Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
23/07/2026
10 min

Volvo CE lança máquina elétrica de 23 toneladas e investe R$ 500 mi para reduzir uso de diesel

Volvo CE lança máquina elétrica de 23 toneladas e investe R$ 500 mi para reduzir uso de diesel

CAXIAS DO SUL (RS) - A Volvo Construction Equipment (CE), divisão de máquinas de construção do Grupo Volvo, começou a testar no Brasil uma escavadeira elétrica de 23 toneladas como parte de um plano para reduzir a dependência do diesel em pedreiras, minas, obras de infraestrutura e outras operações pesadas.

A EC230 Electric entrou em operação na Caxiense Fagundes, pedreira localizada em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. A unidade é a primeira do modelo testada em uma operação comercial no país e se soma a três carregadeiras elétricas da Volvo já compradas pela empresa gaúcha. A EXAME esteve no local para acompanhar o funcionamento dos equipamentos.

O lançamento ocorre enquanto o Grupo Volvoinicia um ciclo recorde de R$ 2,5 bilhões em investimentos no Brasil entre 2026 e 2028. Cerca de 20% do montante — aproximadamente R$ 500 milhões — terá impacto sobre o negócio de equipamentos de construção, segundo a companhia. Os recursos serão destinados à ampliação do portfólio, pesquisa e desenvolvimento, produtividade, segurança e descarbonização. O investimento total é o maior feito pela Volvo no país desde o início da produção local, em 1979.

A aposta chega em um momento positivo para a divisão. No segundo trimestre de 2026, a Volvo CE registrou aumento de 14% nas entregas de máquinas da marca, avanço de 8% nos pedidos e crescimento orgânico de 9% nas vendas de serviços. O resultado operacional ajustado foi de 3,1 bilhões de coroas suecas, com margem de 14,4%, ante 13,1% um ano antes.

Parte crescente dos recursos globais de desenvolvimento já está concentrada em novas formas de propulsão. Segundo Luiz Marcelo Daniel, presidente da Volvo CE na América Latina, aproximadamente dois terços dos investimentos em renovação de produtos são direcionados a tecnologias como baterias, hidrogênio e combustíveis renováveis.

“É a entrega de uma visão de longo prazo. Queremos chegar a 2030 com uma parcela relevante das vendas composta por máquinas livres de combustíveis fósseis e, em 2040, alcançar um universo completamente diferente do que encontramos hoje”.

A estratégia combina equipamentos movidos a bateria, células de hidrogênio e motores capazes de funcionar com combustíveis renováveis. Nas máquinas de médio porte usadas em pedreiras, como carregadeiras e escavadeiras, a bateria é, por enquanto, a tecnologia mais próxima de ganhar escala.

EC230 Electric, da Volvo CE: escavadeira de quase 24 toneladas começou a ser testada em uma pedreira de Caxias do Sul (Volvo CE/Divulgação)

Uma escavadeira de 23 toneladas

A EC230 Electric é uma escavadeira de uso geral projetada para extração, movimentação de terra, preparação de terrenos e manuseio de resíduos e sucata. O modelo tem peso operacional entre 23,8 e 24,5 toneladas, bateria com capacidade de 422 quilowatts-hora e pode trabalhar por até oito horas, dependendo da intensidade da operação.

O equipamento foi desenvolvido sobre a plataforma da EC230 a diesel. Segundo a Volvo, a versão elétrica mantém desempenho semelhante ou superior ao modelo convencional, com torque instantâneo, menor vibração, menos ruído e ausência de emissões de gases durante a operação.

Em jornadas menos intensas, a máquina pode trabalhar durante todo o turno e ser carregada à noite. Em atividades mais severas, a estratégia é recorrer às chamadas recargas de oportunidade, feitas durante o almoço ou outras pausas dos operadores. Com potência máxima, a bateria pode passar de 20% para 80% em uma hora.

A máquina não precisa parar a operação exclusivamente para carregar. O operador pode aproveitar o intervalo, uma troca de turno ou uma parada já prevista para fazer a recarga e continuar trabalhando”, afirma Guilherme Ferreira, head de gestão de produtos e produtividade da Volvo CE.

Guilherme Ferreira, head de gestão de produtos e produtividade da Volvo CE: equipamentos elétricos unem redução de emissões e menor custo operacional (Volvo CE/Divulgação)

A primeira unidade foi colocada na Caxiense Fagundes para que a pedreira compare seu desempenho com o de escavadeiras a diesel utilizadas na mesma operação. Antes disso, a empresa havia sido uma das primeiras no Brasil a testar e comprar a carregadeira L120 Electric, lançada no mercado nacional em 2025.

As três carregadeiras da pedreira acumulam quase 2.000 horas de trabalho. Elas retiram e transportam o basalto processado até a área de expedição, onde o material é carregado em caminhões e vendido para setores como construção civil, infraestrutura e produção de concreto.

“Fizemos a demonstração da carregadeira por quatro semanas. Os operadores ficaram entusiasmados com a força e a produtividade e, depois dos testes, o cliente decidiu comprar as máquinas”, diz Rafael Nieweglowski, diretor comercial da Volvo CE no Brasil.

Rafael Nieweglowski, diretor comercial da Volvo CE no Brasil: empresa prepara novos modelos para ampliar a escala da eletrificação (Volvo CE/Divulgação)

A conta além da sustentabilidade

O principal obstáculo para a disseminação dos equipamentos ainda é o preço. De acordo com Luiz Marcelo Daniel, uma carregadeira elétrica de médio porte pode custar entre 40% e 45% mais do que uma máquina equivalente a diesel. 

A diferença começa a diminuir quando são considerados os custos de operação. Nas contas apresentadas pela Volvo aos clientes, a eletrificação pode reduzir em 80% o gasto energético, embora o resultado dependa da tarifa de eletricidade, da severidade do trabalho e da disponibilidade de infraestrutura para recarga.

“O apelo ambiental é importante, mas a operação também precisa ser sustentável do ponto de vista econômico”, afirma Nieweglowski. “Quando reduzimos em cerca de 80% a linha de gasto com combustível, que costuma ser uma das maiores da planilha do operador, o investimento começa a ficar vantajoso.”

L120 Electric da Volvo CE: equipamento pode reduzir em cerca de 80% o gasto energético na comparação com uma máquina a diesel (Volvo CE/Divulgação)

Segundo Daniel, o valor adicional pago por uma máquina elétrica pode ser recuperado entre 18 e 24 meses em operações com alta utilização e energia competitiva. Na prática, o retorno pode ocorrer após aproximadamente 2.500 a 3.000 horas de trabalho.

Além da energia, os modelos elétricos dispensam componentes associados ao motor a combustão e tendem a exigir menos intervenções de manutenção. Também eliminam a necessidade de transportar, armazenar e controlar estoques de diesel dentro do canteiro.

Em contrapartida, a eletrificação exige uma rede industrial capaz de atender aos carregadores. As máquinas de médio porte operam com sistemas de alta tensão e precisam de instalações trifásicas. Em algumas operações, a infraestrutura elétrica pode custar tanto ou mais do que a diferença inicial entre os equipamentos.

“Quando existe estrutura para recarga, a solução se torna muito competitiva. O desafio aparece nos locais em que a rede ainda não tem capacidade suficiente”, afirma Ferreira.

Pedreira produz a própria energia

Na Caxiense Fagundes, parte desse obstáculo foi resolvida antes mesmo da chegada das máquinas. A pedreira instalou uma usina fotovoltaica com 5.200 painéis solares, 26 inversores e capacidade informada de 1,8 megawatt.

O projeto ocupa uma área de 17.000 metros quadrados e começou a operar entre 2022 e 2023. A energia é utilizada na britagem, na produção de concreto e no carregamento das máquinas elétricas. Quando a geração supera o consumo, o excedente é enviado à concessionária e convertido em créditos.

“Queríamos ter uma operação 100% sustentável. Primeiro construímos a usina para produzir nossa própria energia. Depois começamos a pensar: por que não usar essa eletricidade também nos equipamentos?”, diz José Fernando Fagundes, diretor executivo da Fagundes Construção e Mineração.

A empresa comprou a pedreira em 2009 e, desde então, investiu em infraestrutura, processamento de materiais e redução de impactos como poeira e ruído. A proximidade com a área urbana de Caxias do Sul tornou o tema particularmente relevante.

Quando a Volvo ofereceu a primeira carregadeira elétrica para testes, a Fagundes decidiu esperar o equipamento da fabricante, com a qual já mantinha relacionamento comercial.

“Tínhamos receio de que a máquina elétrica apresentasse menor força de escavação, velocidade ou produtividade. Para nossa surpresa, em alguns casos, o desempenho é superior ao das máquinas a combustão”, afirma Fagundes.

José Fernando Fagundes, diretor executivo da Fagundes Construção e Mineração: empresa já opera três carregadeiras elétricas no Rio Grande do Sul (Volvo CE/Divulgação)

O motor elétrico entrega torque instantaneamente, sem depender do aumento de rotação observado no diesel. Essa característica pode acelerar ciclos curtos, nos quais a carregadeira recolhe o material, recua e o deposita em um caminhão próximo.

Outro efeito percebido é a redução de ruído e vibração na cabine. Embora o ambiente da pedreira continue ruidoso devido às britadeiras, caminhões e demais equipamentos, as carregadeiras elétricas são praticamente inaudíveis a poucos metros de distância.

A Fagundes possui uma frota de mais de 2.400 equipamentos distribuídos por operações em diferentes regiões do país. A intenção é substituir gradualmente parte desse volume por modelos elétricos, desde que os locais tenham condições de recarga.

“Aonde houver infraestrutura, queremos colocar equipamento elétrico”, diz Fagundes. A companhia também negocia testes com caminhões elétricos para transportar material dentro da pedreira.

Mais modelos até 2030

O portfólio elétrico da Volvo CE disponível no Brasil inclui atualmente a carregadeira média L120 Electric, a carregadeira compacta L25 Electric, a escavadeira compacta ECR25 Electric e a nova EC230 Electric.

A próxima etapa é levar a eletrificação a máquinas maiores. A empresa prepara versões elétricas de carregadeiras das categorias L150, L180 e L220, utilizadas em operações mais pesadas. Também estuda ampliar a linha de escavadeiras para modelos próximos de 50 toneladas.

A meta apresentada pelos executivos é fazer com que 35% das vendas da Volvo CE sejam formadas por equipamentos elétricos até 2030. No horizonte de 2040, a empresa pretende oferecer soluções livres de emissões de carbono em todo o portfólio, incluindo baterias, hidrogênio e combustíveis renováveis.

“Não adianta ter apenas dois modelos. Para chegar aos 35%, precisamos ampliar o portfólio e oferecer uma versão elétrica ao lado da equivalente a diesel”, afirma Nieweglowski. “A migração será gradual e acontecerá primeiro nos locais em que a infraestrutura e a conta econômica já permitem a mudança.”

A eletrificação deve avançar inicialmente em pedreiras, mineração, galpões industriais, reciclagem e operações em ambientes fechados, nos quais a ausência de gases de escape e a redução de ruído têm valor adicional. Máquinas compactas já são utilizadas, por exemplo, em túneis, fábricas e áreas onde equipamentos a diesel não podem operar.

O desafio será levar a mesma lógica a obras distantes da rede elétrica ou que mudam frequentemente de localização. Para esses casos, a Volvo avalia unidades móveis de energia, carregadores com armazenamento próprio e outras formas de propulsão.

O Brasil ocupa uma posição importante nessa estratégia. A Volvo CE mantém a sede administrativa latino-americana em Curitiba, no Paraná, e fabrica equipamentos em Pederneiras, no interior de São Paulo. A unidade industrial, inaugurada em 1975 e incorporada integralmente pela Volvo em 1995, produz carregadeiras, escavadeiras, compactadores e caminhões articulados para o mercado brasileiro, outros países da América Latina e exportações para Estados Unidos, Europa e Ásia.

Enquanto os modelos elétricos de grande porte ainda são importados, a fábrica brasileira segue recebendo investimentos para atualizar os equipamentos convencionais. Em 2026, a empresa apresentou uma nova geração das carregadeiras L150 e L180, produzidas em Pederneiras, com melhorias em produtividade, segurança, transmissão e conforto para o operador.

A coexistência das duas tecnologias deverá marcar os próximos anos. De um lado, as máquinas a diesel continuam necessárias em locais sem infraestrutura. Do outro, operações previsíveis, com turnos definidos e acesso a eletricidade começam a mostrar que a substituição pode ser ambiental e financeiramente viável.

“O cliente não compra apenas uma promessa de sustentabilidade”, afirma Nieweglowski. “Ele compra quando vê a máquina trabalhando, compara a produtividade e percebe que a conta fecha.”

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
Distribuído por