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30/10/2026
7 min

Vivo confirma conversas para comprar a Vero, dois anos após tentar a Desktop

Tele confirma tratativas não vinculantes após ser questionada pela CVM

Vivo confirma conversas para comprar a Vero, dois anos após tentar a Desktop

Vivo confirma tratativas preliminares e não vinculantes com acionistas da Vero, provedora de internet por fibra

Comunicado responde a ofício da CVM, que questionou a empresa após reportagem do Estadão

Vero tem 1,3 milhão de clientes em 425 cidades e dívida líquida de R$ 3 bilhões

Em 2024, a Vivo tentou comprar a Desktop, mas não houve acordo de preço e a provedora acabou com a Claro

A Telefônica Brasil (VIVT3), dona da Vivo, confirmou nesta sexta-feira, 30, que mantém tratativas preliminares, em caráter não vinculante, com acionistas da Vero, provedora de internet por fibra óptica com atuação nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Em comunicado ao mercado, a companhia afirmou que, até o momento, não há decisão sobre a realização de uma eventual operação nem acordo quanto à sua estrutura, termos e condições. Por isso, segundo a empresa, não há fato relevante pendente de divulgação. A tele disse ainda que manterá acionistas e mercado informados caso surja algum evento cuja divulgação seja exigida por lei ou regulamentação.

O esclarecimento atende a um ofício enviado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na quinta-feira, 29. A autarquia pediu à companhia que se manifestasse sobre a veracidade de uma reportagem publicada pelo Estadão e que explicasse por que não tratou o assunto como fato relevante. O prazo para a resposta terminava nesta sexta, sob pena de multa cominatória de R$ 1 mil.

O que disse a reportagem

A negociação foi revelada pela Coluna do Broadcast, do Estadão, na quarta-feira, 28. Segundo fontes ouvidas pelo jornal, a Telefônica Brasil já havia contratado assessores para avaliar a aquisição e as conversas estavam em curso, sem acordo vinculante assinado.

De acordo com as fontes do Estadão, a principal vantagem para a Vivo seria reforçar a presença no Sudeste e no Sul, onde a operadora disputa clientes com a Claro e com provedores regionais fortes em Santa Catarina e no Paraná, como a Unifique. O negócio seria relevante, mas não chegaria a representar uma mudança estrutural para a companhia, e foi descrito como uma operação mais oportunística diante das dificuldades financeiras da Vero.

Quem é a Vero

Fundada em 2019 e investida da gestora Vinci Compass, a Vero foi desenhada desde o início para abrir capital na bolsa. A piora do mercado, porém, fechou a janela de IPOs nos últimos anos. Em 2023, a empresa se fundiu com a Americanet, investida da Warburg Pincus. Hoje, Vinci e Warburg detêm juntas 60% do negócio, e o restante está com sócios minoritários. Segundo o Estadão, a venda seria a porta de saída para as gestoras de private equity.

Segundo a apresentação de resultados do segundo trimestre, a Vero tem cerca de 1,3 milhão de clientes de fibra, uma rede própria que passa por 7,2 milhões de domicílios e presença em nove estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. A base de banda larga, no entanto, vem encolhendo. Só neste ano, a empresa perdeu 64 mil assinantes, segundo o Estadão, efeito da concorrência acirrada, do corte de clientes inadimplentes e de critérios mais rígidos de crédito para novas vendas.

Em paralelo, a provedora tem apostado na venda de planos de celular combinados com a internet fixa. A base móvel chegou a 367 mil linhas em junho, alta de 65,8% em um ano, e 43,8% dos clientes já contratam pelo menos um produto além da banda larga. A receita média mensal por cliente subiu 3,2%, para R$ 118,50. Ainda assim, a receita líquida em 12 meses ficou praticamente estável, em R$ 1,71 bilhão, e a companhia acumulou prejuízo de R$ 40 milhões no período.

A Vero destaca que reduziu os investimentos em 19,4% em 12 meses e elevou em 40% sua geração de caixa medida pelo Ebitda menos capex, para R$ 448 milhões. A margem Ebitda ajustada ficou em 53,4%.

O endividamento é o ponto mais sensível. A dívida líquida da Vero era de R$ 3,04 bilhões ao fim de junho, o equivalente a 3,3 vezes o Ebitda, mesmo patamar de um ano antes. Mais de 90% do total está em debêntures, com custo médio ponderado de 14,32% ao ano. Os vencimentos sobem de R$ 320 milhões em 2027 para R$ 406 milhões em 2028 e R$ 634 milhões em 2029, enquanto o caixa da empresa somava R$ 315 milhões em junho.

Em outubro, a S&P alterou a perspectiva do rating da empresa de estável para negativa, citando perda de clientes, queda no faturamento e dificuldade de cumprir as métricas de alavancagem assumidas com os debenturistas.

Aval da Espanha e a questão dos dividendos

Para avançar, o negócio precisa do aval da controladora, o Grupo Telefónica, na Espanha, que tem o governo espanhol entre seus acionistas e passará por eleições no país em novembro. Em 2025, a multinacional anunciou um plano para reduzir dívida e ganhar eficiência global, com corte de custos de cerca de 3 bilhões de euros até 2030. Uma das fontes ouvidas pelo Estadão questionou se os acionistas vão preferir ampliar a exposição ao Brasil ou preservar caixa para pagar dividendos.

No Brasil, a Vivo tem se comprometido a distribuir no mínimo 100% do lucro líquido de 2026 aos acionistas. Entre janeiro e julho, a remuneração efetivamente paga somou R$ 6,99 bilhões, alta de 31,6% sobre o mesmo período de 2025.

A tentativa com a Desktop

Não é a primeira vez que a Vivo mira um provedor regional. Em 29 de maio de 2024, a operadora e a Desktop, provedora sediada em Sumaré (SP), confirmaram em fatos relevantes que conversavam sobre uma possível operação, ainda sem termos de preço ou estrutura definidos. Dias antes, a notícia do interesse da Vivo havia feito as ações da Desktop subirem 16% no pregão de 24 de maio.

Na época, a Desktop tinha 1,04 milhão de clientes de banda larga no estado de São Paulo, e a compra poderia dar à Vivo a liderança no mercado paulista. As empresas, porém, não chegaram a um acordo sobre o preço, e a Vivo desistiu do negócio, segundo o Brazil Journal.

Em outubro de 2025, a Claro entrou em negociações avançadas pela Desktop. Como a sobreposição de redes entre as duas no estado era menor, a operação se tornava atrativa para a Claro mesmo a preços mais altos. Em março deste ano, a Claro comprou o controle da Desktop por R$ 2,4 bilhões, em uma transação que avaliou a provedora em R$ 4 bilhões.

O movimento faz parte de uma onda de consolidação na banda larga fixa, um mercado considerado saturado. Além da compra da Desktop pela Claro, a Brasil Tecpar está adquirindo a Ligga, e a Giga Mais e a Sky discutem uma combinação de negócios.

Como está a fibra da Vivo

No segundo trimestre de 2026, a receita de fibra até a casa (FTTH) da Vivo somou R$ 2,15 bilhões, alta de 10,7% em um ano. A rede passava por 32 milhões de domicílios (+6,4%), e as casas conectadas chegaram a 8,2 milhões (+11,3%). Com isso, a taxa de penetração subiu 1,1 ponto percentual, para 25,6%, e o churn, que mede o cancelamento de clientes, recuou para 1,4%. A fibra da operadora está presente em 453 cidades.

A combinação de fibra e celular tem ganhado peso. A base convergente de FTTH alcançou 5,3 milhões de acessos, dos quais 3,8 milhões no Vivo Total, oferta que reúne os dois serviços em um único plano, com crescimento de 18,4% em um ano. No trimestre, o Vivo Total respondeu por 86% das novas adições de fibra feitas nas lojas próprias da empresa.

Os 1,3 milhão de clientes da Vero equivalem a cerca de 16% das casas conectadas à fibra da Vivo ao fim de junho.

A operadora também tem fôlego financeiro. Ao fim do segundo trimestre, a companhia tinha caixa líquido de R$ 3,79 bilhões, sem considerar os arrendamentos. Incluindo esse efeito, a dívida líquida era de R$ 11 bilhões.

A Telefônica Brasil divulga o balanço do terceiro trimestre em 10 de novembro.

AutorMitchel Diniz
FonteExame
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