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08/06/2026
9 min

Viver mais virou um desafio financeiro e um negócio de R$ 14 bilhões para esta seguradora

Viver mais virou um desafio financeiro e um negócio de R$ 14 bilhões para esta seguradora

O Brasil caminha para se tornar um país de idosos. Segundo projeções divulgadas pelo IBGE, o número de brasileiros com 60 anos ou mais deve saltar de 33 milhões para 75,3 milhões até 2070. Com isso, os idosos representarão 37,8% da população, quase quatro em cada dez brasileiros.

Com esse cenário, alguns setores se sobressaem no mercado. Além da saúde, outro segmento que avança junto com o envelhecimento da população é o de seguros. É nesta onda que a Icatu, empresa brasileira focada em seguros de vida, previdência e capitalização, está surfando registrando 20% de crescimento consistente nos últimos anos.

A companhia encerrou 2025 com faturamento de R$ 14,6 bilhões e mais de 14 milhões de clientes. O motivo? A busca crescente por proteção financeira em um país onde viver mais significa também planejar melhor a aposentadoria, proteger a renda da família e se preparar para imprevistos.

“A população tem duas grandes preocupações à medida que envelhece: manutenção da renda e saúde. A aposentadoria pública é muito importante, mas qualquer complemento precisa vir da previdência complementar ou do seguro de vida”, afirma Luciano Soares, CEO da Icatu, em entrevista exclusiva à EXAME, direto da sede da companhia no Rio de Janeiro.

O desempenho ocorre em um mercado que ainda possui baixa penetração quando comparado a países mais maduros na cultura de proteção financeira.

“O mercado brasileiro ainda é subpenetrado. Houve uma evolução muito grande nos últimos anos, mas ainda existe muito espaço para crescer”, afirma Soares.

Veja também: Como o Fleury cresceu junto com a expectativa de vida do Brasil

Uma aposta iniciada há quase um século e que envolve o Bradesco e investimento em esporte

Embora a Icatu complete 35 anos em 2026, suas origens remontam à história da família Almeida Braga, tradicional no mercado financeiro e de seguros brasileiro.

A trajetória começou em 1930, com a criação da Atlântica Seguros, companhia voltada a seguros patrimoniais e corporativos que ajudou a consolidar a presença da família no setor. Sob a liderança de Antônio Carlos de Almeida Braga, conhecido como Braguinha, a empresa ganhou notoriedade tanto pelos negócios quanto pelo incentivo ao esporte brasileiro.

“Apaixonado por vôlei, Braga patrocinou o histórico time Atlântica Boa Vista e chegou até a contratar atletas da seleção brasileira como funcionários da companhia após os Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, para evitar que migrassem para clubes europeus”, diz Soares.

Antônio Carlos de Almeida Braga foi capa da EXAME em 1973. Hoje, a Icatu Seguros que a sua família criou em 1991 fatura mais de R$ 14 bilhões (Exame/Divulgação)

Em 1981, a Atlântica foi incorporada ao Bradesco. Dois anos depois, surgiu oficialmente a Bradesco Seguros, unificando as operações do banco com a Atlântica Boa Vista.

Após sua saída do grupo, na década de 1980, a família decidiu criar a Icatu inicialmente como uma gestora de recursos voltada à administração do patrimônio familiar em um período marcado pela hiperinflação e pela instabilidade econômica brasileira.

“O nome Icatu tem uma origem curiosa. Embora signifique ‘rio de águas boas’ em tupi, a escolha foi motivada pela Rua Icatu, no Rio de Janeiro, onde vivia a família controladora da companhia”, diz Soares.

Pouco tempo depois, em 1991, os filhos de Braguinha enxergaram uma oportunidade ainda pouco explorada no país: criar uma seguradora focada exclusivamente na proteção das pessoas. A aposta deu origem à Icatu Seguros, com atuação em seguros de vida, previdência privada e capitalização.

“A tese era simples: em algum momento o Brasil estabilizaria sua economia e a demanda por proteção financeira cresceria”, afirma.

Trinta e cinco anos depois, a previsão se confirmou.

Pandemia: o que mudou em relação ao seguro de vida?

Entre as três principais linhas de negócio da companhia (vida, previdência e capitalização) o seguro de vida tem sido o principal motor de expansão.

Em 2025, o prêmio retido da carteira de seguro de vida atingiu R$ 6,1 bilhões, crescimento de 19% em relação ao ano anterior. O destaque ficou para o segmento de vida individual, que avançou 67,1%, além dos crescimentos de 17,8% no seguro de vida em grupo e de 17,7% no prestamista.

Hoje, a seguradora passa a proteger, em média, mais de 450 mil pessoas por mês por meio de seus seguros de vida.

“O interessante não é apenas o crescimento de um ano específico. O que chama atenção é a consistência. Nos últimos quatro anos conseguimos manter crescimento acima de 20% ao ano”, afirma o CEO.

A pandemia também teve papel importante na mudança de comportamento dos consumidores.

“O debate sobre finitude passou a acontecer ao mesmo tempo entre diferentes gerações. Todo mundo conhecia alguém que sofreu com a Covid. Isso trouxe para a mesa discussões sobre proteção, invalidez, sucessão e segurança financeira”, diz.

Uma pesquisa nacional realizada pela Icatu em parceria com a Conversion mostra que o tema da morte está cada vez mais presente na vida dos brasileiros. Segundo o levantamento, 67% afirmam pensar na morte com alguma frequência, sendo 47% “de vez em quando” e 20% “com frequência”.

Apesar disso, a reflexão ainda raramente se transforma em planejamento financeiro efetivo. Apenas 12% dos entrevistados afirmam possuir seguro de vida, enquanto 43% dizem já ter conversado sobre o assunto com familiares sem adotar medidas concretas de proteção.

O estudo também identificou um descompasso entre patrimônio e proteção. Enquanto 53% afirmam possuir investimentos ou aplicações financeiras que poderiam ser herdados pela família, apenas 12% contam com seguro de vida. Outros 22% dizem não ter nenhum produto financeiro que deixariam para os familiares em caso de falecimento.

“Estamos crescendo ano a ano, mas ainda temos muito espaço para crescer no Brasil”, diz o CEO.

Luciano Soares, CEO da Icatu: “São duas preocupações inerentes de qualquer população que vai envelhecendo: manutenção da renda e saúde” (Leandro Fonseca /Exame)

Geração Z e longevidade: as oportunidades em um Brasil que envelhece

O envelhecimento populacional é um dos fatores que mais sustentam a perspectiva positiva para o setor de seguros.

Para o CEO, conforme a população envelhece, duas preocupações passam a ocupar lugar central na vida financeira das famílias: renda e saúde.

“São duas preocupações inerentes de qualquer população que vai envelhecendo: manutenção da renda e saúde”, afirma.

Ele avalia que a combinação entre previdência privada e seguro de vida será cada vez mais importante para complementar a cobertura oferecida pelo INSS. As discussões sobre reformas previdenciárias, inclusive, costumam impulsionar o setor.

“Sempre que a reforma da Previdência entra em pauta, mais pessoas percebem que talvez a cobertura tradicional não seja suficiente para manter seu padrão de vida no futuro”, afirma Soares.

A nova geração também se mostra mais propensa a pensar em proteção financeira.

“Os jovens já não esperam passar a vida na mesma empresa, mas justamente por isso precisam começar mais cedo a construir sua própria proteção financeira”, afirma Soares.

Os dados da seguradora mostram uma mudança importante na forma como Millennials e integrantes da Geração Zenxergam o seguro de vida.

Ao contrário das gerações anteriores, que tradicionalmente associavam o produto à proteção da família em caso de morte, os mais jovens vêm contratando coberturas voltadas à proteção durante a própria vida.

Entre os Millennials, 81% contratam cobertura para invalidez parcial por acidente e 72% para doenças graves. Na Geração Z, os percentuais são ainda maiores: 88% e 81%, respectivamente.

A cobertura para doenças graves, inclusive, tornou-se uma das modalidades que mais crescem dentro da companhia. Em 2022, ela estava presente em 58% das apólices comercializadas. Atualmente, já ocupa a segunda posição entre as coberturas mais contratadas pela seguradora.

“O seguro de vida deixou de ser visto apenas como um instrumento para os herdeiros. Cada vez mais ele é percebido como uma ferramenta de proteção financeira para situações que acontecem durante a vida”, afirma o presidente da Icatu.

Tecnologia para atender 14 milhões de clientes

Para sustentar a expansão, a Icatu vem investindo pesado em tecnologia.

Nos últimos cinco anos, foram mais de R$ 2 bilhões destinados à modernização de sistemas e processos. O objetivo, no entanto, não é substituir a relação humana, afirma o CEO.

“Investimos para que a força de vendas tenha menos trabalho operacional e possa focar na relação de confiança com o cliente”, afirma Soares.

A seguradora possui atualmente 29 filiais e cinco regionais espalhadas pelo país.

“A estrutura busca adaptar produtos e estratégias às diferentes características econômicas e sociais de cada região”, afirma o CEO. “Buscamos melhorar a democratização do acesso e por isso temos um portfólio que vai do microsseguro a coberturas mais amplas.”

A aposta continuará acelerando. Apenas em 2026, a companhia prevê investir mais de R$ 300 milhões em tecnologia, com foco em inteligência artificial, automação de processos, digitalização da subscrição e melhoria da experiência de clientes, corretores e parceiros.

Luciano Soares começou na Icatu como estagiário e se tornou CEO em 2023 (Leandro Fonseca /Exame)

O estagiário que virou presidente

A história de Soares dentro da companhia também conta com o podemos chamar de longevidade. O economista começou na empresa como estagiário no início dos anos 1990 e desde abril de 2023.

“O plano inicial era seguir carreira acadêmica, mas a oportunidade de trabalhar na Icatu mudou os rumos da minha carreira”, conta Soares que começou como pesquisador de macroeconomia na PUC-RJ e depois entrou para o corporativo.

Ao longo de mais de três décadas, passou por diversas áreas na Icatu, assumiu posições de liderança, integrou o conselho da seguradora por 15 anos e posteriormente foi escolhido para ocupar a presidência executiva.

“Nunca tive medo de encarar problemas. Sempre gostei de aprender coisas novas e resolver desafios”, afirma.

Veja também: Um olhar para o futuro: os desafios e avanços do ensino superior no Brasil

O maior desafio para a empresa avançar: convencer os brasileiros a se planejar

Apesar dos resultados robustos, Soares acredita que o principal desafio da companhia (e dele como CEO) continua sendo educacional.

Para ele, muitos brasileiros ainda adiam decisões importantes relacionadas à proteção financeira, previdência e planejamento patrimonial.

“Gostaria que as pessoas tivessem consciência de que uma não decisão também é uma decisão. E isso pode ser muito perigoso quando estamos falando de proteção financeira e planejamento para o futuro”, afirma.

A missão da Icatu, segundo o executivo, é justamente ampliar essa conscientização em um país que envelhece rapidamente e onde a necessidade de proteção financeira tende a crescer nas próximas décadas.

“Muitas vezes o seguro não é um prêmio de loteria. O seguro é importante para te recolocar nos trilhos em um momento de adversidade, como a perda de um familiar ou de um emprego”, diz Soares.

Para uma companhia que cresceu apostando na longevidade dos brasileiros, a mensagem que eles levam pelo Brasil é de que viver mais, com qualidade e um mínimo de conforto, exige planejamento e investimento.

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AutorLayane Serrano
FonteExame
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