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Sacre Investimentos
Exame INCMDT
27/08/2026
4 min

Votorantim vende Nexa sem levar dinheiro — e vira maior acionista da Boliden

Holding troca uma participação de 64,7% na mineradora por 7% da sueca Boliden, torna-se sua maior acionista e leva para a Europa uma estratégia que já começa a aparecer em outras partes do portfólio

Votorantim vende Nexa sem levar dinheiro — e vira maior acionista da Boliden

A venda do controle da Nexa para a sueca Boliden, anunciada nesta quinta-feira, 27, parece à primeira vista uma saída da Votorantim da mineração. É justamente o contrário. A holding dos Ermírio de Moraes está trocando os 64,68% que detém em uma mineradora concentrada no Brasil e no Peru por cerca de 7% de uma companhia que, depois da transação, terá 12 minas e oito smelters espalhados entre a Europa e a América Latina. A participação fará da Votorantim a maior acionista da Boliden e virá acompanhada de um assento no conselho de administração.

Pelo acordo, a Votorantim receberá 21,4 milhões de novas ações da Boliden, numa relação de 0,25 ação da companhia sueca para cada papel da Nexa. A transação avalia 100% do equity da mineradora latino-americana em cerca de US$ 2 bilhões e seu enterprise value em US$ 3,7 bilhões. A Boliden ficará inicialmente com os 64,68% da Nexa hoje pertencentes à Votorantim e, depois do fechamento da transação, previsto para o primeiro trimestre de 2027, fará uma oferta em dinheiro pelos papéis que continuarem nas mãos dos minoritários. A Nexa permanecerá como uma empresa separada, e a expectativa é que quatro dos sete integrantes de seu novo conselho sejam ligados à Boliden.

Mudança de estratégia

A Votorantim não está aproveitando a valorização recente da Nexa para colocar dinheiro no caixa. Está rolando praticamente toda a sua exposição para ações da compradora. E não terá liberdade para desmontar rapidamente essa posição: 25% dos papéis recebidos ficarão sujeitos a lock-up de um ano, outros 25% por dois anos e mais 25% por três anos. A estrutura reforça a intenção declarada de permanecer como acionista de longo prazo da companhia sueca. Em apresentação de resultados à investidores europeus nesta semana, a Boliden já apresentou a Votorantim como uma peça importante da operação, tanto pela condição de acionista relevante quanto pelo conhecimento acumulado de Brasil e Peru, mercados nos quais os suecos passam a operar diretamente pela primeira vez.

A mudança é relevante porque a Votorantim foi construída historicamente em torno de participações de controle em grandes ativos industriais. Nos últimos anos, porém, começou a aparecer com mais frequência do outro lado dessa equação, ao entrar na CCR sem controlá-la e comprar uma participação relevante da Hypera. A diferença, no caso da Boliden, é que a participação de 7% vem com presença no conselho e tornam a Votorantim o maior acionista individual de uma empresa europeia que, combinada à Nexa, terá receita anual na casa dos US$ 12,5 bilhões.

Lógica da permuta

A Nexa tem cinco minas e três unidades de fundição no Brasil e no Peru e faturou US$ 3 bilhões no ano passado, com EBITDA ajustado de US$ 772 milhões. A Boliden acrescenta a essa estrutura sete minas e cinco smelters na Europa. O grupo combinado produziria, com base nos volumes de 2025, 667 mil toneladas de zinco concentrado, além de 137 mil toneladas de cobre e 140 mil toneladas de chumbo. Na fundição, a produção de zinco passaria de 1 milhão de toneladas. Pelas estimativas apresentadas pela própria Boliden, a combinação seria a segunda maior produtora mundial de zinco concentrado do mundo, atrás apenas da Hindustan Zinc, e a terceira maior em zinco refinado, atrás de Korea Zinc e Glencore.

O zinco não costuma ocupar o mesmo espaço que cobre e lítio nas teses ligadas à transição energética, mas a Boliden vê um aperto estrutural se formando no mercado. Em sua apresentação aos investidores, a companhia projeta crescimento da demanda puxado por infraestrutura, construção e transição energética, enquanto a produção das minas existentes começa a cair de forma mais acentuada a partir de meados da próxima década.

Para a Votorantim, a transação representa um prêmio de aproximadamente 30% sobre o valor de sua participação na Nexa e uma valorização superior a 200% em 12 meses. É uma virada importante para um ativo que, há poucos anos, estava entre os que mais pressionavam os resultados da holding. Em 2023, a combinação de preços mais baixos dos metais, custos elevados e as dificuldades para colocar Aripuanã, projeto de zinco no Mato Grosso, em plena operação derrubou os resultados da Nexa e levou a companhia a registrar prejuízo.

Para a Boliden, a Nexa oferece uma entrada pronta em duas das principais jurisdições minerais da América Latina, com minas, fundições, projetos e, principalmente, décadas de relacionamento com fornecedores, comunidades e governos. A companhia sueca já compra matérias-primas na região, mas nunca operou minas por aqui.

AutorPedro Gil
FonteExame
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