentos e São Martinho, do agronegócio; e as industriais WEG e Embraer.
- Defensivas com balanço forte: as seguradoras Caixa Seguridade e Porto Seguro e a fabricante de bebidas Ambev.
- Grandes empresas: Petrobras, pela exposição ao câmbio e ao petróleo e pelos dividendos, e Itaú, que, entre os grandes bancos, é o mais bem posicionado para atravessar o período, segundo o BTG.
Parte dessas ações já se moveu antes da eleição. Em 30 dias, 3Tentos subiu 38,9%, PRIO avançou 21,3% e Petrobras, 18,3%. A estatal acumula alta de 102,5% no ano.
Outras exportadoras ficaram para trás no mesmo período: WEG caiu 16,5%, Vale recuou 13,4% e Embraer, 10%.
O banco também listou as empresas menos alavancadas de sua cobertura, que tendem a sofrer menos com a Selic alta. Todas têm dívida líquida negativa, ou seja, mais dinheiro em caixa do que dívidas.
O indicador usado é a relação entre dívida líquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Quanto mais negativo, maior a folga financeira.
| Empresa | Setor | Dívida líquida/Ebitda 2026* | Dívida líquida/Ebitda 2027* |
|---|---|---|---|
| VTEX | Tecnologia | -5,8x | -4,6x |
| XP Inc | Financeiro (ex-bancos) | -3,8x | -4,1x |
| Bradsaude | Saúde | -3,1x | -3,3x |
| Locaweb | Tecnologia | -1,9x | -2,1x |
| Bemobi | Tecnologia | -1,3x | -1,0x |
| Intelbras | Tecnologia | -1,1x | -1,5x |
| PRIO | Petróleo e gás | -1,1x | -0,8x |
| Vivara | Varejo | -0,8x | -1,2x |
| Totvs | Tecnologia | -0,7x | -1,1x |
| Méliuz | Financeiro (ex-bancos) | -0,7x | -1,0x |
| Lojas Renner | Varejo | -0,6x | -0,5x |
| CSN Mineração | Mineração e siderurgia | -0,6x | -0,5x |
| M. Dias Branco | Alimentos e bebidas | -0,5x | -0,4x |
| Ambev | Alimentos e bebidas | -0,5x | -0,5x |
| Track & Field | Varejo | -0,3x | -0,6x |
| Usiminas | Mineração e siderurgia | -0,3x | -0,5x |
| PagBank | Financeiro (ex-bancos) | -0,3x | -0,2x |
| WEG | Bens de capital | -0,3x | -0,4x |
| Cury | Imobiliário | -0,3x | -0,4x |
| Embraer | Bens de capital | -0,2x | -0,4x |
| B3 | Financeiro (ex-bancos) | -0,2x | -0,2x |
| PetzCobasi | Varejo | -0,1x | -0,4x |
*Projeções. Fonte: BTG Pactual
O que a história mostra
As duas últimas eleições ajudam a dimensionar o risco. Nos 12 meses seguintes à vitória de Jair Bolsonaro, em 2018, o Ibovespa subiu 26,2%. Depois da eleição de Lula, em 2022, o índice recuou 1,8% no mesmo intervalo.
O número do índice, porém, esconde a pressão sobre setores ligados à economia doméstica. Em uma amostra de cerca de 70 ações acompanhada pelo BTG, só 27,5% subiram no primeiro mês após a vitória de Lula em 2022. Depois da vitória de Bolsonaro em 2018, foram 66,7%.
Naquele primeiro mês de 2022, os índices de consumo, financeiro e imobiliário da B3 caíram 10,9%, 10,1% e 13,1%, respectivamente. O de materiais básicos, que reúne exportadoras, subiu 12,8%.
Os próximos passos estão em Brasília. Para o BTG, a montagem da equipe econômica e os primeiros sinais sobre a política fiscal do quarto mandato vão definir se o juro real longo continuará elevado e, com ele, a pressão sobre a bolsa.
