Vitória por menos de um ponto eleva risco de contestação das eleições, diz Goldman Sachs
Banco vê mandato fraco se a diferença no 2º turno ficar abaixo de um ponto; margem acima de quatro pontos daria ao vencedor um mandato claro

Um ponto percentual. Essa é a distância que, na leitura do Goldman Sachs, separa uma transição tranquila de um pós-eleição sob risco de contestação nosegundo turno presidencial deste domingo, 25. Se o vencedor terminar menos de um ponto à frente do adversário, cresce a chance de o resultado ser questionado, e o novo governo pode começar com um mandato fraco.
O alerta está em relatório publicado pela equipe de economia para a América Latina do banco, assinado por Alberto Ramos, Sergio Armella, Santiago Tellez e Panteleymon Semka. Os analistas também apontam a outra ponta da régua: uma vitória por mais de quatro pontos daria ao eleito um mandato claro.
As pesquisas indicam que o resultado deve ficar mais perto da linha de risco do que da zona de conforto. Na média das pesquisas calculada pelo banco, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tem 51% dos votos válidos, contra 49% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A diferença é de 1,9 ponto percentual.
Uma disputa dentro da margem
Flávio terminou o primeiro turno, em 4 de outubro, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos. O resultado contrariou a maior parte das pesquisas, que mostravam o petista numericamente à frente.
Durante a campanha do segundo turno, a corrida se estreitou. Segundo o Goldman, a vantagem de Flávio recuou para uma faixa entre zero e 2,5 pontos. Dos 17 institutos acompanhados pelo banco, só o Vox Brasil mostra Lula à frente, por 1,2 ponto. Datafolha, Quaest e Ipespe apontam o senador com 1,1 ponto de vantagem, e a BTG/Nexus, com 0,6 ponto.
O banco reconhece que os institutos subestimaram de forma relevante o voto conservador no primeiro turno, nas disputas para presidente, Congresso e governos estaduais. Ainda assim, lembra que as pesquisas de segundo turno costumam errar menos que as de primeiro.
Os mercados de previsão, plataformas em que apostadores negociam contratos sobre o resultado, ainda dão favoritismo a Flávio. A vantagem, porém, é menor do que logo após o primeiro turno. O relatório descreve a campanha como intensa, negativa e marcada por intervenção judicial significativa.
O risco de contestação tem precedente recente. Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro por 50,90% a 49,10% dos votos válidos, a disputa presidencial mais apertada desde a redemocratização, com diferença de 2,1 milhões de votos.
Semanas depois, o PL pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a invalidação de votos registrados em urnas de modelos anteriores a 2020. O então presidente da Corte, Alexandre de Moraes, negou o pedido e multou a coligação em R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé. A multa ficou depois só com o PL e foi mantida pelo plenário do TSE.
A margem daquela eleição, de 1,8 ponto, ficou acima do limite de um ponto que o Goldman agora aponta como zona de maior risco.
A apuração que muda ao longo da noite
A votação vai das 8h às 17h, no horário de Brasília. O banco espera uma apuração rápida, com cerca de 50% dos votos totalizados pelo TSE em até duas horas após o fechamento das urnas e 90% em até três horas.
O relatório alerta, porém, que as primeiras parciais costumam diferir de forma significativa do resultado final. Tanto em eleições anteriores quanto no primeiro turno deste ano, a contagem inicial favoreceu os candidatos conservadores, e a vantagem de Flávio encolheu à medida que mais urnas eram apuradas.
| Votos apurados | Vantagem de Flávio (pontos percentuais) |
|---|---|
| 10% | 10,2 |
| 50% | 8,4 |
| 80% | 5,7 |
| Resultado final | 1,9 |
Fonte: Goldman Sachs Global Investment Research
Entre a parcial de 10% e o resultado final, houve um deslocamento de 8,3 pontos em direção a Lula. Pelo histórico citado pelo banco, a vantagem de um candidato no início da noite não basta para indicar o vencedor.
A abstenção é outra variável. Ela costuma subir do primeiro para o segundo turno, e uma taxa alta, em tese, favoreceria Flávio. O Goldman avalia que este ano pode fugir do padrão, como ocorreu em 2022. A abstenção do primeiro turno já ficou acima das eleições anteriores, a disputa é polarizada e os dois candidatos intensificaram os esforços para levar às urnas quem não votou.
O que vem depois das urnas
Além da margem, o banco destaca o tom dos discursos de vitória e de reconhecimento da derrota. Para os analistas, eles vão indicar se a polarização tende a persistir e se a transição institucional vai ocorrer sem sobressaltos.
Superada a apuração, o foco do mercado passa para a composição do ministério e para os sinais de política econômica e de reformas. O Goldman espera reação positiva dos ativos a sinais de paz social, estabilidade política e medidas que estimulem o investimento e o crescimento.
O ponto de partida é fraco. Segundo o banco, o PIB per capita cresceu em média 0,15% entre o terceiro trimestre de 2011 e o segundo trimestre de 2026. O investimento, medido pela formação bruta de capital fixo (FBCF), ainda estava 8,3% abaixo do pico do segundo trimestre de 2013. Para os analistas, uma mudança de regime na política econômica é urgente.
