Vozes: mulheres enfrentam obstáculos na política, mas "irmãos" seguem no poder
A ausência de mulheres e pessoas negras no poder enfraquece a democracia representativa e perpetua esquemas de corrupção e desigualdade

Por Elisa Dinelli, internacionalista e Diretora Executiva da Elas no Poder.
"Meu irmão", "Conte comigo para tudo". Os acontecimentos mais recentes sobre as relações escusas entre entes importantíssimos da República e o vetor do maior escândalo de corrupção da história do país escancararam - além de todas as claras problemáticas das atividades de corrupção de entidades estatais e o desvio de dinheiro de aposentados - o pacto masculino que se forma, quase que instantaneamente, sobre as promessas de ganhos de poder e dinheiro.
Todo o resto se dissolve: a ética, a transparência, a justiça…a democracia.
Com apenas um ponto de interesse - o de enriquecimento patrimonial instantâneo - uma cadeia de pactos e relações que se mostram afetuosas nas trocas de mensagens de Whatsapp, se concretiza. Esforços desmedidos são direcionados à essa única função: enriquecer e permanecer no poder.
Como líder de uma organização da sociedade civil que promove a igualdade de gênero em espaços eletivos, analisar esse tipo de comportamento é revoltante na medida em que a Elas no Poder, como tantas outras organizações, desenha inovações, propostas, cria novas tecnologias para que, dentro do jogo democrático das eleições, a liderança política do Brasil seja mais representativa da própria população.
Mais mulheres, mais pessoas negras, mais pessoas indígenas, mais pessoas LGBTQIAPN+.
Iniciativas da sociedade civil pela diversidade
Através da Plataforma VIVA, criamos um protocolo que apoia partidos políticos a, na prática, combater a misoginia e o racismo internamente.
A Im.pulsa é a nossa plataforma aberta e gratuita, criada com o Instituto Update, direcionada a mulheres que querem se candidatar, não sabem como ou precisam de maior apoio para se preparar para fazer campanha e se organizar financeiramente e politicamente para tal.
O Meninas Cidadãs foi um projeto que durou mais de dois anos e impactou mais de 200 jovens mulheres de 8 capitais brasileiras para que se entendam como líderes e tenham as ferramentas para mudar a sua própria realidade e a realidade de seus territórios.
Com mais de 40 voluntárias espalhadas pelo Brasil e por algumas partes do mundo, a Elas no Poder é uma comunidade que pensa e respira política a todo momento, que entende que a mudança positiva perpassa pelo coletivo. Relações republicanas são feitas desta forma.
A resistência da estrutura não-republicana
O que vemos na prática, no entanto, mostra que a estrutura está desenhada para permitir que relações não-republicanas continuem a acontecer e que seja cada dia maior o número de atores envolvidos, pois onde há o pacto de não agressão e não exposição, não há medo de corromper, de querer cada vez mais poder e dinheiro.
E os atores com menos poder, e aqui falo como membro da sociedade civil organizada, torcem para que o mínimo seja definido, para que cotas de orçamento de campanhas sejam respeitadas (o que não são) e haja o mínimo de proteção e respeito a pessoas pouco representadas na política (o que não há), para que possam também ser eleitas e governar os seus pares (o que é extremamente difícil de acontecer).
A urgência de uma democracia representativa
E, assim, a democracia brasileira tenta caminhar. Pactos de afeto e proteção como os prometidos entre os entes no entorno de Daniel Vorcaro só podem existir em uma democracia que não enfrenta a mudança na estrutura.
Atores que foram eleitos ou indicados para proteger a dignidade de seus cargos não o estão fazendo porque entendem que não precisam, que seus interesses estão acima dessa pequena coisa chamada democracia representativa.
Não nos enganemos ao dizer que é coincidência quando vemos que são sempre homens brancos com estes pactos de vilipêndio à democracia e ao que é público. A estrutura foi desenhada para que seja assim. Ela precisa que sejam os mesmos atores e que estes mesmos atores a fortaleçam.
Desta forma, é importante, sim, a implementação das tecnologias criadas por organizações da sociedade civil como a Elas no Poder, o que é só possível através de financiamento sério.
Mas também é urgente que sejam assegurados os 50% de cadeiras no Congresso Nacional e em todas as casas legislativas deste país, para mulheres e pessoas negras. 50% nos tribunais e em todos os espaços do judiciário. O poder executivo, também, precisa urgentemente que metade da sua composição seja de mulheres e pessoas negras.
Redesenhando os espaços de poder
Não é só para foto. Não é só para que a sociedade brasileira seja representada em um espaço que possa decidir o destino deste país.
É para que também se derreta a percepção de que homens brancos podem fazer tudo, pactuar tudo, corromper tudo, simplesmente porque estão em um espaço de autoridade.
O pacto que precisa ser feito é o de que o povo será governado pelo povo, portanto, a estrutura será redesenhada. Mesmo que isso signifique que homens brancos precisem sair para que mulheres e pessoas negras ocupem.
