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Mundo
04/06/2026
4 min

Votar não basta se democracia não garantir direitos e bem-estar, diz Pnud no Brasil

Votar não basta se democracia não garantir direitos e bem-estar, diz Pnud no Brasil

Em um momento de polarização na América Latina, o simples ato de votar “não garante a democracia”, e o bom funcionamento do sistema depende da capacidade dos cidadãos de exercerem seus direitos e prosperarem, afirmou Claudio Providas, representante residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) no Brasil.

Em entrevista à Agência EFE concedida em seu escritório em Brasília, Providas enfatizou que para que o sistema democrático tenha vida longa não basta haver sistemas políticos funcionais se eles não conseguirem gerar resultados de desenvolvimento humano “com rapidez, eficiência e transparência”.

“Não é uma questão de poder aquisitivo, trata-se de (os cidadãos) sentirem que existe prosperidade, que têm liberdades civis, que seus direitos possam se tornar efetivos. Não basta simplesmente votar, isso não garante a democracia ou os direitos, não se consegue somente com um texto constitucional ou leis. É necessário todo um sistema de governo que possa garantir que essas leis se traduzam na concretização dos direitos”, afirmou.

O representante do Pnud disse que a maioria das crises humanitárias de origem política são resultado de um “fracasso” na promoção do desenvolvimento humano.

E, no caso da América Latina, o segredo para evitar a crise do sistema é continuar apostando em desenvolver “uma classe média próspera, informada, educada”.

“Copo meio cheio”

Providas mantém uma perspectiva otimista. Ele destacou que a região da América Latina e Caribe continua a ser “a mais democrática do mundo”, com quatro em cada cinco cidadãos vivendo sob sistemas democráticos e participando de eleições, mas advertiu que o descontentamento decorre do fato de ela continuar sendo a mais desigual do mundo.

Além disso, as democracias atravessam agora novas pressões que afetam especialmente os jovens, como a polarização, a desigualdade, a insegurança, a desinformação acentuada pela inteligência artificial e a percepção de que o sistema político "não cumpre", nem responde às suas expectativas.

"O sentimento dos jovens é de que não estão sendo ouvidos", declarou o representante do Pnud ao explicar o contexto dos protestos de jovens ocorridos nos últimos anos em países como Chile, Colômbia, Peru, Equador e México.

Diferentemente das gerações anteriores, que valorizavam a democracia por terem uma memória "fresca" das ditaduras ou regimes autoritários das décadas de 1970 e 1980, os jovens de hoje cresceram em sistemas democráticos e agora exigem resultados concretos em termos de qualidade de vida, emprego, educação e oportunidades.

Um dos principais desafios, destacou Providas, é adaptar as instituições a uma nova realidade marcada por crise climática, redes sociais e crime transnacional.

Receita contra a polarização

O representante do Pnud advertiu para o impacto da polarização política, que o recente relatório regional do órgão da ONU identificou como um dos principais riscos para a democracia latino-americana.

Para ele, a polarização é resultado de uma "falta de escuta" do outro e, embora não existam "soluções mágicas", o melhor caminho é o diálogo.

"Acredito que devemos retornar a esse fundamento, que é profundamente democrático, que é o diálogo", afirmou, além de advertir que nem toda informação contribui para o diálogo democrático.

O cidadão comum, segundo Providas, sofre um "bombardeio" diário de mensagens por meio das redes sociais, ao que soma a inteligência artificial, o que dificulta discernir entre a realidade e a desinformação.

"Portanto, não é somente um tema de diálogo, mas de retornar a um diálogo que é informado, baseado em fatos, em evidências", acrescentou.

Para contribuir com o diálogo democrático, o Pnud realizou o fórum "Governos do Futuro: Expectativas da Juventude", nos dias 19 e 20 de maio, em Brasília.

O evento proporcionou um espaço de diálogo no qual jovens latino-americanos discutiram o estado atual da democracia e os desafios dos governos do futuro.

O evento, que teve o apoio da Agência EFE e transmissão ao vivo em espanhol, reuniu presencialmente durante dois dias quase 100 jovens, em uma tentativa de compreender e buscar soluções para a crescente desilusão política entre as novas gerações.

AutorEFE
FonteExame
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