Você tem medo de investir? Emoções e bets travam as finanças — mas também podem ser combustível
Entre emoções, boletos e apostas online, o dinheiro não chega aos investimentos, mostra pesquisa. E os bancos precisam entrar nessa conversa

Organizar a vida financeira faz muita gente ter pesadelos. O planejamento exige encarar de frente a origem dos problemas e fazer uma incômoda autocrítica. Afinal, o rombo na conta pode ser resultado de descontrole financeiro ou até um sinal de que é preciso buscar um salário mais alto.
Se tudo isso deixa você com medo, confuso ou até disposto a desistir de investir, saiba que não está sozinho.
Segundo levantamento da Planejar, elaborado pela Timelens e divulgado nesta quinta-feira (17), 855 mil perguntas feitas na internet sobre investimentos ao longo dos últimos cinco anos estão relacionadas à confusão, enquanto outras 806 mil têm o medo como tema.
Além disso, os rastros digitais mostram que 1,458 bilhão de buscas estão associadas ao receio de perder dinheiro.
A pesquisa revelou ainda que os questionamentos têm como motivação a urgência em resolver pendências imediatas, com a ansiedade financeira sendo tema de 2,202 bilhões de procuras.
Segundo o levantamento, esses sentimentos travam a decisão de investir e dificultam a disposição para pedir ajuda. A culpa e a vergonha também pesam na escolha sobre investimentos, com 332 mil e 198 mil pesquisas.
O resultado dessa dificuldade aparece no número de investidores no país. Apenas 33 em cada 100 brasileiros conseguem guardar algum dinheiro e, desse grupo, somente 12 pessoas chegam a realmente investir.
Entre os participantes que possuem reserva, 17% afirmaram que direcionam recursos para bets. Os principais motivos são a busca por ganho rápido em momentos de necessidade (39%) e o entretenimento (32%).
A pesquisa intitulada "O que a Faria Lima não vê" analisa 6,431 bilhões de perguntas indexadas no Google, 467 milhões de consultas únicas e 392 mil menções públicas nas redes sociais realizadas por 47,3 milhões de usuários únicos.
O estudo também utiliza como referência, pesquisas de mercado elaboradas pela Anbima e pela B3.
Rumo à liberdade financeira
A boa notícia é que esses receios também podem ser o empurrão que faltava para começar a investir. A Planejar mostra que a decisão de fazer investimentos não surge de uma curiosidade, vontade de aprender e nem mesmo da atratividade dos produtos do mercado.
Os verdadeiros incentivos para começar a aplicar o dinheiro em ativos financeiros são os problemas concretos da vida.
"Ninguém acorda querendo comprar um CDB, um fundo ou uma carteira. O brasileiro quer sair do aperto, organizar uma reserva, realizar um projeto, proteger alguém ou construir um futuro", afirma a empresa em relatório.
Segundo o levantamento, essa característica aparece nas buscas na internet, onde 76,1% das perguntas começam por situações cotidianas e objetivos de vida. Enquanto isso, apenas 14,6% citam diretamente um produto financeiro.
Ou seja, existem 5,21 vezes mais perguntas iniciadas pelo contexto real das famílias do que pela procura por uma aplicação específica. E é aí que mora o problema para os bancos.
Quem precisa de ajuda para investir?
A pesquisa mostra que as instituições financeiras e assessores de investimento chegam tarde na conversa sobre a vida financeira do cliente. Cerca de 81,9% do tempo gasto em toda a jornada do investidor está em etapas que o mercado tradicional não atende.
Essa trajetória começa muito antes de montar uma carteira, que acaba sendo a etapa final de todo um processo que inclui entender o problema, organizar uma reserva e planejar as finanças para projetos específicos.
“Quando o mercado entra apenas no momento em que a pessoa já está escolhendo onde investir, chega tarde a uma conversa que começou muito antes”, afirma Renato Dolci, diretor de Dados da Timelens e autor do estudo.
O levantamento também indica que a população tem conhecimento intermediário no tema, com 66% das perguntas contendo uma linguagem que não é básica e tampouco avançada.
Já 29% das buscas apresentam termos básicos e apenas 5% contam com comunicação avançada.
Dolci destaca que essa diferença no nível de conhecimento não está atrelada ao tamanho do patrimônio. "Ter mais renda, idade, formação ou patrimônio não garante segurança para investir. Investimento permanece um território de confusão, comparação e medo", disse.
"As pessoas ainda buscam ajuda para sair das dívidas. As etapas seguintes desse planejamento serão consequência desse momento crucial de estruturar a vida desse cliente”, completou Ana Leoni, CEO da Planejar.
